O Sermão das Sete Palavras é um dos atos mais singulares e destacados eventos da Semana Santa de Valladolid (Espanha), organizado pela Confraria das Sete Palavras.
A cada Sexta-Feira Santa, ao meio dia, a Praça Maior (foto), enfeitada com telões negros, se transforma num palco dos séculos XVI e XVII, em que um padre reflete sobre as Sete Palavras que Cristo pronunciou na Cruz. Cenas ilustram as Sete Palavras, em grandes painéis na Praça.
Esse costume se remonta, aos séculos XVI e XVII. Tive a oportunidade de assistir a esse ato de fé, que coloca em destaque, na centralidade das comemorações da Páscoa, a célebre e polêmica frase de Jesus, pronunciada no madeiro: Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?
De indiscutível dificuldade para comentaristas das Sagradas Escrituras, poucos se arriscam a transformar este lamento em Sermão doutrinário nas paróquias cristãs de todo o mundo.
Na vanguarda, Espanha expõe, sem pudores, e ciente das dificuldades, compartilhando, em praça pública, com milhares de pessoas, o que muitos querem esconder, a expressão do sentimento de abandono, experimentado pelo Cristo.
A festa vai começar – Um Pregoeiro anuncia: com vossa licença, Senhor,vamos percorrer as ruas da cidade pregando a Divina Palavra. Continuando, diz: Ao meio dia de hoje, Sexta-Feira Santa da Cruz, entre todas as autoridades locais, confrarias, penitentes e povo fiel, congregados na Praça Maior, serão expostas as Sete Palavras que Cristo Nosso Senhor disse na Cruz.
As Sete Palavras (Septem Verba, em latim) é a denominação convencional das sete últimas frases que Jesus pronunciou durante sua crucificação, antes de morrer, segundo os Evangelhos Canônicos.
MATEUS E MARCOS
Os dois primeiros evangelistas, Mateus e Marcos, mencionam somente uma, a 4ª frase. Lucas relata três, a 1ª, 2ª e 7ª frases. João recolhe as três restantes, 3ª, 5ª e 6ª frases.
A ordem não obedece a uma sequência lógica ou cronológica, mas a uma ordem aleatória. (A sequência conhecida dos Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João.).
No entanto, a ordem das frases não segue a ordem estabelecida para a sequência dos Evangelhos. São elas: Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem (Lucas, 23: 34); Eu te afirmo: hoje estarás comigo no Paraíso (Lucas, 23: 43); Mulher, aí tem o teu filho (…) Aí tem tua mãe (João, 19: 26-27); Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste? (Mateus, 27: 46 e Marcos, 15: 34); Tenho sede (João, 19: 28); Tudo está cumprido (João, 19: 30) Pai, em tuas mãos entrego meu espírito (Lucas, 23: 46).
A Primeira Palavra (entenda-se frase), Pai, perdoa-os, porque não sabem o que fazem, foi dirigida aos culpados por sua morte, ou seja, aos judeus, e aos romanos e, por extensão, a toda a humanidade.
A Segunda Palavra, Eu te asseguro: hoje estarás comigo no Paraíso, é uma resposta à súplica do ladrão que disse – lembra-te de mim, quando voltares no Juízo Final – Jesus assegurou a salvação ao ladrão, sem que seus pecados anteriores se transformassem em obstáculos.
A Terceira Palavra, Mulher, aí tem seu filho (referindo-se a João)… Aí tem a sua mãe (Maria cuidaria de João como a um filho), mostra Jesus mostra Sua Mãe Maria a João. Mesmo crucificado, Jesus cria uma nova família. A passagem afirma o papel maternal de Maria, mãe de Jesus, na nova família, criada por Cristo desde a Cruz.
A Quarta Palavra, Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste? Em Marcos, esta frase está em aramaico, em Mateus, ela aparece em hebreu. Jesus se declara abandonado por Deus. (Voltaremos a ela).
A Quinta Palavra, Tenho sede, expressa dois tipo de ânsia de Cristo na Cruz. Primeiramente, a sede fisiológica, que consiste um dos maiores tormentos dos crucificados. Em sentido alegórico, como a sede espiritual de Cristo, no cumprimento de sua tarefa de redenção espiritual da humanidade. Esta frase nos conduz à passagem em que Cristo desperta a Samaritana, junto a um poço, para a sede espiritual.
A Sexta Palavra, Tudo está cumptido!, é a proclamação de Jesus acerca do cumprimento perfeito das Escrituras Sagradas, em sua pessoa. Esta palavra (frase) põe de manifesto que Jesus era consciente de que havia cumprido até o último detalhe sua missão redentora e a culminação do programa de sua vida: cumprir a Escritura, fazendo sempre a vontade do Pai. Por isso, mais do que uma frase de agonia, uma frase de vitória.
A Sétima Palavra, Pai, em tuas mãos entrego meu espírito, é a última frase que se atribui a Jesus Cristo, e se interpreta como um exemplo da confiança que um cristão deve ter quando de sua entrada no mundo espiritual: as postrimerías.
SENTIMENTO DE DESAMPARO
Sobre a polêmica “expressão de abandono” – Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste? -, Jesus estaria recitando o Salmo 22, que começa precisamente por estas palavras – Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?.
Para a Teologia, Jesus se entregou livremente ao sacrifício pela humanidade e, em sua natureza humana, se sente abandonado, como havia expressado no Jardim de Getesêmani. É o Servo Sofredor de Jeová, mas que, finalmente, aceita o sacrifício vicário (sofrer em lugar da humanidade).
Para a crítica histórica, a frase, ou ao menos o que expressa, é provavelmente histórica, cumprindo com o critério de testemunho múltiplo (sendo de fato a única, entre as Sete Palavras, que aparece em mais de um Evangelho, Mt. e Mc.); e com o critério da dificuldade, já que, devido ao seu caráter de desolação, é provável que a igreja primitiva tenha experimentado certa dificuldade para aceitar esta frase nos lábios do Cristo.
Mas também se pensa que ainda que a ideia seja autêntica, ou seja, o Jesus histórico tenha se sentido realmente abandonado, no momento de sua morte, esperando uma intervenção de Deus Pai, que não chegou, os vários acréscimos do Salmo 22 (v. 1º), junto com os de Isaías, 53 (v. 1-12), podem fazer pensar no relato da paixão como uma composição a posteriori a partir de passagens do Antigo Testamento.
VELHO TESTAMENTO
Vejamos os versículos do Salmo 22 do livro Salmos da Bíblia/Salmos da Cruz: 1 Meu Deus! Meu Deus! / Por que me abandonaste? / Por que estás tão longe de salvar-me, / tão longe dos meus gritos de angústia? (…) 2 Meu Deus! / Eu clamo de dia, / mas não respondes; / de noite, e não recebo alívio!
Estes versículos combinados com os de Isaías 53:7, temos o quadro profético da narrativa da Paixão e, particularmente, do abandono a que Jesus se refere. Vejam: Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a boca; como um cordeiro que é levado ao matadouro, e como a ovelha que é muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a boca.
Uma interpretação antiga sugeria que Jesus teria dito Meu Deus, meu Deus… por que estava sofrendo as dores dos pecados de toda a humanidade. É o tema do Servo Sofredor, ou do justo que sofre. O Livro de Jó é um exemplo que explora esse tema do justo que sofre injustamente. Mas, as passagens mais significativas, sobre o justo que sofre injustamente, são os poemas do Livro de Isaías 42, 49, 50, 52, 53. (Para quem quiser conferir).
Esses poemas, em Isaías, falam de alguém cuja missão é sofrer injustamente, ser perseguido por ser justo, sofrer violência por não praticar violência, mas que resiste firme até implantar o direito no país, se tornando exemplo para o mundo todo.
Foram esses poemas de Isaías que serviram de base para Marcos e depois Mateus escreverem seus cenários da Paixão de Jesus. E todos os detalhes da primeira parte do Salmo 22 estão em Marcos e Mateus, como antecedentes da crucificação.
Os versículos 8° e 9° do Salmo dizem: Todos os que me veem zombam de mim, abrem a boca e maneiam a cabeça: Ele recorreu a Javé…pois que o salve! Que o liberte, se é que o ama de fato! Também nos versos 17, 18 e 19: Um bando de malfeitores me envolve, furando minhas mãos e meus pés. Posso contar todos os meus ossos. As pessoas me observam e me encaram; entre si repartem minhas vestes e sorteiam minha túnica.
ORAÇÃO DO POBRE
Até o verso 22, o Salmo reproduz a oração do pobre, do justo, do sofredor. E a partir do Salmo 23, segue-se a celebração de ação de graças, que incluía um sacrifício de comunhão, que era uma espécie de churrasco popular, para o qual eram convidados os pobres que viviam em torno do Templo (v 27).
O Salmo lembra a súplica feita no momento de dor, mas, no todo, é a oração de ação de graças que deverá prevalecer, porque Deus não desprezou nem desdenhou a oração de um pobre.
Se no Salmo 31, o escritor bíblico mostrou o livramento divino em favor do servo sofredor, não permitindo que ele fosse entregue aos seus inimigos (Sl 31:8), no Calvário, porém, o Mestre estava aparentemente nas mãos dos soldados romanos e dos seus opositores, que dele zombavam (Lc 23:35-36).
Se Deus protegeu David de Golias, dos exércitos dos filisteus, da cólera de Saul, da revolta de Absalão e das espadas de tantos outros adversários, eis que, desta vez, permitiu que Jesus viesse a ser morto pelos seus perseguidores.
INTERPRETAÇÃO
E pensamos que um bom aprendizado poderá ser encontrado, quando nos deparamos com o capítulo 12, em Lucas: Digo-vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer (…) Não se vendem cinco pardais por dois asses? Entretanto, nenhum deles está em esquecimento diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais! Bem mais valeis do que muitos pardais. (Lc 12: 4, 6-7)
O conferencista, escritor, espírita e jurista Dr. Humberto Dutra foi questionado sobre se ele citaria algum exemplo da mensagem de Jesus que teria sido mal interpretada? Ele, então, responde que Sim. Quando Jesus está na cruz e diz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. E lemos rios de tinta que dizem que Jesus fraquejou, sentiu medo. Escrevem coisas que não têm o menor sentido por não entenderem que na verdade ele está recitando o Salmo 22. São mais de trinta Salmos recitados por Jesus, desde o momento da sua prisão até o da crucificação. Fazendo-se um estudo desses Salmos, da sua importância na literatura judaica, entende-se por que Jesus está citando cada um e qual a lição.








