A forma de pensar literária que elegeu o índio como personagem genuinamente brasileiro é reducionista e, por detrás dela, encontra-se uma concepção de história que tem como preocupação primeira a busca da “origem”, do começo, do desenvolvimento e do fim de todo acontecer histórico.
Estamos diante de uma história homogênea, linear e vazia, provinda de uma origem e prevendo um fim, que não permite a diversidade, uma história oficial celebrativa, cujo triunfalismo é a vitória do vencedor, a pisotear a tradição dos vencidos.
Outra forma de se interpretar a história desse período poderia ser via utilização do conceito de formação social, que permite dar visibilidade às tramas infinitas que dão conta do real e oferece a possibilidade de se inventariarem “os inúmeros inícios”, “as origens” plurais e, sobretudo, as diversidades culturais e temporais dessa realidade complexa. A história, como as demais ciências, é muitas vezes utilizada a serviço dos detentores do poder.
No caso brasileiro, a elite imperial (e hoje não preciso nem dizer!) incentivava a elaboração de uma história que desconhecesse o negro e a escravidão, marcas indeléveis do país.
Antonio Candido, em Formação da Literatura Brasileira, não coloca que essa Literatura nasce no século XVIII, mas se configura no decorrer desse século, ocupando o processo formativo que vinha de antes, da Literatura dos Árcades (A semi-epopeia O Uraguai, de Basílio da Gama, é um exemplo), e continuou depois.
Esse mesmo substrato teórico pode subsidiar o entendimento de que o índio, por ser o primeiro habitante do país, não deve ser considerado como único “genuíno” representante do homem brasileiro no século XIX, mas também o negro, uma vez, que ele realizava sua experiência de vida nesse “mundo misturado”, ‘a margem de suas raízes e diversificado pelas fortes cicatrizes da colonização e, juntos, edificavam a história do país, em formação.
Essa compreensão teórica abre espaço para a aceitação de que o homem brasileiro deve ser representado pelos diferentes grupos que foram se configurando no decorrer de vários séculos, possibilitando, então, a visibilidade do diverso, do outro, do marginal.
Sobre a questão do diverso, coloca Glissant que a função básica da Literatura é a desconstrução do discurso literário homogêneo-hegemônico para fazer ouvir os outros discursos silenciados e mostrar, assim, a sua heterogeneidade. (Continua na próxima semana)







