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O funeral de Vavá e a literatura que explica a realidade

Deneval Siqueira Por Deneval Siqueira
31/01/2019 - 13:55 - atualizado em 17/10/2019 - 21:48
em Opinião
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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o irmão Vavá | Foto: DCM

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Lula, um preso político impedido de velar o irmão; o complô de uma justiça cínica que rasga a constituição e escarra sobre os direitos humanos; Leia mais:

Nesta quinta-feira (31), um dia após o funeral de Vavá, irmão do Ex-Presidente Lula, a quem foi negada a ida ao velório do irmão, rasgando a Constituição que rege as leis brasileiras, leio e excelente artigo de Hildegard Angel no Jornal do Brasil, intitulado “O funeral que Mamã Grande não foi”. Genial!!!

Além da foto do enterro de Vavá, o texto cita Os Funerais de Mamã Grande, de Gabriel Garcia Márquez, indiciando o realismo fantástico do episódio de LULA e o enterro do irmão Vavá a ele negado o comparecimento por várias instâncias do judiciário corrupto e vendido do Brasil.

Angel nos diz em alto e bom tom: “ O funeral de ontem não foi o de Mamã Grande. Foi o de Vavá, estimado cidadão de São Bernardo do Campo, morador há 40 anos na mesma casa, que modesto viveu, modesto morreu. Esse legado de dignidade, ninguém quis reivindicar ou comentar. O que se disputou vorazmente foi de quem seria o maior vexame. Do Judiciário, da Polícia Federal ou do Ministério da Justiça? Nesse vale tudo até rasgar a Constituição foi permitido”.

Vou mais longe no tempo. Sófocles nos presenteou com a tragédia Antígona, composta por volta de 442 AC, um clássico grego, cuja trama se dá em torno da história de Antígona, uma mulher que desafia Creonte, o Rei tirano de Tebas.

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Ao declarar guerra aos inimigos de Tebas, Creonte vê sua liderança ameaçada pela divergência entre os dois irmãos de Antígona, Etéocles e Polinice, pois um decide lutar por Tebas e o segundo por Argos, terra inimiga.

Este impasse causa uma sucessão de contrários até que se dá a hybris: sendo Antígona noiva de Hêmon, filho de Creonte, desafia o rei depois que os dois irmãos, numa luta em frente ao palácio, se matam. Creonte, então, manda dar todas as honras fúnebres ao irmão que lutava ao seu lado, Etéocles, e proíbe que enterrem o outro, Polinice, para ser devorado por cães e abutres e não fazer sua passagem para o Hades, mundo dos mortos.

Inconformada com o édito do Rei, Antígona, filha de Édipo,  passa pela guarda e consegue enterrar o irmão deserdado. Creonte descobre e furioso manda desenterrá-lo. Antígona, em nova tentativa de enterrar o irmão, é pega e presa. Conduzida até Creonte, é condenada ser sepultada viva. E sua condenação provoca uma série de outras tragédias até que Creonte se arrepende tarde demais e “já tarde se oferece em holocausto e o inimigo avança”.

Ora, enterrar o irmão! Nada mais atual, pois não? Para nós brasileiros, eu diria que ontem vivemos uma comédia de erros. Sim, um vaudeville, neste país tão assolado pela negligência promíscua de seus podres poderes, como foi clara na exposição de Angel.

Em releituras modernas, o mito de Antígona foi reescrito por Bertold Brecht e por Jean Anouilh, ambos grandes dramaturgos contemporâneos. Retomado  e reiterado sempre este tema de poder enterrar nossos mortos, acho o cúmulo o cinismo dos nossos podres governantes de proibir a ida de Lula ao enterro do irmão; esse “direito negado a Lula é tão antigo e fundamental quanto as tragédias gregas”, estampa a manchete do site do “Jornalistas Livres” desta quinta-feira (31). “Um corpo insepulto é a maior das desonras”, diz o artigo.

Marcelo Zero, em seu artigo nesta quinta-feira (31) no Brasil247, “A Indecência dos Creontes”, nos diz que há leis que não precisam estar escritas, pois são parte constituinte da natureza humana. São leis divinas para os antigos as que hoje chamamos elementos constituintes do direito natural.

É por esse motivo que repudiamos o arbítrio ilegal que usaram na soltura de Lula para velar e enterrar seu irmão Vavá. Contesto, sim, a legitimidade das decisões estapafúrdias de seus algozes. E finalizo citando um trecho de Antígona, de Sófocles, em uma de suas falas desafiando o Rei Creonte:

“… e a Justiça, a deusa que habita as divindades subterrâneas, jamais estabeleceu tal decreto entre os humanos; nem eu creio que teu édito tenha forças bastante para conferir a um mortal o poder de infringir as leis divinas, que nunca foram escritas, mas são irrevogáveis…

Não são irrevogáveis, no entanto, como todos os brasileiros viram e ouviram, na comédia de erros, no vaudeville chamado Brasil e na decisão tomada pelos comparsas de Creonte.

Já tarde o governo e seus abutres se oferecem em holocausto. E o inimigo avança… Tenho dito!

Tags: #Ditadura do judiciário#Enterro de VaráLulao preso político
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