Em nível de Arte, vale evidenciar que o Romantismo, no Brasil, surge paralelamente ao Grito do Ipiranga. Antonio Candido, ao relacionar os dois acontecimentos, coloca que a Literatura romântica pretende ser, “no plano da arte, o que fora a Independência no plano político”.
Em outros termos, o Romantismo encaminha a nossa independência literária. Atrelados à compreensão de que ser romântico era estar mais próximo do mundo civilizado europeu, nossos literatos elaboram um projeto literário nesse campo: voltado para a compreensão do passado do país e de sua natureza, “tradição é a pátria no tempo, o território é a pátria no espaço”.
Era um projeto que buscava compreender o Brasil a partir das semelhanças de sua população, da homogeneização de sua cultura e de sua natureza. Desse modo, estariam em consonância com o propósito do Estado Imperial – transformar em nação o território brasileiro.
Esse projeto também guardava espaço para a atividade literária ser entendida como uma forma de intervenção social, da qual os escritores, além da experimentação estética, seriam os principais sujeitos.
Essa concepção de arte militante (função pragmática ou socializadora da Arte) é alardeada por Bilac: “A arte não é, como querem ainda alguns sonhadores ingênuos, uma aspiração e um trabalho à parte, sem ligação com as outras preocupações da existência… As torres de ouro ou de marfim, em que os antigos se fechavam, ruíram desmoronadas…Só um louco – ou um egoísta monstruoso – poderá viver e trabalhar consigo mesmo, trancado a sete chaves dentro do seu sonho, indiferente a quanto se passa cá fora, no campo vasto em que as paixões lutam e morrem… em que se decidem os destinos dos povos e das raças…”
Essa concepção militante/nacionalista da Literatura, na qual o engajamento em questões sociais firmava a necessidade de todos os homens (brancos, negros e índios) se reconhecerem como integrantes da almejada nação, tornava-se cada vez mais uma postura necessária e ganharia contornos concretos na luta empreendida, sobretudo, por Castro Alves contra a escravidão.
Assim, diante da possibilidade de “homogeneização do território”, de construção de uma história nacional, ocorreu uma aliança entre a intelectualidade e o poder monárquico no segundo Reinado; os literatos queriam o “progresso do conhecimento” e, por meio deste, o “progresso e a grandeza da nação”.
No cotidiano da sociedade imperial, esses homens portavam-se como “redentores da sociedade”, representantes dos “novos ideais”; eles se percebiam como guias que deveriam indicar o caminho seguro a ser trilhado pelo país.
Essa imagem que construíram de si mesmos lhes conferia uma posição diferenciada na sociedade e, sem dúvida, foi forjada a partir do olhar que nutriam sobre os “outros”, os demais brasileiros.
Coelho Neto, na obra A Conquista, escrita em 1899, mostra um diálogo cotidiano entre vários homens de letras, que reafirma a autoimagem de “superiores” do grupo:
“– Isso há de ser sempre o que é. O povo não tem tradições e, sobretudo, é a gente mais melancólica do mundo. Você vê um grupo de brasileiros é fúnebre, parece que estão sempre discutindo um enterro. – Ou segredando pornografia, acrescentou Aluízio de Azevedo. – Ou falando mal da vida alheia, ajuntou o Paula Ney”. – Nem tanto, corrigiu Patrocínio. Nem tanto. Há brasileiros de espírito. – Quem são? Aponte-os! – Nós, por exemplo… – Ah! Sim… Mas nós não entramos em contato. E esses escritores, em sua maior parte, não se ocupavam apenas das letras; eles exerciam ocupações na imprensa ou se dedicavam à política, como, por exemplo, José de Alencar, grande proprietário rural, monarquista, nacionalista, que atuou como político no Partido Conservador.
Um pouco do clima de insatisfação da época vivenciado pelos literatos brasileiros, motivada por não poderem viver apenas das Letras, pode ser observado na recomendação que Olavo Bilac, no livro A Conquista, faz a Coelho Neto:
– Não faça notícias: a notícia embota. Ataque as instituições, desmantele a sociedade, conflagre o país, excite os poderes públicos, revolte o comércio, assanhe as indústrias, enfureça as classes operárias, subleve os escravos, não escreva uma linha, uma palavra sobre notas policiais, nem faça reclamos. Mantenha-se artista. Havemos de vencer, mas para isto é necessário que não façamos concessões. Esta é uma concepção muito exata do pragmatismo necessário à Arte que se procurava jogar na Literatura. (Já àquela época!)
(Continuamos na próxima semana)








