Thomas Frieden é um médico formado em medicina interna, saúde pública, epidemiologia e doenças infecciosas.
Por oito anos, no governo Barack Obama, ele foi diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA. Foi também comissário de Saúde de Nova York por quase oito anos.
Atualmente é CEO da Resolve to Save Lives, uma organização sem fins lucrativos voltada para trabalho na área de saúde, uma iniciativa da organização global Vital Strategies.
O foco da organização é o combate às doenças cardiovasculares, segundo ele, negligenciadas globalmente. A entidade atua por meio de parcerias com países para evitar 100 milhões de mortes em um período de 30 anos. Outro foco é a prevenção de epidemias.
Este profissional com vasta experiência acompanha a evolução da pandemia do novo coronavírus desde que surgiu o primeiro caso na China, em dezembro do ano passado, e define este desastre global como a pior ocorrência de doenças infecciosas em 100 anos.
“É tão ruim quanto a pandemia de 1918 e 1919”, destaca ao falar para os alunos do curso Jornalismo in a pandemic: Covering COVID-19 now and in the future, Knight Center, The Texas University.
Frieden avalia que existem inúmeras diferença no que se refere a Covid-19 em cada país. Em Nova York a doença é devastadora, assim como tem se mostrado em cidades cuja população acima de 65 anos é representativa. É o caso, por exemplo, das cidades italianas e outras em países da Europa.
Já na África este não é o maior problema, já que a população idosa representa 4%. O que pesa nos países africanos são as causas de mortes concorrentes por HIV, tuberculose, malária, doenças preveníveis por vacinação, sarampo, mortalidade materna e mortalidade infantil.
O nível de mortes por essas doenças é alto e exige intervenções de um sistema de saúde que anda ocupado em atender pacientes diagnosticados com a Covid-19.
“Se você interromper os cuidados de saúde em algumas partes do mundo, terá mais mortes por falta de cuidados de saúde do que com a COVID. Até aqui em Nova York, há mais de 4.000 mortes não contabilizadas. Há um excesso em relação aos níveis históricos. Além das quase 20 mil [mortes] pela própria COVID-19”, disse.
O médico destaca os países da Ásia como exemplos positivos de combate a pandemia. Ele lembra que essas nações já tinham vivido experiências com SARS (Síndrome Aguda Respiratória Grave) e agora agiram muito rapidamente para aumentar os testes, o rastreamento de contatos, o isolamento e a quarentena, que são vitais para o controle da pandemia.
“É o que chamamos de estratégia box-it-in: teste, isolamento, rastreamento de contato e quarentena. Quatro cantos diferentes de uma mesma caixa. Juntos, eles podem aprisionar o vírus na caixa, para que possamos sair mais como sociedade”, explicou.
Os países que se destacaram com essa estratégia foram Singapura, Alemanha, Nova Zelândia, Gana, Etiópia, Uganda, três deles na África.
Na África, o termo rastreamento de contato é bem familiar (isso facilita), enquanto que nos EUA é desconhecido.
“Sou um médico que trata tuberculose. Na área de tuberculose, fazemos rastreamento de contatos há aproximadamente 100 a 120 anos. Eu trabalhei com rastreamento de contatos por 3 décadas. Por isso, é algo muito familiar. Muito difícil, exige muito envolvimento, uma habilidade especializada. Mas quando falamos sobre rastreamento de contato nos EUA, as pessoas dizem: O que é isso? Já quando falamos sobre isso na África, eles dizem: Entendemos. Porque eles fazem isso para a febre de lassa, Ebola, Marburg, febre tifóide, sarampo — para muitas doenças infecciosas diferentes”, disse.
ENTENDA: Rastreamento de contato é rastrear as pessoas próximas ou que mantiveram contato com o paciente infectado por uma doença contagiosa. Confira outras observações de Thomas Frieden:
ABERTURA X FECHAMENTO
“Temos basicamente pseudodicotomias. Temos uma pseudodicotomia de aberto versus fechado. Pense nisso: como seres humanos, às vezes gostamos de simplificar demais. Mas, quando estamos fechados, não estamos fechados. Não é como se todos ficassem em casa. Há muitas pessoas que continuam trabalhando, seja nos cuidados de saúde, em mercados ou outras áreas essenciais. Muitas coisas estão abertas. E, quando estivermos abertos, não estaremos totalmente abertos. Estar aberto não será mais como era pré-COVID, pelo menos até que tenhamos uma vacina”
TEREMOS VACINA?
“Não sabemos ao certo se haverá uma vacina. Estou otimista de que haverá. Devemos colocar toda a atenção que pudermos para ter uma vacina, mas temos que agir como se a vacina pudesse não vir.”
ECONOMIA X SAÚDE PÚBLICA
“Outra pseudodicotomia é economia versus saúde pública. Acabamos de publicar um texto no blog da Foreign Affairs. Eu gostaria que tivéssemos usado o título “É a Pandemia, Estúpido”. Afinal, o que podemos fazer para reiniciar nossa economia é, de fato, controlar a pandemia. Não se trata de algumas pessoas vão ter que morrer para podermos voltar ao trabalho. Não é assim que funciona. Se você olhar ao redor do mundo, os lugares que mais salvaram vidas, os lugares que mais evitaram infecções, são também os lugares que mais conseguiram proteger suas economia. Fazemos o melhor para a economia quando colocamos as pessoas no centro. Então, eu acho que há destaques positivos em todo o mundo”.
BOAS LIÇÕES
“E acho que há lições importantes para aprender em todo o mundo. E algo que me encoraja é que estamos aprendendo uns com os outros. Estamos olhando para a Nova Zelândia, África do Sul, Cingapura e outros lugares ao redor do mundo em busca das melhores práticas. E compartilhando essas práticas, e trabalhando juntos contra o vírus. Porque, no fim das contas, somos nós contra eles. E essa é uma dicotomia importante, que é real. Mas o nós são os humanos, e o eles é o vírus”.








