*Reportagem especial
A tentativa de latrocínio contra o motorista do aplicativo Uber, Marcelo Ferreira Gama, de 53 anos, na cidade de Campos dos Goytacazes (RJ), na noite de sábado (15), é mais um capítulo da tragédia urbana nesses tempos de precariedade do trabalho.
É o efeito colateral da uberização, uma relação trabalhista atípica e com formato ideal para absorver uma massa de desempregados, que no Brasil integra uma estatística de 13,4 milhões de pessoas.
É um negócio sem custos relevantes para os gerenciadores, porque os motoristas do Uber não têm patrão, são regidos por um aplicativo que opera em escala global, não têm vínculo empregatício, não têm garantias de seguridade, são donos do meio de produção (o carro), além de arcar com todos os ricos e prejuízos.
No caso de Marcelo Ferreira Gama, o prejuízo foi ter o carro roubado e incendiado. O lucro foi ter sobrevivido a dezenas de facadas no episódio que teve como autores dois jovens conhecidos. Um deles já foi preso pela polícia.
O episódio de Campos é mais um entre tantos outros que estão vitimando motoristas de aplicativos por todo o Brasil.
ENTENDA O CASO
Marcelo Ferreira Gama, sofreu uma tentativa de latrocínio na cidade de Campos dos Goytacazes (RJ), Norte Fluminense, na noite de sábado (15).
Ele foi atingido com dezenas de facadas e foi encontrado na manhã de segunda-feira (17), em uma estrada próxima à Usina Sapucaia, na BR-356. Os suspeitos são dois jovens que usaram uma faca de cozinha. Um deles foi preso pela Polícia nesta segunda-feira (17).
O carro, um Prisma de placas KRR 2115, foi roubado e encontrado depois de ser incendiado pelos assaltantes.
O motorista relatou que recebeu a chamada de um cliente conhecido que estava na BR-101, na rodovia Campos-Vitória, depois das 22h. O jovem que fez a chamada, segundo motorista, afirmou que precisava buscar uma namorada. Na verdade, ele foi buscar um comparsa que ajudou no assalto. “Amigo, perdeu”, teria dito um dos suspeitos.
Em seguida, o motorista do Uber foi colocado no banco de traseiro do carro e levado para uma estrada de chão. Foi obrigado a ficar de joelhos e passou a sofrer estocadas com a faca por todo o corpo. A vítima só sobreviveu, porque as facadas, apesar dos vários golpes, não atingiram órgãos vitais.
O motorista acredita que só foi abandonado, porque os agressores pensaram que estava morto. Antes de fugir, um dos jovens pediu que o último golpe fosse desferido na cabeça, mas isso acabou não se consumando, já que o esfaqueador deu a tarefa por encerrada ao ver a vítima desacordada.
Entre o final da noite de sábado e a manhã desta segunda-feira (17), o motorista conseguiu se arrastar até uma propriedade rural. Para sobreviver diante da sede, segundo relata, consumiu água de brejo.
Marcelo Gama foi encontrado por um funcionário de uma propriedade rural e levado para o Pronto Socorro do Hospital Ferreira Machado, onde continua se recuperando.
A FACE DO CRIME
Um dos rapazes que participaram da tentativa de latrocínio tem 19 anos. É filho de um motorista de táxi. Também atuou neste ramo, período em que conheceu Marcelo.
O pai do jovem é evangélico e respeitadíssimo no ambiente em que trabalha. Tentou inserir o filho com o objetivo de lhe garantir um meio de subsistência. Dividiam o mesmo ponto em escalas diferentes.
O jovem ganhou um celular do pai para facilitar contatos com passageiros. Mas, segundo relatos, começou a fazer corridas para lugares indevidos, o que levou o pai a afastá-lo do ponto.
Na sexta feira (14), pai e filho tiveram uma discussão envolvendo a cobrança de dinheiro para pagar a prestação do telefone celular.
No dia seguinte, o jovem e o comparsa decidiram roubar um carro. Eles teriam procurado compradores na favela “Terra Prometida”, no bairro Codin, para negociar a venda do veículo a ser roubado.
Lá receberam oferta R$ 2 mil. Teriam pedido R$ 4 mil. Às 23h de sábado ligaram para Marcelo propondo uma corrida. Por conhecer os passageiros, ele foi ao encontro. O plano estava premeditado: roubar o carro e matar o dono. Marcelo sobreviveu, porque fingiu-se de morto
No final da tarde desta segunda-feira (17), os dois agressores teriam voltado ao local em que deixaram o corpo. Não encontraram e entraram em pânico. Depois que a mídia passou a divulgar que a vítima foi encontrada, a dupla foi ao local em que havia escondido o carro: uma estrada entre o Posto Canaã e a Usina Sapucaia, na BR-356.
O local é de difícil acesso, por se tratar de um canavial de cana-de-açúcar. Neste local incendiaram o veículo. Um dos jovens que participou da tentativa de latrocínio está foragido.
DRAMA FAMILIAR
O motorista do Uber é de uma família de classe média. Uma de suas irmãs é juíza. Seu trabalho é muito mais uma opção do que propriamente uma necessidade. Estão todos em pânico.
A família do jovem que foi preso também está abalada, porque não compactua com a atividade criminosa. Tem tradição no ramo de mobilidade urbana. Uma tia do rapaz chegou a espalhar um áudio por Whatsapp afirmando que a família pretendia procurar o motorista do Uber para “pedir perdão pelo ato do agressor”.
A insegurança é companheira para quem atua no sistema de uberização em uma das cidades mais violentas do Estado do Rio de Janeiro.
O motorista André da Silva Braga, de 48 anos, por exemplo, não teve a mesma sorte de Marcelo. Ele foi assassinado e teve o carro roubado em maio. O seu corpo foi encontrado na Estrada Cambaíba no dia 22.
André desapareceu no dia 20, depois de enviar uma mensagem por meio de Whatsapp afirmando que estava em perigo. Segundo a polícia, o corpo foi encontrado desfigurado.








