Entrevistado pela Folha de São Paulo, o professor da Universidade de Havard, Roberto Mangabeira Unger, 72 anos, diz que o modelo de desenvolvimento adotado pelo PT nos governos Lula e Dilma está esgotado.
Foi financiado pelo boom das commodities e no incentivo ao consumo interno, o que ele chama de “nacional consumismo”.
No período, segundo analisa, houve uma massificação do consumo e do crédito.
“Esse projeto teve virtudes: sustentou por algum tempo o crescimento e ajudou a diminuir a pobreza. Mas sempre foi um projeto precário. Repetiu o paradigma tradicional na história brasileira, que é procurar na riqueza fácil da natureza uma maneira de não enfrentar os problemas estruturais do país”, disse.
O modelo adotado pelo governo Bolsonaro, Mangabeira avalia como uma tentativa já testada pela elite brasileira e malograda.
“É uma pseudo-ortodoxia econômica, que propõe disciplinar o gasto público e diminuir o tamanho do Estado, para ganhar confiança financeira e atrair o investimento estrangeiro. Essa é proposta da centro-direita, da elite brasileira”, destaca e enfatiza que as duas propostas oferecidas a sociedade brasileiras foram malogradas.
Mangabeira Unger é um dos gurus do presidenciável Ciro Gomes (PDT). Além de professor da Faculdade de Direito da Universidade Harvard (EUA), foi ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (2007-2009 e 2015, governos Lula e Dilma, ambos do PT). Atuou como conselheiro de Ciro nas eleições presidenciais de 2018 e 2002.
É o principal formulador da Estratégia Nacional de Defesa, promulgada como lei em 2008. É autor de livros como “Depois do Colonialismo Mental – Repensar e Reorganizar o Brasil”, “A Segunda Via: Presente e Futuro do Brasil” e “O Próximo Passo: Uma Alternativa Prática ao Neoliberalismo” (este em parceria com Ciro).
O QUE DIZ SOBRE LULA
Para o professor, Lula deve abandonar a pretensão do PT em em exercer uma hegemonia no campo da esquerda.
“Não se conduzir de forma a sugerir que ele prefere perder o poder para a direita a perder a hegemonia na esquerda. Reconhecer os limites do nacional consumismo, falar com todos, não confundir falar com todos com a pretensão de liderá-los. E ajudar a abrir espaço para outros, dentro e fora do seu partido”.
SOBRE BOLSONARO
Mangabeira considera o presidente Jair Bolsonaro um “laranja” da elite brasileira.
“Um banqueiro com doutorado em economia não vai se eleger presidente da República. A elite não consegue que a maioria das pessoas vote nele, então tem que arranjar um laranja. Para que o laranja seja eleito e entregue o poder de fato ao banqueiro e ao tecnocrata. Por trás desse sonho da elite há uma manipulação autoritária que desrespeita o nosso povo. E existe um conteúdo totalmente errado, que não nos tirará da estagnação. Estamos de joelhos, estamos afundando. O risco não é o fascismo, o autoritarismo; o risco é a perpetuação da mediocridade”.








