Posso afirmar, sem medo de errar, que Bertold Brecht foi muito mais um homem de prática teatral do que escritor de gabinete; por isso não é muito fácil resumir em pontos exatos e breves aquilo que constitui na íntegra o seu teatro épico.
Brecht visava sempre a renovar e a modificar, diria, suas concepções, no sentido de aprimorar os efeitos daquilo que chamava de Versuche (ensaios), como se a cada peça ele se entregasse a um experimento, ou como nomeia Anatol Rosenfeld “experimentos sociológicos”. Por isso, não há dúvida, o palco de Brecht sempre foi chamado de palco científico, um palco de vivas experiências científicas, dialéticas, no contexto de uma dialética de intenção didática.
As determinantes sociais das relações inter-humanas é apresentada ao espectador juntamente com o ser humano que é colocado como personagem em constante observação, personagem que é capaz de ser apreendido enquanto matéria de uma ampla concepção de mundo que é então narrada.
O palco para Brecht não deve se resumir somente ao diálogo, pois é um palco que tem a intenção de narrar. Este traço de sua obra é muito contemporâneo. Pode-se considerar esta a primeira oposição real do teatro brechtiano ao modelo aristotélico de drama.
1. Cf. Anatol Rosenfeld. Teatro Moderno. São Paulo: Perspectiva, p. 149.
Outro ponto instigante é a presença didática intencional na obra brechtiana, ou seja, a intenção de apresentar sempre o palco científico capaz de esclarecer o público sobre a sociedade e sobre a necessidade de transformá-la.
Elimina-se a ilusão, o impacto mágico, para se dar lugar a recursos narrativos (teatro épico) que passam a inserir a característica do distanciamento entre o narrador e o público de um lado e o mundo narrado de outro – distância que não existe no drama considerado tradicional, onde as personagens atuam com plena autonomia e não são criados a partir da perspectiva do narrador.
O público é, dessa forma, envolvido em uma ação cênica e a ele não são impostas emoções, mas transformações enquanto público observador, despertando sua atividade até se tornarem atos de conhecimento. Como atenção não se dirige para o desfecho da peça, mas está presente no processo, no experimento, cada cena tem seu valor próprio, o que provoca a dialética do teatro épico.
Por outro lado, essa ideia de dialética no teatro nos sugere um voo até o esquema de comunicação na abordagem estético-recepcional de Wolfgang Iser: a estética da recepção representada nos estudos de Iser em que a leitura é, por excelência, um processo que, coerentemente, pode provocar um efeito essencialmente interativo e dinâmico entre texto e leitor. Se para Ingarden, a indeterminação, no ato da concretização, pode ter efeito desastrosos, para Iser, o preenchimento dos vazios ou lacunas é de uma total pertinência estética haja vista o caráter polifônico da obra de arte, e mais precisamente, da literatura moderna.
Há a possibilidade de ambivalência, mas também muito fortemente, nessa estrutura de comunicação, uma multiplicidade de significações possíveis. Os vazios constituem, muitas vezes, a construção da significação, a ponte para a coerência textual possível.
Há, sem dúvida, em Brecht, uma intervenção transformadora, que se dá justamente pela atitude crítica do receptor diante das situações narrativas que mostram as intempéries da convivência social. Recicla-se determinada sociedade na sua relatividade histórica para demonstrar sua condição efêmera.








