Em livro físico e digital saiu ontem (30/05), pela Editora CRV (PR), o livro O Brasil é bundo e outras marginalidades, de minha autoria, tratando de várias questões relativas à marginalidade periférica.
Os ensaios são estudos diversos que tratam de poetas e escritores polêmicos, no panorama da literatura do Espírito Santo, da Bahia e de Campos dos Goytacazes (RJ).
O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão. E Castro Alves, apesar de sua trajetória de vida meteórica (1847/1871), mas movida por muita paixão, já anunciava essa triste marca. Em sua POÉTICA DE PÚLPITO, o seu tema por excelência foi a escravidão, razão pela qual ficou conhecido como “Poeta dos Escravos”.
O livro Os Escravos reúne poesias escritas, esparsamente, entre os anos de 1865 e 1870. Na primeira metade do século XIX, com a Independência, a configuração social do país se redefine. A burguesia, graças à intensificação das atividades comerciais, desenha-se enquanto fração da classe dominante, lugar anteriormente ocupado pela aristocracia de sangue; a burocracia se organiza.
Começando no Romantismo, passando pelo século XIX e XX, com autores campistas, Múcio da Paixão, O Movimento Literário em Campos e José do Patrocínio, Motta Coqueiro, o autor passa pelo livro de contos de Vilma Arêas, Um beijo por mês, LUNA parque, 2018, prêmio Jabuti 2019, na categoria contos, passando por A Capitoa, de Bernadette Lyra, Bundo e outros poemas (Edunicamp), de Waldo Motta, para explicar a teoria da marginalidade periférica, tão comum no Brasil, quando se publica fora do eixo editorial maior, que está entre Rio de Janeio, São Paulo e Belo Horizonte.
Com posfácio de Richard Merkoffer, The University Chicago, PhD, a obra de cunho crítico-histórico social traz algumas novidades, como a tradução/versão do inglês para o português do ensaio do autor publicado em antologia sobre Hilda Hilst pela Palgrave McMillan, The Literature of The Americas, Hida Hilst Essays, between Brazil and the world literature (2018) e a tese de Pós-doutorado do ensaísta, que é um estudo sobre a vida de Madame Satã: O lirismo de Maria Arrepiada e Rosa Sapucaia, que até então estava publicada em Inglês e Francês, e lhe conferiu o título pela Arizona State University, International College of Arts and Letters , em 2006.
São de Richard Merkoffer, PhD, The University of Chicago, as seguintes palavras no posfácio do livro:
“Deneval Siqueira de Azevedo Filho vem, neste livro, trazer uma nova perspectiva para os estudos literários pelo viés da marginalidade periférica e dos autores malditos, tal como ele aborda em Hilda Hilst e em Waldo Motta. Reconhece Bernadette Lyra como grande romancista, enfocando o romance A Capitoa e faz um precioso estudo do livro O Movimento Literário em Campos, de Múcio da Paixão, explorando a Introdução ao livro, escrita por Sylvio Romero e usando de vários exemplos de teóricos contemporâneos, (re)materializando a gênese do marginal periférico em Campos dos Goytacazes e sua matriz, em análise ímpar da obra de Múcio da Paixão, seu patrono na Academia Campista de Letras.
Retoma seus estudos da obra de Hilda Hilst, em momentos bem reflexivos, pois traduz seu ensaio A Nation on the ground floor (In: Literature of the Americas: between Brazil and the world literature (2018), trazendo para o seu público leitor a versão integral de seu ensaio publicado em Hilda Hilst essays pela Palgrave Macmillan.
Destarte, os desenhos propostos por Deneval Siqueira de Azevedo Filho de diversos lugares de produção de sentido são lugares de diálogos que criam pontes para dar passagem a paisagens novas ao dilema do homem e da literatura de autores consagrados; porém, usando de um culturalismo plural, repensa o cânone, o mercado editorial, as diferenças, mostrando-nos que é impossível não repensar, em seu estudo sobre a marginalidade, os novos compartimentos entre o local, o regional (ao fazer uma das coisas que o consagrou – pautar a Literatura Brasileira produzida no Espírito Santo, com Waldo Motta e Bernadette Lyra, e em Campos, apresentando-nos o crítico Múcio da Paixão, ou melhor, o Múcio da Paixão crítico), o nacional, o internacional e o planetário.
Ao nos apresentar uma esmerada análise de Um beijo por mês, de Vilma Arêas, vencedor do prêmio Jabuti, categoria contos, em 2019, mostra-nos como a literatura de Vilma Arêas copula com outros códigos estéticos, propiciando-nos, pelas experiências singulares, lugares de diálogos que são também de contradição, de perplexidades, de possibilidades e/ou impossibilidades, pois a análise se enche de mundos, de entrelugares e de outros códigos estéticos, todos contemplados pelo humor meio sardônico e momentos de riqueza literária que chega a questionar implicitamente valor estético, o que explica o prêmio que lhe foi conferido.
O autor não abandona Hilda Hilst e nos introduz seu teatro, dramaturgia dos anos chumbo da ditadura pós-64, ao analisar os textos O Verdugo (vencedor do Prêmio Anchieta de Teatro em 1969) e O Rato no muro, ambos, segundo o autor, parábolas de reprodução produtiva brechtiana, devido à censura da época. O teatro científico de Brecht aparece com uma epicidade científica aparente e muito rica em detalhes e artimanhas como um lirismo ao mesmo tempo absurdo e cruel.
Lembremo-nos que os temas estão ancorados, como nos afirma Deneval neste livro, na compreensão de que, a partir da segunda metade do século XX, a representação global afetou profundamente “os lugares dos discursos”, pois os circuitos de organização rearticularam-se, não somente no mercado financeiro, mas também no político, no cultural, no editorial e, consequentemente, traz à tona, o viés do marginal periférico, visto que a mídia e o mercado cultural medeiam a maneira como entendemos o mundo.
Seu estudo sobre a poética de púlpito de Castro Alves é um estudo primoroso do Brasil à época do romantismo, quando ele resgata várias nuances da problemática da mão-de-obra escravagista, a luta da burguesia para ascender socialmente e o início da queda dos velhos barões dos engenhos, contextualizados no livro A Escrava.
Há uma política de pensamento crítico nesta obra que ultrapassa o simples criticismo, mas deixa-nos extasiados com a política do pensamento crítico assumido por Azevedo Filho estabelecida na obra, desde o samba da Mangueira no carnaval de 2020, onde ironiza os (des)lugares, ao estudo de Os Sertões, de Euclides da Cunha e de Galvez, o imperador do Acre, de Márcio Souza, sobre a aquisição do saber, da criticidade, sobre a circulação e aquisição do saber cultural e literário.
Parece-me que o brasileiro, no estudo da literatura na marginalidade periférica, está sempre consciente do risco iminente da extinção da vida: índios, sertanejos, negros, traição, manipulação, poder bélico, totalitarismo da ciência, em razão do avanço da rapinagem capitalista em todos os setores e dimensões da vida nacional, o que traz até o leitor uma grande proposta de reflexão lato sensu: herdeiros do totalitarismo teológico, ave de rapina, quais contribuições críticas e criativas poderão advir do pensamento cultural e literário? Estas e muitas outras questões são o ponto alto da reflexão que a obra de Deneval Siqueira de Azevedo Filho pode trazer, para discutirmos; porém, o autor deixa claro que isso somente é possível se chutarmos o balde pontualmente, milimetricamente, para o lugar exato, nos perguntando todo o tempo: Desde quando a literatura serviu para melhorar a vida e/ou tirar alguém da marginalidade? Se servir ou serve não é literatura: Bundo vasto Bundo!”








