VÍDEO | A posse da posse: Depois de voltar nos braços do povo, Getúlio Vargas pressentia que algo inesperado poderia acontecer;
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Fonte: Youtube
Em sua última disputa depois de uma ditadura do Estado Novo, Getúlio Vargas, eleito e tendo o TSE feito sua saudação protocolar, lembrando que o pleito correra livremente, sem incidentes e que a Justiça Eleitoral cumprira seu dever, a continuidade democrática fora servida.
“O mesmo calor que agora, cinco dias depois da diplomação, penetrava nos ossos e nas carnes daquela gente que comprimia nas ruas e no Palácio Tiradentes para a cerimônia da posse. A casaca que De Cicco lhe fizera, embora bem talhada, estava inadequada; quente demais. Mas o protocolo exigia o traje pesado – um presidente de país tropical usa o mesmo traje de um primeiro-ministro escandinavo ou finlandês” (p. 107).
Getúlio fez o percurso do apartamento de sua propriedade, na Avenida Rui Barbosa, até o Palácio Tiradentes, num carro aberto ao lado do vice-presidente eleito em sua chapa, João café Filho. “Não havia intimidade entre ambos, pouco se tinham visto durante a campanha, limitando-se aos cumprimentos protocolares…“ (p. 107). Cony frisa que haviam sido adversários e que Café Filho conhecera a prisão e o exílio por causa dele. É nessa hora que parece que nada mudou até hoje e que, na política de acordos, tudo vale!
A capota arriada era uma exigência popular. Afinal, Getúlio prometera subir as escadas do Catete junto com o povo. “O povo subirá comigo as escadarias do Catete”.
Cena absurda para, na opinião do autor, um homem que agora entrava no Catete levado pelo povo, ser o mesmo que, cinco anos antes, saíra de outro palácio, deposto pelas forças armadas. Do absurdo ao trágico: no futuro, quatro anos mais tarde, dali sairia num caixão. Surreal!
Houve a cerimônia de transmissão de cargo: “O general Eurico Gaspar Dutra vestira o primeiro uniforme para a transmissão do cargo. Durante cinco anos, quase nunca usava farda alguma – a presidência era considerada cargo civil. Acontece que o cidadão Eurico Gaspar Dutra entrara no Catete, naquele dia, como presidente da República e gostaria de sair de lá como general” (p. 113): a farda tinha portanto a sua explicação.
“No salão nobre, Dutra leu o discurso protocolar, fez um discreto elogio ao próprio governo […] e terminou desejando felicidade ao novo governante. (Idem)”.
Chegado o momento, passou a faixa ao homem baixo que esperava à sua frente, faixa feita sob sua encomenda. Estava consumado. Só nesse momento Getúlio se viu verdadeiramente presidente e se convenceu realmente de que voltara à presidência da República. Diz-nos o autor: “Inconscientemente, sentia que de algum lado, por algum motivo, surgiria um fato qualquer para atravessar-se à sua frente” (p. 118).
Freud pode explicar: sentia que um fato inesperado abriria o fosso e ele seria despachado outra vez para São Borja. Quase que desejava isso, disse em desabafo a sua filha Alzira. Porém as pompas e circunstâncias mostravam outra realidade: a faixa já cruzava o seu peito, estava empossado, se sofresse um colapso cardíaco teria direito a um enterro de chefe de Estado. Pois já o era novamente. Dessa feita pelo voto soberano popular! Disse poucas palavras e segundo Cony: “As frases que disse tinham um toque de emoção inusitado naquela voz fria que sabia proferir as palavras como quem lança objetos” (p. 119).
A emoção, o calor exagerado e o fraque muito apertado fez-lhe mal. Indícios. Em plena posse passou mal e foi levado à sala ao lado, logo fechada aos convidados e à imprensa. No ar, o cheiro de naftalina que se exalava do fraque alugado às pressas na Casa Rollas.
*Continua na próxima semana. O artigo é produzido com base no livro Quem Matou Vargas, de Carlos Heitor Cony. A obra é extraída de uma coletânea de capítulos semanais publicada em 1972 na revista Manchete.








