Em 18 de agosto de 1987, resgatado de meu arquivo, o Jornal do Brasil publicava um grande artigo de Afonso Romano de Sant’Anna, de título “A luz apagou”, sobre a morte do grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade.
Cito-o: “Doze dias depois da morte de sua filha Maria Julieta Drummond, parou o coração do maior poeta brasileiro, um dos maiores em língua portuguesa, um dos melhores do século. O escritor mais amado e respeitado de seu tempo em seu país, o poeta que um dia escreveu: ”E agora, José?/ A festa acabou./ A luz apagou, o povo sumiu./ A noite esfriou”.
25 livros de poesias e outros 16 de crônicas, contos, memórias e cartas. Uma obra que é, sem dúvida, um marco em nossa cultura. Um Drummond que, nas palavras de Sant’Anna “é múltiplo”.
Já versava sobre a miserabilidade, o perigo e a ignorância política e comunitária do povo brasileiro, Tratou de todos os nossos infortúnios e previu o apagão atual pelo qual estamos passando: um apagão senil, arbitrário, terra sem lei… a festa acabou.
Golpe após golpe, chegamos às queimadas e destruição da Amazônia brasileira, manchetes de todos os jornais estrangeiros hoje. Isso é senil. O que nos espera? E agora, José?
A luz apagou e estamos vivendo como vivem as personagens de Os Miseráveis, de Víctor Hugo (Paris, 1862), cuja trama se desenvolve a partir de Jean Valjean, personagem que consolida os principais ideais do autor, pautando as temáticas de pobreza, desigualdade social e injustiça em um mundo cheio de perversidades e grosserias.
A obra narra a emocionante história do homem que, por ter roubado um pão, é condenado a dezenove anos de prisão.
Grosseria é um adjetivo bem contemporâneo no Brasil. É sim! Podemos dizer que estamos vivendo em um país em que as grosserias são e estão presentes na nossa realidade dia a dia.
Mas a ignorância política de que tratou Drummond em “José”, esta é visível a olhos nus! A ignorância que nos leva ao apagão! Basta ver, perceber o quanto estamos sendo esmagados por ela, a ignorância. Destruição, catástrofe, morte, violência.
Tenho que me calar, pois o que vemos já é por demais obsceno! Não há necessidade de xingamentos, o obsceno sociocultural está aí! As queimadas apagaram todas as luzes! E o inimigo avança sem piedade, sem pudor e, pior, sem limpar a bunda!
A luz apagou e estamos sendo mandados por um porco, corpo ao contrário, para tomar de Hilda Hilst sua filosofia esplêndida: “porco, corpo às avessas”.
E voltando a Victor Hugo para reafirmar que somos miseráveis sim: “chega a hora em que não basta apenas protestar: após a filosofia, a ação é indispensável”.
Mas a luz apagou e o povo sumiu! Como profetizou Drummond. E a noite surgiu na Paulicéia Desvairada!!! Surgiu para todos nós!!! O Brasil apagou!








