A intensidade das contradições à época escravocrata se multiplica: numa ponta, o apego a um passado remoto, quase sempre anterior à cisão talhada pela colonização; noutra, a convicção de que era necessário apostar num projeto do qual essa sociedade, por força das relações de poder determinadas pela economia mundial, parecia apartada.
No centro dessa engrenagem, os literatos produziam formas culturais que só podiam espelhar um conjunto de dilemas que acabavam por compor a sua maneira de estar no mundo. Silvio Romero identificou os seguidores desse projeto literário romântico fortemente nacionalista como “patrioteiros”.
Para ele, era o negro, e não o índio, quem tinha maior influência sobre os costumes, a Cultura do Brasil. Uma grande parte de nossos melhores estudos críticos tem mostrado os efeitos desse quadro um tanto perverso na ordem social e na produção da cultura brasileira.
No terreno dos estudos literários, os trabalhos de Antonio Candido, Alfredo Bosi e Roberto Schwarz têm desvelado nos impasses vividos por nossa Literatura, mostrando como tem-se que lidar com o desconforto de ser produzida na esfera impiedosa do subdesenvolvimento.
Instalados à margem das matrizes, portanto, marginal e periférica, inevitavelmente assaltados pelo desejo de autonomia em choque com a consciência da dependência, os literatos brasileiros, em todo o processo de formação do nosso sistema literário, vêm buscando caminhos adequados à articulação dessas duas forças que, afinal, nos estruturam: a necessidade de comungar os valores universalizados, padronizados pela Europa, e a vontade de manter as nuances particularizadas de nossas raízes culturais.
Castro Alves, particularmente, esteve atento a essa especificidade cultural, cantando a escravidão que, quase chegando ao século XX, contribui para a montagem de uma situação “estranha” aos padrões metropolitanos, cuja dinâmica já determinava uma outra orquestração entre as forças sociais.
Dado que o mercado mundial se assentava no trabalho livre (assalariado), a existência de uma economia presa ao capital europeu e baseada no trabalho escravo só poderia ser cadastrada como exótica.
E essa situação “estranha” torna-se ainda maior problema após a conquista da independência, época que aponta para uma proposta que se desdobra em dois níveis: no plano político, o nacionalismo pretendia a consolidação do Estado; no plano cultural, empreendia a busca de expressões artísticas que configurassem esteticamente a posse da terra, a natureza, o índio, entre outros.
Segundo Silvio Romero, “um bando de ideias novas” eclodiu no Brasil no século XIX. Eram positivistas comtianos, littreianos, spencerianos, republicanos, entre outros, que se mostravam confiantes em diagnosticar e prescrever um rumo para o “progresso” e a consequente integração do país à “civilização ocidental”; em outros termos, a interpretação do seu passado e a de sua natureza eram imprescindíveis para entender o país.
Literatos como José de Alencar, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, entre outros, a despeito de cantarem o amor, a saudade, a natureza, quando descortinamos a forma de suas produções poéticas, seja em verso ou em prosa, vamos encontrar um imaginário engendrado nos valores e símbolos da miscigenação racial.
Imaginário condizente com aquele disseminado pela elite imperial, que apreendia o negro como foco irradiador de doenças; o aborígene, em representações ambíguas, se por uns era percebido como atrasado, pagão e incivilizado, protótipo do “homem do mato”, para outros foi personagem dos “romances indianistas”, de que são modelos os de José de Alencar, como representante da identidade brasileira.
O projeto literário nacionalista, ao propagar na Literatura um imaginário pautado nos valores da miscigenação, condição sine qua non para o ingresso do país no rol das nações civilizadas, excluía o negro como uma das raças no emaranhado da formação da sociedade brasileira.
A promessa das elites e o sonho dos escravos não se cumpriram – a população residente no Brasil reconhecer-se como pertencente a um país, a um império, ou seja, a inclusão de todos na nação. Castro Alves, a despeito de compartilhar do projeto literário romântico nacionalista, rompeu alguns cânones ao cantar o escravo.
Sua produção literária assume a denúncia. Ao criticar a Corte por manter a escravidão, demonstra que não acreditava na abolição como dádiva, mas como uma conquista dos escravos.
O caminho a ser palmilhado deveria ser a revolução e não via reforma legislativa. Também não acreditava na “harmonia das três raças”, clamava a sociedade para lutar em prol da abolição.
Ao celebrar o negro/escravo, ele foi ousado, colocando em risco seu projeto literário pessoal, uma vez que o projeto literário nacionalista estava direcionado para uma compreensão histórica apoiada no apreço aos valores instituídos pela cultura de fora. E ele convoca a sociedade para lutar contra a desigualdade instituída, pelos valores humanísticos de liberdade e igualdade, chamando a atenção para a cultura do país, o que o diferenciou dos demais literatos de seu tempo.
Integrou e fortaleceu o contra-imaginário abolicionista e, no afã de propagá-lo, criou um jornal, participou de atividades em grêmios estudantis, declamava suas poesias em saraus, em festas na faculdade de Direito, além de divulgá-las na Imprensa. Desse modo, ele disseminava a campanha abolicionista, trilhando um caminho subversivo aos interesses do Império, tornando-se um propagador da marginalidade periférica.
Ainda, para finalizar, essa abordagem delineia uma forma de escrita que contrasta com a literatura maior: aquela que possui cânone literário e é regida por grandes mestres. Deleuze e Guattari nos apresentam o que chamam de “literatura menor”, uma maneira revolucionária que permite, como previu Kafka, colocar essa produção fora da alçada literária de obras clássicas e da crítica literária tradicional.
Uma Literatura de Púlpito, das praças, dos saraus e do povo e para o povo. É nesse ambiente onde a cultura, o território e a política se chocam que Castro Alves criou sua obra. E é a partir desses conflitos que Deleuze e Guattari discutem a literatura menor a partir de Kafka, que eu aqui aplico tanto a Castro Alves quanto a outros escritores como, os simbolistas Pedro Kilkerry, Cruz e Souza e Alphonso Guimarães e Lima Barreto, por exemplo.







