“Eis que venho como ladrão. Bem aventurado aquele que vigia e guarda suas vestes, para que não ande nu, e não se vejam suas vergonhas” (AP 16: 15).
Não podemos falar de nudez, sem nos reportarmos às mulheres que andam quase vestidas, sem se preocuparem com o pudor, que se transformou em atitude arqueológica, coisa a ser buscada no passado. Também devemos nos lembrar da nudez de São Francisco de Assis, diante do Papa Inocêncio III e dos séculos. Outra notável nudez, além da minha, exibida em redes sociais, há mais ou menos um ano, e que, com ela, expusemos também a fragilidade e falta de consistência dos discursos e narrativas pseudo-reguladoras, no âmbito da religião e da moral.
Trago mais uma vez a nudez do homem, posto em cena no Evangelho de Marcos (Mc 14:51, 52). Nudez ignorada por biblistas e exegetas, que a põem de fora das teias de seus discursos. Nem a pós-modernidade, que é o nosso ambiente sócio-político-religioso se encorajou a uma tese, para se ter naturalmente a antítese e se chegar a uma síntese, não necessariamente conclusiva.
Em meio à polêmica sobre a nudez na arte e os novos ataques moralistas da direita, podemos contar 18 famosas obras de arte que não existiriam, caso a nudez fosse proibida. Desde as pinturas rupestres, o nu é parte fundamental da arte e da expressão humana. Não vamos enumerá-las, vamos indicar a primeira e a última da relação: Pintura Rupestre em La Marche, França; Leda e o Cisne, de Rubens.
O Evangelho de Marcos relata, com exclusividade, um fato, no mínimo curioso, ocorrido no momento da prisão de Jesus, quando Satanás, enfurecido, possui Judas: “Entrou, porém, Satanás em Judas, que tinha por nome Iscariotes, o qual era do número dos doze” (Lc 22:3). Judas então reúne para si grande número de pessoas armadas e se dirige para o Getsêmani. Entre os que estão sendo conduzidos por Satanás, contam: “os principais dos sacerdotes, escribas e anciãos” (Mc 14: 43). A composição dessa turba é assustadora!
Naquele dia obscuro da prisão de Jesus, onde os maus zombaram dos bons, havia, entre os discípulos, um jovem envolto a um lençol. Diz a Palavra: “E certo jovem o seguia, envolto em um lençol sobre o corpo nu. E lançaram-lhe a mão. Mas ele, largando o lençol fugiu nu.” (Mc 14:51, 52). A narrativa é inconteste – somos informados sobre a presença de um homem nu, num momento muito grave da vida de Cristo. Lembramos de que nenhum outro Evangelho faz referência a esse episódio.
Quem era (Qual a identidade do homem nu?) O porquê de suas vestes? Seria alguém sem posses? Tão pobre a ponto de cobrir-se de forma imprópria? O lençol teria sido doado? Seria ele um mendigo? O que fazia ali naquele momento? Qual sua idade? Era judeu ou samaritano? Qual era sua posição social? Qual era sua ocupação profissional? Era um seguidor fanático do Cristo? São perguntas que ficaram sem respostas ao longo dos séculos. Com relação a minha nudez, para esse coquetel de perguntas pertinentes, teremos respostas convincentes, que não é o caso exibir as respostas aqui.
A tradição identifica o homem nu como sendo o próprio Marcos, discípulo e escritor do Evangelho de mesmo nome. Tudo porque acreditam que a última ceia ocorreu na casa dele, fato inverossímil, que não se sustenta, diante da lógica da sequência dos acontecimentos, anteriores à cena do Jardim.
E, no primeiro dia dos pães ázimos, quando sacrificavam a páscoa, disseram-lhe os discípulos: Aonde queres que vamos para os preparativos da páscoa? E enviou dois dos seus discípulos, e disse-lhes: Ide à cidade, e um homem que leva um cântaro de água, vos encontrará: segui-o. E onde quer que entrar, dizei ao senhor da casa: O Mestre diz: onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos? E ele vos mostrará um grande cenáculo e preparado, prepara-a ali. (Mc 14: 12,15).
Se a ceia ocorreu na casa de Marcos, Jesus e os discípulos não saberiam onde ficava? Por que pedir direção ao homem com o cântaro? Sendo o local da ceia já preparado com antecedência por Jesus, como Marcos não o saberia? Ele não veria Jesus a entrar e sair do aposento? Por isso concluímos que a ceia não foi na casa de Marcos e que o atual local em Jerusalém, chamado de Igreja de São Marcos (Síria Ortodoxa), erra ao apontar o lugar – centro de peregrinação – como sendo o da realização da última ceia. Lá existe até uma inscrição em pedra afirmado ter sido ali o último local onde Jesus se reuniu com os discípulos. É engano.
O homem nu não poderia ser Marcos. Por que, estando em sua casa, ceiando com Jesus, vestiria um lençol? Se a ceia realmente tivesse sido na casa dele, este seria mais um forte motivo para que o homem nu não fosse identificado como Marcos. Ele teria condição suficiente para escolher uma roupa adequada para a ceia, até mais que os outros discípulos.
Este homem, então, tinha a Jesus como o bem mais precioso, para ele, não importava se iriam zombar ou achá-lo ridículo, o mais importante era seguir o Mestre. Imaginamos que o agarravam pelo lençol e ele se esquivava até, enfim, abandonar a veste, em semelhança a ação de José do Egito, fugindo da esposa de Potifar.
O homem nu do Evangelho de Marcos pode ser o porta-voz da lição de que para estarmos e olharmos Jesus e também segui-Lo, devemos estar livres de vergonhas. Já não é com a veste humana que nos constitui, mas da espiritual. Dessa aprouve a Deus nos cobrir. No livro de Josué lê-se: “Hoje revolvi de sobre vós o opróbrio do Egito” (Js 5:9), ou seja: revolvi a escravidão, a vergonha. O homem nu não se sentiu constrangido a seguir Jesus envolto a um lençol, porque seu espírito estava coberto de uma veste excelente, sua vergonha não era a de ser pobre e solitário, mas consistia em ter sido miseravelmente pecador. Antes nu, agora vestido, mesmo nu.








