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Literatura permeada pelo racismo

redacao Por redacao
29/07/2018 - 11:54 - atualizado em 16/06/2020 - 18:49
em Cultura
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Foto: Divulgação

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Na última noite da Flip, jovens autores aclamados fazem críticas ao racismo e a Donald Trump;

Foto: Divulgação

Agência Brasil – A última noite da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) começou com críticas afiadas de dois jovens e aclamados autores. Na avaliação deles, a literatura e a sociedade ainda são permeadas pelo racismo e esse preconceito aparece, muitas vezes, nas expectativas do leitor.

Vencedor do Pulitzer, principal prêmio da língua inglesa, Colson Whitehead chamou a atenção para o fato de que personagens negros precisam sempre ter sua raça explicitada e, quando não têm, são imaginados apenas em situações específicas.

“As pessoas negras são racializadas, e as pessoas brancas são só pessoas”, disse Whitehead, que busca subverter essa lógica em seus livros, jogando com as expectativas dos leitores. VÍDEO:

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VISITA AO BRASIL

O autor contou que começou a escrever após uma visita ao Brasil, há 24 anos. Na época, ele recorda que chegou a ser parado pela polícia duas vezes. “Já me deu uma ideia clara do que é ser um homem negro aqui”, disse. Em seu retorno, ele conta que não é possível avaliar se a situação melhorou, por estar em uma “bolha de educação e gentileza”.

“Se você pergunta a uma pessoa de pele clara se há problemas raciais na França ou na Alemanha, elas dizem que não. Se você pergunta a uma pessoa de pele escura, ela vai dizer que sim, o país é super racista. Muitos países têm essa questão da autoimagem. Depende da cor da pele de quem responde”, afirmou explicando que não é só no Brasil que se nega a existência do racismo.

Estreante com o elogiado livro de contos O Sol na Cabeça, o carioca Geovani Martins conta que, em suas leituras, sempre viu personagens negros serem qualificados pela cor. Quando o autor quer se referir a esses personagens, eles são chamados de “o negro” ou “a negra”.

“Pensei: quando eu for escrever um livro, só vou descrever os brancos. Fazendo isso, percebi a potência que isso carregava”, recordou dando como exemplo um conto de sua autoria em que jovens vão fazer um rolezinho e passam por uma série de situações, sem que sua pele seja descrita. “Se você lê ‘rolezinho’ e só consegue imaginar negros, é porque você sabe que só personagens negros podem estar nessa situação”.

EXPERIÊNCIA SUBURBANA

Nascido em Bangu, na zona oeste do Rio, o escritor passou a adolescência no Vidigal. Ele credita a essa mudança de cenário a capacidade de observação que possibilitou sua escrita, que tem um ritmo acelerado e se desenvolveu também a partir de estudos sobre cinema e teatro e oficinas de leitura da Festa Literária das Periferias (Flupp). “O grande desafio do escritor é achar o ritmo de cada história”, definiu.

Para Colson Whitehead, as referências de quadrinhos e ficção lidos na juventude e o trabalho como jornalista deram ferramentas para a jornada mágica da protagonista de Os Caminhos para a Liberdade, que se inspira também no realismo fantástico latino-americano para narrar a fuga de negros escravizados do Sul para o Norte dos Estados Unidos, onde poderiam viver em liberdade. Essa fuga se dá por meio de uma rede secreta de solidariedade chamada “underground railroad” (ferrovia subterrânea), que dá título ao livro em inglês. A cada estado que cruzam, uma nova realidade fantástica se revela, desafiando os personagens.

“Foi uma decisão que tive logo no início, de não escrever um livro realista, e isso permitiu que eu ocupasse todos os espaços diferentes”, disse.

Whitehead escreveu a obra durante o governo Obama e conta que planejava produzir algo mais leve, mas não pôde se abster depois da eleição de Donald Trump e entregou novamente um livro sobre temas pesados a sua editora.

“Nunca achei que fôssemos eleger Trump. Tivemos presidentes racistas e burros, mas eleger um presidente que é burro e racista, logo depois de Obama, foi muito chocante”, criticou, sendo bastante aplaudido.

Geovani também foi aplaudido em muitos momentos. Uma das perguntas feitas pela plateia e selecionada pelo mediador questionava o atual sucesso do autor. Um dos leitores perguntou se Geovani achava que teria chegado onde chegou e seria tão “incensado” pela crítica se não fosse do Vidigal. “Quem pode responder essa pergunta são os leitores”, rebateu, sob muitos aplausos.

Uma das estrelas da Flip 2018, o autor carioca não esconde que a fama também pode incomodar, uma vez que ele é parado constantemente por fãs e leitores que pedem fotos e autógrafos. Ainda assim, ele diz que não pode reclamar e brinca: “Já trabalhei em cada coisa que pega até mal [reclamar]”.

“Estou há algum tempo sendo informado sobre números de vendas. Que vendeu tantos livros essa semana, vendeu tantos esse mês. Aqui consigo ver esses leitores, que deixam de ser números e passam a ser pessoas com histórias e relações com os livros”, disse arrancando risadas da plateia. “Ainda bem que é só uma semana”, completou.

Geovani disse que voltar à Flip 2018 é um momento especial. No ano passado, ele chegou ao evento cheio de expectativas sobre seu primeiro livro. “Volto um ano depois com o livro materializado e com um monte de coisa bacana acontecendo por causa dele”.

Tags: #Flip2018
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