Olho indefinidamente o caderno a minha frente, com 15 folhas em branco. Noventa foram usadas. Como sofro por isso! Um caderno jamais deve deixar-se corromper com letra alheia. Capa dura, protegendo um vasto conteúdo, podendo ser sigiloso ou não.
Textos autorais, fichamento de livro, registros de pensamentos-insight, contatos de telefone, palavras soltas que, quando as escrevi, transbordavam de sentidos, mas que, agora, são como pedras soltas, que sofrem brutalmente a ação da gravidade, mas que, burlando essa mesma lei que nos atavia ao chão, podem rolar e saltitar, sem destino, às margens das avenidas urbanas. A vida!
Procuro sempre obedecer à pauta do caderno, quando se quer evitar as margens, sendo marginal. Outras tantas vezes não respeito as linhas, podendo escrever saltando as linhas, em despretensiosa desatenção. Às vezes, textos iniciados serão retomados a qualquer momento, não sei quando, no impulso de meus humores.
Conheci um jovem, numa sala de aula do LHC (Liceu de Humanidades de Campos-RJ), nos distantes idos dos anos 60. Era estudante do Curso Clássico. Era, uma criança. A sala pequena não caberia mais que dez alunos. As cadeiras, enfileiradas com muito rigor, fazia com que os estudantes acompanhassem esse grafismo de disciplina e ordenamento.
Minha mãe era professora de geografia e eu a acompanhava. Ela dirigia um automóvel e, por segurança, à noite, mesmo criança, eu a acompanhava.
Em sala de aula, me posicionava sempre ao lado daquele aluno, que me chamara a atenção desde o primeiro dia, pela maneira como ele escrevia. Ele trilha seu próprio caminho, se inventava entre duas linhas. Ele via, só ele via uma linha entre as duas já existentes, sobre a qual escrevia. Letras miudinhas, silentes e elegantes. A tinta azul da caneta reluzia, abria caminho, decidida a se estirar para a entrelinha seguinte. Suas mãos alvas, dedos longos, ágeis, delicados e incansáveis. Mãos aracnídeas. Um calígrafo por excelência.
A caneta jamais sairá de seu controle. Como trapezista, se equilibrava sobre essa linha imaginária. Eu me perguntava se chegaria a ver seu caderno preenchido até à última entrelinha da última página.
Um caderno deve se acabar em letras e pontuações. Sentia um prazer imenso, mesmo erótico, oculto, quando a página era virada e nova conquista se anunciava, um espaço ordenado, prestes a se entregar àquelas mãos e dedos longos de calígrafo. Era, sobretudo belo, também no sobrenome. Filho do professor de inglês, in memorian Eucleres Belo de Campos.
Uma página seria deixada para trás, com segredos e revelações. Minha mãe, sem querer, o ajudava nessa empreitada, de virar, pelo menos, duas páginas por aula. Era um prazer inexplicável! Como era aplicado o jovem estudante que se preparava para a área das humanas. A caneta, em suas mãos, era um pincel que coloria vales, montanhas, rios que minha mãe oferecia à classe, com ênfase e entusiasmo.
Sofria na expectativa pelo ponto final em seu caderno. Sairíamos de cena, até à próxima aula, quando reviveria emoções, sobre as quais era impossível ter domínio e entendimento. Só ficaram lembranças inofensivas.








