Um dos maiores filósofos russos do século XX, Mickhail Bakhtin, afirma que o que nos traz de volta ao “medo cósmico”, ao começo, são a fonte, tanto da Religião quanto a da Política.
Ele descreve o “medo cósmico” como uma emoção humana, demasiadamente humana, surgida pela ameaça da magnificência sublime e inumana do Universo. O “medo cósmico” é o tipo de medo que precede o poder constituído pelo homem, e lhe serve de alicerce, protótipo e inspiração para criar e exercer o poder entre os homens.
Mikhail fala também do “medo cósmico” como sendo a impotência sentida diante do incomensuravelmente grande e incomensuravelmente poderoso; frente ao céu estrelado, do volume material das montanhas, do mar, o medo de sublevação cósmica e desastres elementares, o ser humano se torna vulnerável e frágil.
Some-se a isso, a percepção de que não é da capacidade humana apreender, compreender ou assimilar mentalmente o poderio assombroso que se manifesta na própria grandeza do Universo, o Universo escapa a toda nossa compreensão.
Não há, portanto, como não reconhecer que o “medo cósmico” é também o horror do desconhecido e do invencível, ou seja, o terror da incerteza, sentimento humano que se manifesta diante de um grande desafio, geralmente ameaçador.
O ser humano é incerto e vulnerável, duas qualidades ou características da sua precária condição, através das quais se molda aquele outro medo, “o medo oficial”, que é uma construção do Estado, que incrementa uma insegurança alternativa, com o objetivo de restaurar o monopólio perdido da redenção a ser reforçada, ou pelo menos super dramatizada, inspirando um volume suficiente de medo, terror, pânico e insegurança.
Ao mesmo tempo se relega e obscurece, a segundo plano, a insegurança economicamente gerada, sobre a qual o Estado nada pode e/ou nada quer fazer. A grave instabilidade econômica não é, pois, manipulada para arquitetar esse medo que Bakhtin apelidou de “medo oficial”.
O “medo oficial” e o medo do poder humano são poderes construídos e administrados pelo homem. O “medo oficial” é construído segundo o padrão do poder inumano, refletido pelo “medo cósmico”, isto é, que dele emana.
O “medo oficial” tem origem no “medo cósmico”, que é usado por todos os sistemas religiosos.
Quando as religiões supõem o que possa ser a imagem de Deus, ela é moldada a partir da conhecida emoção do medo, da vulnerabilidade e do temor do ser humano, em face da incerteza impenetrável e ameaçadora que o homem sente frente ao Universo desconhecido.
Mas, ao ser remodelado por uma doutrina religiosa, o “medo cósmico” primitivo passa por uma transformação decisiva. Essa força anônima e muda assusta, mas nada exige, nada fala. Não há sentido em conversar com o céu estrelado, com o mar, as montanhas ou o mar, para tentar marcar presença e obter favores.
Os atos dessa força anônima são incompreensíveis aos frágeis humanos e à própria força anônima que pode receber o nome de Deus, no Cristianismo, ou outro nome, de acordo com a doutrina religiosa de pessoas ou povos.
Um dia, a força sobre-humana do “medo cósmico” registrou suas primeiras palavras, “Sou o que sou “, pronunciadas para Moisés do meio da Sarça Ardente (Êxodo 3: 14). Assim, a fonte sobre-humana deixou de ser anônima, ainda que não tenha se apresentado pelo nome, permanecendo além do controle e da compreensão humanos. Os seres humanos continuaram tão vulneráveis e inconstantes como antes, e portanto aterrorizados.
Mas algo muito importante e diferente aconteceu com a fonte do “medo cósmico” tão ameaçadora do ser humano. Ela (fonte, Deus) deixou de ser surda e muda, adquiriu controle sobre sua própria conduta, havendo, então, uma extraordinária transformação do Universo em Deus e, de forma indireta, o homem passa a ter um certo poder. De agora em diante, os seres humanos deveriam ser dóceis, submissos e condescendentes, mas, em troca, passariam a ter a garantia de que as bênçãos que ambicionavam chegariam a suas mãos.
Mas uma vez, a voz de Deus fora ouvida, ao anunciar/ameaçar: “agora, pois, se diligentemente ouvirdes minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar, dentre todos os povos”. E o povo hebreu respondeu a uma só voz, e disse – “tudo o que o Senhor tem falado, faremos ” – (Êxodo 19). Deus prometeu levá-los a “uma terra que mana leite e mel ” (Êxodo 33).
Com “ouçam-me e me obedeçam ” -, Deus ofereceu ao seu povo uma aliança, prometendo a felicidade, desde que obedecessem à Lei ao pé da letra, não ficando, pois, vulneráveis, nem seriam atormentados pela incerteza.
Mas o medo, e consequentemente o poder, deixariam de existir sem a vulnerabilidade e a incerteza. Isso seria um problema. Como sujeitar e dominar o homem, quer pelo “medo cósmico”, quer pelo “medo oficial”?
Essa nova condição humana implica um Deus restrito por regras e arrisca a ser, em termos, um Deus sem poder. Estamos diante de um paradoxo. Mas um Deus sem poder não é uma força na qual se pode confiar, que cumpra a promessa de fazer de certas pessoas “seu tesouro particular”, sua “propriedade peculiar dentre todos os povos”. Esse é o paradoxo que o Livro de Jó expõe e tenta resolver.
Quem lê o Livro de Êxodo , automaticamente, vai procurar uma regra e uma norma, mas a mensagem do livro era a de que não havia regra nem norma em que se basear, ou seja, nenhuma norma ou regra que o poder supremo fosse obrigado a seguir, porque “O soberano é aquele que tem o poder da isenção “, como afirma Carl Schmitt. Isto significa que o poder de impor normas deriva do poder de suspendê-las, ou torná-las nulas ou inválidas, por aquele que as elabora.
Em não existindo contradição entre estabelecer uma regra e fazer uma exceção, entendemos que, sem o poder de isenção da regra, não haveria poder para sustentar a regra.
É essa a lógica e a verdade do poder. Esta conclusão deve ser considerada em qualquer tentativa de compreensão a respeito do poder. No entanto, o entendimento está em contradição com a crença.
E se estamos de acordo com o pensamento, segundo o qual, só o incompreensível pode ser objeto de uma crença incondicional, sem o Livro de Jó, o Livro do Êxodo não conseguiria estabelecer os alicerces da onipotência de Deus e da obediência de Israel.
Fora do Universo bíblico, os modernos postulantes terrenos à onipotência divina não deixarão de reconhecer que o caráter imprevisível e ocasional das trovejadas do Deus de Abraão era bem mais assustador e aterrorizante do que as armas letais de nossos tempos, em mãos de políticos e comunicadores, ansiosos por conquistar a onipotência.
E, quem se atreva a querer roubar os trovões dos governantes atuais não deverá esquecer-se de afastar a névoa da incerteza que envolve esses governantes e transformar a aleatoriedade em regularidade, e o estado de anomia – ausência de regra, ou fluidez dos limites, à regulação normativa – em norma.
Jó não foi capaz dessa façanha. Os tempos eram outros e ele não podia antecipar esta operação, só realizável por uma criatura inserida no contexto da nossa modernidade. É hoje, são muitos os capazes de realizar esta façanha.








