Jovens baleados por homem que falava “Bolsonaro” denunciam distorção em Boletim de Ocorrências; Portal VIU! localiza taxista que transportou as vítimas;
Dois jovens baleados na madrugada de sexta-feira (12) na cidade de Campos dos Goytacazes, Norte Fluminense, supostamente por crime de ódio, agora terão que enfrentar o que alegam ser uma narrativa distorcida por parte da Polícia Militar.
O boletim de ocorrências na Delegacia de Guarus, que transcreve o relato da PM, fala que os jovens foram a uma comunidade comprar drogas, uma versão que difere completamente do relato que eles dizem ter feito no Hospital Ferreira Machado, para onde foram socorridos por uma ambulância do Corpo de Bombeiros. Testemunhas e as vítimas relatam que dois homens em um Jetta branco fizeram uma abordagem perguntando: “É Bolsonaro?” Em seguida, o que estava no banco carona desceu efetuando os disparos.
A Inter TV, afiliada a Rede Globo, fez uma reportagem sobre o episódio. CLIQUE AQUI E ASSISTA
ENTENDA O CASO
C.N.F., de 20 anos, e A.S.C., de 19 anos, (os nomes estão abreviados por questão de segurança) estavam próximos ao Centro Social Urbano (CSU de Guarus), na Travessa Santo Elias, no bairro Jardim Carioca. Eles narram que saiam do Clube de Regatas Rio Branco, onde participaram de uma festa.
Dois homens chegaram no Jetta, que segundo a reportagem da Inter TV, com placa da cidade de Lençóis Paulista. A placa foi anotada por testemunhas. “O carona gritou: É Bolsonaro? Fiz sinal positivo respondendo: é 17 (número de Bolsonaro). Não sei se ele ouviu. Em seguida desceu do carro e descarregou o revólver”, lembra C.N.F. Um dos tiros feriu o seu joelho de raspão e outro atingiu o testículo. Já o colega foi atingido com um tiro nas costas e outro na perna.
Os jovens, dois afrodescendentes e moradores da periferia da cidade, foram levados para o Hospital Ferreira Machado. Estão fora de perigo, mas agora convivem com o medo. Os jovens atuam como DJs em festas durante a noite e são estudantes de escola pública, além de trabalhar durante o dia. C.N.F. é comerciário e o colega é funcionário em uma usina sucroalcooleira.
O Portal VIU! localizou o taxista que deixou os jovens no Jardim Carioca na madrugada de sexta-feira. Ele também preferiu manter o nome em sigilo e narra que as vítimas não apresentavam sinal de embriaguez ou qualquer sinal de uso de outra substância química. O taxista também afirma que os passageiros não estavam armados.
“Apanhei eles com outros dois passageiros, que ficaram em suas respectivas casas e seguimos para o Jardim Carioca. Conversaram normalmente. Foram muito educados e falaram sobre trabalho. Um deles disse ser comerciário e outro falou que trabalha como conferidor de carga de cana em uma usina”, disse o taxista.
Em entrevista a Inter TV, o delegado titular da Delegacia de Guarus, Luiz Maurício Armond, destacou que o Boletim da PM estava muito resumido e disse que a Polícia Civil vai ouvir as vítimas e familiares durante as investigações. Nesta terça-feira (16), a mãe de um dos jovens foi à Delegacia para esclarecer os fatos. O jovens não descartam a possibilidade de pedir atuação da Polícia Federal no caso, por se tratar de crime de ódio.
VIOLÊNCIA NAS ELEIÇÕES
Este não é o primeiro episódio violento no calor da campanha eleitoral. Na sexta-feira (8), o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, conhecido como Moa do Katendê, 63 anos, foi morto em Salvador-BA. Ele foi esfaqueado, segundo apontou a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), após dizer ao suspeito do crime, identificado como Paulo Sérgio Ferreira de Santana, que era contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL). Paulo Sérgio está preso em Salvador.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) condenou as agressões praticadas no Brasil durante as eleições deste ano. Em nota, a porta-voz do escritório, Ravina Shamdasani, fez, ainda, um apelo aos líderes políticos, pedindo que se mobilizem para refrear as ocorrências.
“Nós condenamos quaisquer atos de violência e pedimos uma investigação imediata, imparcial e efetiva desses acontecimentos. O discurso violento e inflamado presente nessas eleições, sobretudo contra LGBTI, mulheres, afrodescendentes e aqueles com diferentes visões políticas, é profundamente preocupante, particularmente em razão dos relatos de violência cometida contra esses indivíduos”, diz a representante no informe.








