A Estação Primeira da Mangueira traz para a Sapucaí, no Carnaval 2020, um samba-enredo pra lá de polêmico, “A verdade vos fará livre”, numa referência a Jesus Cristo, no registro do Evangelista João 8:32 que, dirigindo-se aos Escribas e Fariseus, após tentativa frustrada de incriminar a mulher adúltera, diz que não julga a ninguém, incitando-os a irem ao encontro da verdade – “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Enquanto existirem Escribas e Fariseus, essa máxima estará em plena validade.
Jesus é a figura central do enredo da Mangueira, que tem sua voz garantida pelo autor da letra, cuja narrativa é feita por Jesus, na primeira pessoa: Mas EU estou do seu lado / E do lado do samba também.
Nascido no Morro da Mangueira, ele se apresenta da seguinte maneira:
Eu sou da Estação primeira de Nazaré / Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher / Moleque pelintra (pobre, maltrapilho) do Buraco Quente / Meu nome é Jesus da Gente.
Acrescentamos, tirados das entrelinhas “negro, pobre, de qualquer gênero, homem com corpo de mulher!”
Trata-se de um Jesus que chama o povo para o samba: “Samba!, que o samba é uma reza”.
Esse povo, por suas origens humildes, é facilmente incriminável, é alvo fácil da intolerância e Jesus alerta: “Vão te inventar mil pecados”.
Mas ele vai se colocar adiante, como escudo protetor dessa gente: “Mas EU estou do seu lado / e do lado do samba também / Enxugo o suor de quem sobe e desce a ladeira / Me encontro no amor que não encontra fronteira”.
Jesus narra os principais eventos de sua vida, seu nascimento e sobre sua família:- “Nasci de peito aberto, de punho cerrado / Meu pai carpinteiro desempregado / Minha mãe é Maria das Dores Brasil.-, e ele se declara um ativista – se encontra nas fileiras contra a opressão / E no olhar da porta-bandeira no seu pavilhão”.
Reconhece o uso de sua imagem como simples objeto midiático, pendurado em cordéis e corcovados, o que o faz levantar a dúvida sobre a validade e aceitação da sua palavra-Boa Nova. “Mas será que o povo todo entendeu o meu recado?”.
Em avançado século XXI, Cristo se vê, mais uma vez, fente a frente com modernos Escribas e Fariseus. Ideologizando o contexto da favela do Morro da Mangueira, seus moradores são as vítimas de um sistema econômico excludente, mantendo a desigualdade social, esse Cristo que pode ser achado nas fileiras contra a opressão, repete a história do Cristianismo milenar – “porque de novo cravejaram o meu corpo” -.
O poder trocou a cruz por fuzis letais, empunhados pelos “profetas da intolerância” que se esquecem de que – “a esperança brilha mais que a escuridão”.
A recomendação do Cristo de que se tenha olhos de ver se reescreve no verso, em tom de comando: “Favela, pega a visão” -; a lição do desprendimento e da fraternidade se reencontra no verso – “Não tem futuro sem partilha”-.
Judas Iscariotes, discípulo que viu em Jesus um potencial líder guerreiro, capaz de subverter a ordem política na Palestina, libertando-a do jugo romano, se equivocou. Com clareza, ontem e hoje, Cristo impõe limites a sua missão – “Dar a César o que é de César, a Deus o que é de Deus” -, que reaparece na voz do Cristo de punho cerrado, mas que, ao pregar a fraternidade, não deseja a violência – “Não tem futuro sem partilha / nem Messias de arma na mão”-
Certamente que esse verso vai desencadear muita polêmica, porque no dito pelo não dito, o presidente da República se chama Jair Messias Bolsonaro, que, nesse contexto, passa a representar as forças políticas e religiosas que oprimem o povo e que mais uma vez crucificam o Cristo.
Cristo declara sua crença em seu povo que “é semente do seu chão”, enraizado na sua cultura. Na última estrofe, Cristo expõe sua dimensão espiritual, que – “desde o céu deu pra ouvir / o desabafo sincopado da cidade” – e, descendo no Buraco Quente da Mangueira vai quarar tambor, transformar a cruz em esplendor e vai se misturar com sua gente sofrida, que vê na verde rosa o caminho para a liberdade. Jesus ressuscita, conforme declarado nos dois últimos versos – “E num domingo verde e rosa / ressurgi pro cordão da liberdade”.
LETRA NA ÍNTEGRA
CARNAVAL 2020 – A VERDADE VOS FARÁ LIVRE
Compositores: Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo
Intérprete: Marquinho Art Samba
I
EU SOU DA ESTAÇÃO PRIMEIRA DE NAZARÉ
ROSTO NEGRO, SANGUE ÍNDIO, CORPO DE MULHER
MOLEQUE PELINTRA NO BURACO QUENTE
MEU NOME É JESUS DA GENTE
II
NASCI DE PEITO ABERTO, DE PUNHO CERRADO
MEU PAI CARPINTEIRO DESEMPREGADO
MINHA MÃE É MARIA DAS DORES BRASIL
ENXUGO O SUOR DE QUEM DESCE E SOBE LADEIRA
ME ENCONTRO NO AMOR QUE NÃO ENCONTRA FRONTEIRA
PROCURA POR MIM NAS FILEIRAS CONTRA A OPRESSÃO
[BIS] E NO OLHAR DA PORTA-BANDEIRA PRO SEU PAVILHÃO
III
EU TÔ QUE TÔ DEPENDURADO
EM CORDÉIS E CORCOVADOS
MAS SERÁ QUE TODO POVO ENTENDEU O MEU RECADO?
PORQUE DE NOVO CRAVEJARAM O MEU CORPO
OS PROFETAS DA INTOLERÂNCIA
SEM SABER QUE A ESPERANÇA
BRILHA MAIS NA ESCURIDÃO
IV
FAVELA, PEGA A VISÃO
NÃO TEM FUTURO SEM PARTILHA
NEM MESSIAS DE ARMA NA MÃO
FAVELA, PEGA A VISÃO
EU FAÇO FÉ NA MINHA GENTE
QUE É SEMENTE DO SEU CHÃO
V
DO CÉU DEU PRA OUVIR
O DESABAFO SINCOPADO DA CIDADE
QUAREI TAMBOR DA CRUZ FIZ ESPLENDOR
E RESSURGI NO CORDÃO DA LIBERDADE
VI
MANGUEIRA
SAMBA TEU SAMBA É UMA REZA
PELA FORÇA QUE ELE TEM
MANGUEIRA
VÃO TE INVENTAR MIL PECADOS
MAS EU ESTOU DO SEU LADO
E DO LADO DO SAMBA TAMBÉM







