“Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma maneira bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratularmo-nos ou para pedir perdão, aliás, há quem diga que é isto a imortalidade de que tanto se fala.” (SARAMAGO, José. In: http://pensador.uol.com.br/autor/jose_saramago/, Acesso em 16/06/2013).”
Tomando por base a reflexão filosófica de José Saramago, ao terminar minha pesquisa apresentada nos dois últimos Congressos da ABRAPLIP, pretendo fazer uma reflexão a respeito dos lugares poéticos e da ironia fina em A Viagem do Elefante e O Conto da Ilha Desconhecida, usando para análise o estudo de Literatura do Fora, de Blanchot, relido por Foucault em “O Pensamento do Exterior” e a retomada destas reflexões por Deleuze.
Para tal, analisarei as categorias: cena contemporânea, simulacro, agenciamento do simulacro, realidade brasileira, ficção e análise político-sociológica dos textos literários saramaguianos e do pensamento do autor ficcionista Português.
Isso, parece-me, colocar os estudos anteriores a respeito do poeta numa perspectiva de embate: O que é o Brasil leitor da ficção de Saramago? O que é a “ilha desconhecida” na relação entre as desigualdades sociais e a violência? Onde estão as lutas de classe representadas nas duas narrativas de Saramago?
Diante dos questionamentos, é mister repensar as subjetividades contemporâneas dentro da perspectiva do historicismo Foucaultiano. Ainda, teoricamente, refletirei sobre o que teria levado ao impasse a produção literária contemporânea, o impasse sobre o qual, no entender de Maria da Glória Bordini (2007, p. 58), é necessário pontuarmos mais criteriosa e criticamente, pois essa crise se instaura na Europa, nos Estados Unidos, nos países recém-colonizados da África, na Ásia e no Oriente.
A fim de fazer um levantamento da crítica e da produção crítico-historiográfica que pensa a crise, além dos autores abordados no início desta proposta, usarei conceitos presentes em Literatura, intelectuais e a crise da cultura (HELENA, Lucia, 2007), cujos artigos “examinam influências e práticas de linguagem da literatura” e “partem das ligações entre a atividade literária, as funções do intelectual e o panorama da atual crise social, decorrente das formas contemporâneas de reprodução do capitalismo e dos efeitos da globalização.” (Idem, texto de orelha).
Estas escolhas se explicam porque darão suporte teórico à primeira discussão, delimitando-a a investigar o acento da literatura contemporânea hoje, que não está somente na força do fragmento, mas também atualiza a interrogação sobre uma outra “subjetividade”, ou “não-subjetividade”, fundamental para situar o lugar em que a literatura repropõe a pergunta existencial de cada tempo, descrevendo, assim, um sujeito que se disfarça atrás de uma máscara mortuária, ultimato da máscara trágica e que perdeu o uso da razão, uma vez que deixou de buscar ou de indicar uma verdade.
A ideia de literatura como experiência do Fora é uma noção criada por Maurice Blanchot para designar uma prática estética e ética que a literatura desenvolve. Textos fundamentais da literatura moderna, em particular os de Kafka, Mallarmé, Artaud, Proust, entre outros, levaram Blanchot a um diferente questionamento do fazer literário.
Dessa maneira, o Fora surgiu como uma possibilidade de delinear alguns caminhos para se responder às novas inquietações que apareciam no momento. Em muitos de seus livros, tais como O Espaço Literário, O livro por vir e A parte do fogo, a concepção de Fora aparece ligada a outros conceitos fundamentais de sua obra, tais como a impossibilidade, o neutro, a negação e o imaginário.
Se falo, aqui, de Blanchot, é para marcar que a noção com a qual irei trabalhar na presente comunicação foi criada por ele. No entanto, outros dois pensadores franceses – Michel Foucault e Gilles Deleuze – retomaram essa noção em diversos momentos de suas obras, dando-lhe sempre um novo enfoque. O corte que pretendo fazer é sobre a leitura que Deleuze faz em seu livro intitulado Foucault.
Deleuze vê em Foucault três dimensões fundamentais: a do Saber, a do Poder e a da Subjetivação. A cada uma corresponde uma das seguintes questões: que podemos saber, ou que podemos ver e dizer em tais condições de luz e visibilidade? Que poderes é preciso enfrentar e quais são nossas possibilidades de resistência em cada época? E quais são nossos modos de existência, nossas dobras, nossos processos de subjetivação? Farei agora uma leitura dessas três dimensões, em José Saramago, usando para tal, A Viagem do Elefante (2009) e O Conto da Ilha Desconhecida para mostrar de que maneira o conceito do Fora é tão fundamental tanto para Foucault quanto para Deleuze quanto para suporte e fundamentação teórica das leituras.








