*Com Meio
Comentando com jornalistas, nesta segunda-feira (29), o desfecho do caso de atentado contra sua vida, o presidente Jair Bolsonaro se mostrou incomodado com o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz.
“Por que a OAB impediu que a Polícia Federal entrasse no telefone de um dos caríssimos advogados? Qual a intenção da OAB?”
A polícia não foi autorizada a quebrar o sigilo telefônico do advogado de Adélio Bispo, o autor da facada. Num repente, Bolsonaro partiu para o pessoal:
“Um dia se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto. Ele não vai querer ouvir a verdade.”
Como já é praxe após este tipo de afirmação de Bolsonaro, o caso dominou o dia.
“Todas as autoridades, inclusive o Senhor Presidente da República, devem obediência à Constituição”, afirmou em nota, assinada pelo conjunto de seus diretores, a OAB.
“Tem entre seus fundamentos a dignidade da pessoa humana, na qual se inclui o direito ao respeito da memória dos mortos.”
Santa Cruz respondeu em seu Facebook:
“O mandatário da República deixa patente seu desconhecimento sobre a diferença entre público e privado, demonstrando mais uma vez traços de caráter graves: a crueldade e a falta de empatia.”
À tarde, o presidente escolheu cancelar um encontro marcado com o chanceler francês para entrar numa live e cortar o cabelo.
“O pai do Santa Cruz integrava a Ação Popular no Recife, era o grupo mais sanguinário que tinha”, ele disse.
“Ele, que era jovem, veio pro Rio de Janeiro. O pessoal da AP ficou estupefato, ‘como pode esse cara vir se encontrar com a gente, o contato tinha de ser com a cúpula da AP no Recife. Eles resolveram sumir com o pai do Santa Cruz. Não foram os militares que mataram ele.” (Vídeo)
O registro histórico informa o contrário, conta Bernardo Mello Franco (O Globo). O relatório RPB 655, do Comando Costeiro da Aeronáutica, atesta que o estudante Fernando Santa Cruz foi preso pelo regime em 22 de fevereiro de 1974. Ele estava sob custódia das Forças Armadas quando desapareceu.
O próprio governo Bolsonaro emitiu atestado de óbito do estudante “em razão de morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro”, lembra Guilherme Amado.
Na sexta-feira (26), o Ministério Público Federal concluiu o inquérito que investiga a incineração de corpos de presos políticos da ditadura militar na Usina de Cambaíba, em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense.
O caso foi investigado durante oito anos e o resultado ainda está sob sigilo.
O MPF disse que o processo tem mais de 2 mil páginas, além de materiais em áudio e vídeo.
Em entrevista ao site G1, o procurador do MPF, Guilherme Virgílio, disse que a investigação foi especificamente sobre a incineração dos corpos e, consequentemente, desaparecimento forçado das vítimas e não sobre como elas foram mortas.
O nome de Fernando Santa Cruz, pai do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, consta na lista do relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que investigou os crimes ocorridos na época, dos corpos que podem ter sido incinerados no local em 1974.







