O filósofo alemão Theodoro Adorno fez um comentário sobre o que disse um oficial alemão do comando nazista. Interessa o que falou o oficial: depois que tudo isso acabar (a guerra, a 2ª) poderão dizer tudo de nós, menos que fomos entediantes. Nessas linhas, lembramos de Bolsonaro.
O Brasil enfrenta, quase que diariamente, uma ameaça de crise, detonada, propositalmente pelo presidente Bolsonoro, que bem poderia ficar com a boca fechada, ao invés de falar demais e depois tendo que dizer ao público que o que ele disse foi notícia falsa, inclusive inventada pela imprensa – a respeito do churrascão que prometeu para o Dia das Mães.
A confusão ideológica que ele provoca é premeditada. É “um personagem doentio”, movido a confrontos verbais, por pouco não chega a corporais, coisa que ele delega a seus seguidores imbecis. Não consegue viver em paz. Bolsonaro quer a guerra ideológica, a confusão.
Ele não respeita aquilo que, um dia, Sarney chamou de “liturgia do cargo”, os rituais necessários e tradicionais honráveis do cargo de presidente da República. Na sua relação com a imprensa, fica claro que os profissionais jornalistas valorizam e praticam os protocolos de seu cargo e fazem vista grossa para esse desconcerto do presidente. Os jornalistas se comportam à altura do que suas funções exigem. O mesmo não podemos falar do Bolsonaro.
Mas a imprensa finge que não vê, e o trata como presidente, embora, o mais certo seria não esperar dele nenhum governo. O seu modo de governar é um puro e autêntico desgoverno. No entanto, a imprensa precisa levar um presidente a sério, mesmo que o presidente não seja sério, e não deva ser levado em conta.
Bolsonaro promove a mera balbúrdia ideológica. Se o presidente tem um leve e relativo prazer genital é quando ele imagina que está numa luta contra um poderoso inimigo – o “comunismo”.
As pessoas, todos nós, nos cristalizamos, em determinado momento da infância ou da juventude, ficamos bloqueados diante de um fato que nos tocou profundamente. O herói do romance Lolita, de Nabokov, um pedófilo, confessado por ele que sua pedofilia funcionava como uma cristalização, quer dizer, a perda da sua namorada, aos 15 anos de idade, fez com que algo se cristalizasse, o imobilizasse, porque, não tendo superado a perda, também nunca superou aquela idade de 15 anos.
Isso pode ser tomado como uma lembrança forte e nada mais, ou ser desenvolvido como uma patologia psíquica, o que é o caso de Bolsonaro, que ganhou de sua juventude, não um elemento de lembrança, mas uma cristalização. Ele incorporou a conhecida “Ideologia da Segurança Nacional”, a vedete do regime militar de 1964 e não largou mais.
Mesmo expulso do Exército Brasileiro, Bolsonaro continuou sendo um militante de direita (do regime daquele período). É o mesmo garoto que entrou para a Academia Militar das Agulhas Negras, que não tem vida própria, senão aquela que teve aos 17 anos. Ele é, até hoje, alguém que vive o anticomunismo.
Do que ele gosta mesmo é de fustigar as esquerdas, ou melhor, tudo aquilo que ele acha que é esquerda. Atua, quase sempre como criança pirracenta e mimada quando contrariada. E quando interpelado pelo Congresso ou pelo Judiciário, quer logo jogar a toalha. O seu falatório é sempre contra algo que lhe é apresentado como tendo algum vínculo com a esquerda. Fica feliz como pinto no lixo, que é quando ele atua magistralmente diante de seus pífios seguidores.
A sua relação com a Constituição de 1988 é, no mínimo, paradoxal: ele a vê não como ela é realmente, ou seja, uma peça para a defesa do capitalismo, da sociedade de mercado, e dos direitos individuais, inerentes ao modelo liberal. Ele a vê segundo os embates travados na época de sua confecção.
Seus preceitos liberais foram defendidos por pessoas de esquerda – como é comum nas democracias ocidentais. Bolsonaro acabou concordando com o neoliberalismo de Paulo Guedes, justo por esse fato – é necessário extirpar o cheiro da social-democracia, ingrediente de sua confecção, que pode, de uma hora pra outra, vazar da Constituição de 1988. Tal cheiro foi o que fez Ulisses Guimarães denominá-la “Constituição Cidadã”. Mas Bolsonaro é contra a cidadania.
A cidadania que é garantida, por exemplo, pela Previdência e direitos trabalhistas, dentre outros mecanismos que promovem o bem-estar social, com os quais Bolsonaro e Guedes não se simpatizam, isso foi o que os uniu, porque, bem sabemos que entre eles há bem mais discordâncias do que unidade, a não ser nos pontos aqui destacados, que são os alicerces da libido do presidente, a sua cristalização manifesta, que o faz voltar ao tempo, 17 anos de idade, revivendo a luta direita-esquerda, direita-esquerda. Ele vive como se estivesse vivendo os tempos de caça às bruxas.
Ele não tem sossego. Foi um Deputado que, sozinho na Câmara, por trinta anos, fez discursos anticomunistas para ninguém. Depois que ele desocupar a cadeira de presidente, poderemos dizer também que o Bolsonaro foi tudo, menos entediante.
Ele se esforçava. Era sua única opção de prazer. Um tipo de atividade masturbatória!








