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O legado de uma ‘Literatura Pandêmica’ ignorado pelo Estado Moderno

Obras sobre pragas remontam os períodos greco-romano, feudal, moderno e chegam a prever futuras pandemias

Deneval Siqueira Por Deneval Siqueira
07/05/2020 - 15:21 - atualizado em 11/05/2020 - 12:25
em Cultura
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Pandemia - Literatura

Foto: Reprodução

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Hoje acordei pensando que a humanidade sempre temeu o fogo e a água. Explico: a morte pelo fogo ou pela água. Naufrágios, incêndios e poderia listar aqui outras mortes e/ou tragédias, nessa linha de causa/consequência. Mas pouco pensou que poderia haver uma pandemia que nos sufocaria, sendo sua causa de morte a falta de ar. 

Até 30 de novembro de 2019, as tecnologias da informação, a sociedade de consumo e a globalização dos mais diversificados produtos lançados, simultaneamente nas ricas e pobres das nações, tinham domínio absoluto sobre o planeta Terra. 

Mas, a partir de 1º de dezembro daquele ano, a microbiologia entrou na vida das pessoas. Introduziu no ar o novo coronavírus, causador da Covid-19, um dos códigos virais mais letais, entre os já demonstrados na história. E o terceiro elemento – ar – começou a matar. Enquanto o Estado Moderno, reconhecido no século 15, havia omitido a morte de milhões de pessoas por doenças infecciosas, a “Literatura Pandêmica” deixou legados da dramática situação do ser humano em forma de epopeias, contos, romances, artigos e poesias. Podemos citar aqui  algumas das reflexões registradas pela humanidade, por meio da Literatura de pandemias.

Primeiramente, é mister enfatizar que, na opinião do professor de Filosofia André Sousa, a literatura que aborda temas mais conflitantes com o quadro político-econômico, historicamente, sempre foi descredenciada por setores de interesses comuns. “E, certamente, a história mostra que, apesar das grandes obras serem reconhecidas no mundo inteiro e que envolvem questões sanitárias, prevalece o poder de setores econômicos para desviar o foco da questão mais séria e que envolve vidas humanas”. 

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Essa afirmação vale uma profunda reflexão, que deixarei para outro momento, depois de termos adiantado mais no tempo com as verdadeiras consequências da COVID-19 no planeta. Cada país, cada caso, cada pessoa, tem, no globalizante vírus, um diferencial, pois.

André Souza cita duas obras literárias que representam um alerta à situação que o mundo vive, que são Ensaio sobre a Cegueira (1995), do escritor português José Saramago, que narra a história da epidemia de cegueira branca que se espalha por uma cidade, causando um grande colapso na vida das pessoas e abalando as estruturas sociais; e A Peste, de Albert Camus, que, segundo ele, é uma das obras mais lidas nos Estados Unidos, na atualidade:

“No momento atual estamos assistindo a essa tentativa de descredenciar o papel da imprensa, que é acusada de desestimular a economia nacional em detrimento da saúde da população. No início do século 20, houve a Revolta da Vacina, também estimulada por grupos econômicos que tentaram evitar que população se protegesse contra doenças. Enfim, a literatura alertou a humanidade por meio do real e da ficção sobre as catástrofes no mundo, mas setores com interesses comuns conseguiram omitir esses fatos ao lançarem uns grupos sociais contra outros”.  

A literatura é portanto ignorada no momento em que enfoca o sentimento universal do homem, composto por amor, tristeza, saudade, distanciamento e solidão. 

Destacam-se, entre as obras que trazem relatos literários que serviram como alerta ao mundo, o livro Amor em Tempos de Cólera, de Gabriel Garcia Marquez, A Peste, de Albert Camus, e até algumas obras que se não se referem às pragas, apontam, por meio da ficção, a necessidade do homem se valorizar. Cita Metamorfose, de Franz Kafka, na qual o homem se transforma em inseto e revela um indivíduo isolado do seu meio e despido de sua humanidade. Ainda para enriquecer o argumento podemos citar:

Ilíada

Os primeiros relatos de pandemia no mundo têm como referência o poema Ilíada, do grego Homero, que, segundo historiadores, viveu, entre a Grécia e a Turquia, no século 8 antes de Cristo. 

Considerado o mais antigo e extenso documento literário grego do mundo ocidental, Ilíada  é constituída por 15.693 versos com narrativa sobre a Guerra de Tróia entre gregos de Atenas e Esparta. De acordo com Mary Beard, professora da Literatura Clássica da Universidade de Cambridge, estudiosos modernos dizem que a razão pela qual Atenas perdeu a guerra foi devido a sua população ter sido dizimada por uma praga que matou o líder ateniense Péricles. 

No meio da Guerra de Troia, o sacerdote Trojan Chryses pede ajuda do deus Apolo para ajudá-lo a resgatar sua filha, Chryseis, que havia raptado por Agamenon para lhe servir como escrava sexual. E Apollo responde enviando uma praga que somente cessou com a libertação da mulher.

Decameron

Depois dessa obra, a saga pandêmica registrada na história prossegue na idade média, em plena época do feudalismo ocasião em que os senhores da terra provocaram desmatamento de toda a Europa para cultivo de cereais e criação de gado. A Peste Negra ou Bubônica, em 1338 matou 75 milhões de pessoas. Em alguns lugares da Inglaterra e da Itália, entre 60 e 90% da população foi dizimada. 

O escritor italiano Giovanni Bocaccio viveu essa época e nos deixou como legado o livro Decameron, de 1353. Na obra, Bocaccio conta a vida de sete mulheres e três homens em uma vila toscana de Florença que à medida que a doença se espalha resolvem se distrair em atos de bebedeira e de sexo durante o refúgio. Entre as 100 histórias contadas, o italiano narra o cotidiano dramático da população florentina. 

A população europeia tratou a Peste Negra como castigo de Deus. “Naquela época cuidado algum valeu nem importou qualquer providência humana. Proibiu-se a entrada de enfermo. Muitos conselhos se distribuíram para o bom estado sanitário. De nada valeram as súplicas”. 

Segundo Bocaccio, os humildes em grande número se juntam para orar por proteção de Deus e o contágio aumentou ainda mais a pestilência.O escritor atribui ao Oriente a origem da doença que se caracterizava por sangue pelo nariz, inchaço na virilha e axilas, alguns em forma de maçã ou ovo e daí vem o nome bubônica, em formas de bulbos. Depois surgiram manchas escuras na boca de quem que fosse, rico ou pobre e surgiu o nome Peste Negra. 

Os que não conseguiram se refugiar morriam nas ruas, nas plantações ou onde quer que estivesse. Os cultivos se reproduziam e animais vagando pelas ruas vazias tinham comidas de sobra e engordavam e morriam se misturando aos cadáveres humanos. Mais de 100 mil pessoas morreram em Florença.

Poema de Saadi Shirazi

Do Oriente, Hamid Dabashi, o  professor de Estudos Iranianos e Literatura Comparada na Universidade de Columbia-EUA registra um poema de Saadi Shirazi, poeta persa, nascido em 1213. A obra que surgiu cerca de um século antes de Boccaccio e aborda a praga e fome em Damasco, no Irã, que matou milhares de pessoas, inclusive quem era abastecido por alimentos, considerados ricos.

Seres humanos são membros de uma união (um corpo)

Uma essência, uma alma na criação.

Se um membro pela dor é arrastado

Todos os outros também são afetados

Você, que não sente a dor do outro,

Perderá o direito de chamar-se ser humano.

Com o Renascimento ou Estado Moderno, no século 15 (1400) os relatos passaram ser a audácia do homem por meio do descobrimento do continente americano, as grandes invenções, as navegações e a predominância da ciência sobre a religião. 

Mas, Geoffrey Chaucer interrompeu o hiato e enfatizou em The Canterbury Contos (Contos de Cantuária – 1659-1731) uma detalhada narrativa de eventos, anedotas e estatísticas sobre a grande praga de Londres de 1665 e que vitimou entre 75.000 a 100.000 pessoas, uma infecção causada pela bactéria yersínia pestis, transmitida pelo rato.

Deste período até o século 18, não são registradas obras sobre praga no mundo, talvez pela adoção dos estados absolutistas dominados por reinados truculentos ou déspotas.

O Último Homem

Os relatos pandêmicos somente ressurgiram como romance em 1826, com Mary Shelley, autora de Frankenstein, por meio de um gênero literário chamado Literatura do Apocalipse. 

Shelley foi precursora em 1826 do romance pandêmico e em The Last Man cita a peste negra, porém na Inglaterra. Na obra, a personagem principal é um aristocrata inglês chamado Lionel Verney que vive ao surgimento de uma pandemia global em 2073 até o início do século 22, quando ele obtém o status de “O Último Homem” em um mundo desprovido de pessoas.

O italiano Alexandre Manzoni publicou, em 1848, Storia della Colonna infame, sobre detalhes da praga do século 17 em Milão. Em 1912, outro romance apocalíptico chamado A Praga Escarlate, do norte-americano Edgar Allan Poe, imagina um surto de febre hemorrágica em 2013, chamado de Morte Vermelha que destrói a grande maioria da população mundial.

Em 1918, surgiu a gripe espanhola que tirou a vida de 56 milhões de habitantes no mundo. A doença surgiu durante a Primeira Guerra Mundial e os soldados dos países europeus envolvidos foram a maioria das vítimas fatais. Os sobreviventes, principalmente os marinheiros, foram responsáveis pelos contágios a outros países, inclusive, ao Brasil. 

O escritor Ruy Castro conta na obra O Carnaval da Guerra e da Gripe (2019) como a população fluminense se comportou diante de uma doença que surgiu poucos meses antes do carnaval. A doença matou milhares, mas não tirou o brilho da festa momesca do jeito que o carioca gosta.

No Brasil, a gripe espanhola chegou por meio do navio Demerara, um correio britânico, vindo de Lisboa e que havia atracado em Dakar, capital do Senegal. Os cerca de 200 tripulantes, segundo Castro, saíram do navio foram para a Praça Mauá, próximo do porto, onde retiram a noite nas gafieiras, beijaram as mulheres. Em questão de dias, a doença se espalhou. O alerta demorou a ser dado. 

O quinino, espécie de água tônica caseira começou a ser recomendado até pelos médicos como modo de “destroncar” os peitos. Todo o tipo de purgante foi inventado, mas não diminui a mortalidade. 

A empresa química Bayer ofereceu Fenacetina como “tiro e queda” contra a Influenza com promessa de cura como um raio, mas não teve jeito. Capitais também foram afetadas, mas sem a intensidade do Rio de Janeiro que teve que fechar hospitais por falta de leitos. Enterros só eram acompanhados por parentes e até sepultamentos ficaram impraticáveis por falta de coveiros, alguns mortos outros doentes e em quarentena.

A Peste

A Peste, de Albert Camus, obra publicada em 1947 contra a história de trabalhadores que descobrem a solidariedade em meio a uma peste que assola a cidade de Oran, na Argélia. No romance, o autor questiona os destinos da natureza provocada pela condição humana.

Gripe em Alagoas

A situação em Alagoas é contada pelo poeta e escritor Jorge de Lima em uma entrevista no matutino Jornal de Alagoas. O médico participou da campanha de salvamento de vidas e também foi vítima da Influenza, mas sobreviveu. “O doente começa a sentir dores em todo o corpo, deixando catarro branco, garganta inflamada e dor abdominal”, declarou na edição do jornal, de 30 de outubro de 1918.  Porém, as escassas informações levaram o poeta a vaticinar um dado que não se confirma do ponto de vista científico, nem com a gripe espanhola nem com o coronavírus. 

Jorge de Lima declarou no jornal: “acontece, porém que, devido as condições especiais do nosso clima, a moléstia em questão não se manifesta aqui com a mesma gravidade que em certas regiões da Europa”.

E já tenho ouvido de alguns pesquisadores e observadores que o vírus da COVID-19 não gosta de muito calor. Não é o que parece! E por mais que os tiranos apreciem o povo em casa, o povo sai! Fiquem em casa! Evitem aglomerações. Salve-se quem puder, no país de Bolsonaro e seus algozes.

Tags: *Livros#LiteraturaPandemicaLiteraturaObras
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