O conto da ilha desconhecida (1997), já diz o nome, é um conto em forma de livro, que, a priori, parece nem chegar perto, em fatura estética, de seus melhores romances. Porém, como em outras obras do autor, o leitor percebe, de saída, a mão de José Saramago, a mão das preocupações sociais repetidas, a das denúncias do isolamento do poder, a da conclamação à ação dos homens. A mão que foi incisiva em Levantado do chão e no Memorial do Convento. A mão ácida e desconsolada de O Evangelho segundo Jesus Cristo e do Ensaio sobre a cegueira. E a mão irônica e bem humorada de A Viagem do Elefante.
Também é fácil, para o leitor mais atento, notar o fluxo de sentenças separadas por vírgulas, a combinar diálogos, entrecortar intervenções do narrador e das personagens. A voz e a dicção migrantes de Saramago, já há algum tempo a serviço de inquietações tanto filosóficas e culturais quanto literárias. Contar o conto. Este é o mote do conto/ensaio. Para o ler, tomo como chave de leitura da obra, também, uma entrevista concedida à Fundação José Saramago, pelo Nobel, que trata de opiniões bem pessoais acerca de narrador/autor/voz/fluxo.
Nesse conto, o autor do vertiginoso O ano da morte de Ricardo Reis tenta adequar sua estratégia narrativa à forma breve, mas, sedento de transmitir uma mensagem, aparentemente, acaba por deixar as linhas de construção muito aparentes.
Vejamos: o conto combina duas histórias. A primeira, explícita, de um sujeito que pede um barco ao rei para buscar uma ilha desconhecida. A segunda, do precário conhecimento de si mesmo que todas as personagens revelam.
A primeira segue linear: da pressão sobre o rei à obtenção do barco e ao contato com a mulher que pode acompanhá-lo na viagem. A segunda é instável e depende de tudo que dizem ao homem para dissuadi-lo da empreitada, para convencê-lo de que, nos dias atuais, não há mais ilhas desconhecidas.
Onde estará a Ilha Desconhecida de José Saramago? Pois, teimoso, o homem persiste e, em cima de um barco e ao lado de uma mulher, dispõe-se a navegar pelo mar ainda mais tenebroso do que o dos antepassados.
O tema pode parecer evidente, o das descobertas de novos mundos, novas paisagens, novos encantamentos, tão presentes no imaginário lusitano à época das grandes navegações. Ledo engano! Simulacros e labirintos!
É tão forte a presença da narrativa subterrânea (a segunda: aquela que só deveria vir à tona no fim, e olhe lá) que a aparente (isto é, a primeira) sucumbe, presa da irrealidade do desejo do homem. Fragilidade estrutural? Não: Saramago pretende exatamente isso, que o leitor não demore a entender sua metáfora da alienação do homem em seu sonho ensandecido de repetir o passado. E que, também de súbito, enxergue a clarividência do contato com o outro, uma mulher, como o fio que lhe permite reconhecer o objetivo verdadeiro de sua procura, aquilo que o faz afrontar o rei, seus pospostos e insistir numa busca que todos supõem equívoca.
Ao simplificar exageradamente a estrutura do conto e expor, novamente, seu furor militante e sua disposição denunciadora, Saramago o inscreve na lógica fabular e o associa, funcionalmente, a um discurso político.
Dessa forma, O conto da ilha desconhecida se torna apenas uma metáfora. Bonita ou não, apenas uma metáfora; metáfora capaz de combinar tempos e histórias para expor um presente que é simultaneamente desagradável e passível de transformação. Desde que persistamos, ensina o autor, em nossas sandices e saibamos identificar como elas espelham – melhor talvez do que o mar salgado – a nós mesmos e aos outros.
A ilha desconhecida é coisa que não existe, não passa duma ideia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo, Devíeis ter ficado na cidade, em lugar de vir atrapalhar-me a navegação, Andávamos à procura de um sítio melhor para viver e resolvemos aproveitar a tua viagem, Não sois marinheiros, Nunca o fomos, Sozinho, não serei capaz de governar o barco. Pensastes nisso antes de ir pedi-lo ao rei, o mar não ensina a navegar. Então o homem do leme viu uma terra ao longe e quis passar adiante, fazer de conta que ela era a miragem de uma outra terra, uma imagem que tivesse vindo do outro lado do mundo pelo espaço, mas os homens que nunca haviam sido marinheiros protestaram, disseram que ali mesmo é que queriam desembarcar, Esta é uma ilha do mapa, gritaram, matar-te-emos se não nos levares lá. Então, por si mesma, a caravela virou a proa em direcção à terra, entrou no porto e foi encostar à muralha da doca, Podeis ir-vos, disse o homem do leme, acto contínuo saíram em correnteza, primeiro as mulheres, depois os homens, mas não foram sozinhos, levaram com eles os patos, os coelhos e as galinhas, levaram os bois, os burros e os cavalos, e até as gaivotas, uma após outra, levantaram voo e se foram do barco transportando no bico os seus gaivotinhos, proeza que não tinha sido cometida antes, mas há sempre uma vez.
No Congresso na Fundação José Saramago, o autor levantou questões importantes acerca do estatuto do narrador (narração, ficção, autoria). Afirmou:
Em parte alguma encontrei eu a palavra autor. Estranho caso, pensei. Então disse comigo mesmo: “Eles (vós) que falem do que os autores, muito ou pouco conhecidos, tornados em literatura, fizeram. Quanto a mim, talvez me seja possível encontrar alguma coisa para dizer sobre o que o autor é.” Eis-me aqui, portanto, sozinho com o meu tema, em rigor sozinho comigo mesmo. Começo por um esclarecimento que considero importante. Pelo menos do que posso alcançar ser minha intenção consciente, suponho que não existe outra, a interrogação posta no começo desta breve conferência – “Entre o narrador omnisciente e o monólogo interior: deveremos voltar ao autor?” – não é gratuita nem quer ser polémica. Em primeiro lugar não é gratuita porque pretende enfrentar-se, sem virar a cara e sem qualquer precaução retórica prévia, com as minhas próprias dúvidas e perplexidades acerca da verdadeira identidade da minha voz narrativa, essa voz que, nos livros que tenho escrito, veicula o que eu creio ser, finalmente, e em todos os casos e circunstâncias, o simples pensamento do autor que sou, desta pessoa que sou, do seu pensamento próprio ou, ai de mim, o pensamento de tantas outras, por mim tomado para satisfação das minhas necessidades de narrador. (Disponível em http://www.josesaramago.org/saramago/detalle.php?id=10, Fundação José Saramago, acessado em 29/08/2019)
O conto da Ilha Desconhecida pode ser lido analogamente às parábolas contadas por Jesus Cristo aos seus discípulos com o objetivo de lhes fazer pensar sobre suas dúvidas. Nós, brasileiros, sentimo-nos discípulos ao lê-lo. Pode ser lido como a parábola do sonho (i)realizado, isto é, como um canto de pessimismo em que a vontade ou a obstinação fazem a fantasia estar à deriva, talvez nos levando, leitores mais atentos, a enxergar o desassossego deste autor diante dos rumos da própria ficção contemporânea, que não quer ancorar em porto seguro. Lucia Helena (2010), em seus Ficções do desassossego, explora bastante essa questão em outros autores.
É um livro que nos leva a “navegar” para além do real, de uma forma simplista e conseguida. Antes, entretanto, ela é submetida a uma série de embates com o status quo, com o estado consolidado das coisas, como se da resistência às adversidades viesse o mérito e do mérito nascesse o direito à concretização.
Entre desejar um barco e tê-lo pronto para partir, o viajante vai de certo modo alternando a ideia que faz de uma ilha desconhecida e de como alcançá-la, e essa flexibilidade com certeza torna a narrativa mais ambígua. Saramago nos conta a busca de uma ilha que não consta em nenhum mapa. Uma fábula simples, nas mãos de um escritor como o português José Saramago, se transforma numa obra-prima.








