A linguagem é capaz de nos conferir poderes, graças ao exercício frequente do jogo semântico |
Quando afirmamos que a linguagem é primeiramente expressiva, queremos dizer que, antes, ela traduz emoção, junto com o pensamento, independente do conteúdo que veicule. No entanto, o conteúdo pode influenciar, em maior ou menor intensidade.
É uma expressão de si, portanto, mas que também é criadora de si, e pela qual nossa vida secreta se torna um objeto, ao mesmo tempo, para mim e para o outro. Essa ideia de a linguagem criar-se a si mesma, ao mesmo tempo em que desvenda o ser/objeto na relação consigo mesmo e com o outro, poderá ter consequências no campo da ética, mas também e, principalmente, estética.
A linguagem é capaz de nos conferir poderes, graças ao exercício frequente desses poderes do jogo semântico. Através da relação signo/linguagem, que pode não ser arbitrária, é que temos a oportunidade de experimentar esse poder, no contato com as coisas. E é o nome que representa as coisas. O nome é o movimento pelo qual apreendo as coisas, pelo qual tocamos seu contorno e nos associamos a seu impulso, pelo qual procuramos reproduzir o abalo que a linguagem produz em nós: o nome é ressonância, antes de ser som.
A nossa relação com os objetos que povoam o mundo, intermediada pelo ato da linguagem é, fundamentalmente, uma busca de nós mesmos, além de nos lançar nas relações complexas e variáveis, que mantemos com tudo o que existe, e que é o que tece a aventura de nosso destino.
Os outros seres são nossos testemunhos, como se precisássemos do aval do outro, ser-objeto, para sustentar nossa existência. É a necessidade que temos do outro ser para confirmar e experimentar o que somos. Minha vida se realizará por essa comunhão com todos, quando cada um desempenhará, em relação aos outros, o papel de mediador espiritual.
Os nomes dados às coisas logo irão reter exclusivamente o olhar de nossa atenção. Produz-se então, na linguagem, uma curiosa inversão: ela não é mais que um meio de informação pelo qual aprendo a reconhecer a presença das coisas (ser-objeto) e suas características. Essas coisas passam a adquirir uma espécie de independência e de suficiência. O pensamento e a linguagem passam a subordinar-se às coisas.
Além do mais, a linguagem é também o meio pelo qual se pode verificar que o nome corresponde efetivamente à coisa, quando encontramos a raiz da oposição entre a linguagem lírica e a linguagem científica.
A começar, podemos considerar que a matemática e a poesia representam os dois polos opostos da linguagem. Na literatura científica, não se deve introduzir uma literatura chamada de suspeita. Da mesma forma não se deve utilizar a linguagem das ciências, lá onde não há uma possibilidade de sua aplicação, como quando se trata do pensamento metafísico e moral.
A ciência procura buscar o entendimento do objeto sobre o qual se fala. Esse entendimento dependerá de uma definição precisa desse objeto. O filósofo Pascal fala da característica da linguagem científica, em sua célebre fórmula, segundo a qual, o nome imposto fica desprovido de qualquer outro sentido, para ter apenas o que lhe é destinado unicamente.
O sentido de uma palavra deve ser sempre único, contribuindo para que se estabeleça uma concordância que excluirá toda ambiguidade. Por isso, a língua científica é a única capaz de ser universal. O esforço dessa linguagem é exigir sempre uma unidade de sentido, ainda que podendo receber uma multiplicidade de expressões equivalentes, sinônimas. Podemos conceber várias definições que se remetem a um mesmo objeto.
As palavras evocam o sentido sem coincidir com ele. A sonoridade e o ritmo delas não desempenham papel algum aqui. A linguagem cientifica é uma parte da linguagem total. A linguagem científica exclui toda subjetividade. Nela não há lugar algum para o imperativo, o vocativo e o optativo.
A linguagem lírica é exatamente o oposto. Ela é transcendente à linguagem científica, já que ela busca representar uma realidade espiritual que está além de todas as formas definidas. O que essa linguagem busca exprimir são todos os matizes, todos os movimentos da vida interior que a linguagem científica visa precisamente eliminar, e que introduzem nas coisas a presença mesma da consciência que as percebe.








