Não há muito tempo que, neste espaço, escrevi um texto sobre Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. Sua literatura, desde os idos dos anos 1970, nos remete a muitas coisas absurdas, canhestras e obtusas que estão acontecendo no Brasil de hoje.
Retomo sua prosa para chamar à atenção do leitor algumas questões que considero mais relevantes dentro do absurdo país em que vivemos e que, profeticamente, foram romanceadas pelo mais recente membro da Academia Brasileira de Letras.
Filho de um ferroviário, seu primeiro trabalho informal de jornalismo foi em uma crítica de cinema no jornal A Folha Ferroviária, em 1952, mas, desde pequeno, Loyola sonhava conquistar o mundo com sua literatura; se não, pelo menos voltar vitorioso para sua cidade natal.
Sua carreira começou em 1965 com o lançamento de Depois do Sol, livro de contos no qual o autor já se mostrava um observador curioso da vida na cidade grande, bem como de seus personagens.
Trabalhou como editor da Revista Planeta entre 1972 e 1976. Dono de um “realismo feroz”, segundo Antonio Candido, seu romance Zero foi publicado inicialmente em tradução italiana. Quando saiu no Brasil, em 1975, foi proibido pela censura, que só o liberou em 1979. Além do italiano esse livro foi traduzido para o alemão, coreano, espanhol, húngaro e inglês.
Em 2005, tornou-se cronista do jornal “O Estado de S. Paulo”. Em 2008, o romance O Menino que Vendia Palavras, publicado pela editora Objetiva, ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção do ano.
Em 2016, foi agraciado pela Academia Brasileira de Letras com o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Em dezembro de 2010, foi agraciado com a comenda da Ordem do Ipiranga pelo Governo do Estado de São Paulo. Em março de 2019, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e já está empossado.
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Fonte: Youtube
Para Estela Santos, Não verás país nenhum “é uma distopia que apresenta o que pode ser um futuro próximo no Brasil”. Vejamos:
Em Não verás país nenhum, Souza, narrador-personagem, conta aquilo que poderá vir a ser o nosso país em pleno caos que o próprio ser humano criou com o passar do tempo: escassez de alimentos e água; proibição de livre circulação da população; opressão; autoritarismo; falsificação da história; o desastre ecológico ameaçando a sobrevivência; a violência direta e indiretamente exercida entre outros.
A história se passa em São Paulo, uma cidade tomada pela poluição, após a morte dos rios, das plantas, dos animais e na qual as pessoas fazem de tudo para sobreviver. Não só São Paulo, mas também o país é tomado pelo chamado Esquema, uma espécie de força ditatorial muito semelhante àquela de 64.
Há fichas para água, a que poucos têm acesso; fichas de circulação, pois não se pode mais circular por todo canto, cada um só pode pegar um ônibus predeterminado; carros não são mais usados; as comidas são todas feitas em laboratório; há, inclusive, um museu de água de rios. A história, nos livros, é sempre reescrita, de acordo com as ordens e critérios do Esquema.
Neste romance, após experiências em laboratórios e explosões nucleares, pessoas se tornaram doentes; as mulheres são estéreis, as crianças quase não existem mais. De todo lado surgem pessoas estranhas, fugindo do forte sol que aniquila qualquer vida. Muitas têm uma aparência assustadora: há os carecas que estão descascando; pessoas que perdem as unhas; sujeitos sofrem de ossos amolecidos; há os que ficaram cegos, ou que os olhos saltaram e ficaram despencados; há os sem destes; os sem nariz; e aqueles com furos nas mãos.
Há um medo generalizado, entre o que se pode considerar “classe média” de invasões e de assassinatos por parte desses miseráveis. Pobres, menos favorecidos, são transferidos para os chamados Acampamentos Paupérrimos, onde vivem em condições desumanas.
Se as palavras de Estela Santos ilustram tão bem a trama do romance, sua atualidade é o que há de mais assustador na obra distópica de Brandão. A começar, por exemplo, pela escassez de água e as secas. Principalmente, no que diz respeito à cidade de São Paulo, que já passou por vários momentos de escassez. Apenas teve acesso abundante à água quem tinha condições financeiras para comprá-la, o que não se aplica à grande parte da população.
Além disso, outro fato ambiental é o desmatamento. Em Não verás país nenhum, a falta de preservação do meio ambiente gerou tanto a inexistência de alimentos, os quais passaram a ser feitos em laboratórios, quanto a ausência de chuvas, calor insuportável e a escassez de água.
Na obra, o que não foi desmatado, foi vendido para outros países, como é o caso da Amazônia. Esta, sabemos, tem ido pelo mesmo caminho, tem sido frequentemente desmatada, fatiada e entregue a outras mãos. O calor no livro é insuportável. Não há mais chuvas há anos. Não podemos dizer que atualmente, em nossa realidade, isso acontece. No entanto, não podemos negar que nossa camada de ozônio está a cada dia mais obstruída e que, por isso, está cada vez mais calor e cada vez menos frequente dias chuvosos ou frios.
Outra questão, por fim, é o autoritarismo militar. Muitas vezes já presenciamos situações de violência policial, ou tomamos conhecimento por meio de notícias, nas quais imperam a opressão e uma carga de autoritarismo, seja nos protestos ou nas favelas. A polícia brasileira, hoje, é considerada uma das mais violentas do mundo. Diante disso, a população brasileira tem estado, cada vez mais, insegura diante a polícia, o que deveria ser o contrário.
Como foi escrita nos anos 80, não dava ainda para profetizar o holocausto dos bolsominions e bozonaros. Mas eles estão aí!!!! Há Esquema e que Esquemão!








