Obra de Hilda Hilst para o teatro “é composta por uma indefinição histórica, por uma distância que pretende enganar o sistema dominador e perverso”; escritora é homenageada na Festa Literária de Paraty-RJ;
As personagens, principalmente o verdugo, são sublinhadas por uma conduta de quilate impecável, considerando seu lugar e sua função no grupo social. Formam dois grupos que se conflitam desde a primeira cena: pai/filho X mãe/filha. São pessoas comuns, simples, vivendo o seu dia de todos os dias, remidos nas suas carências mais imediatas: estão preocupadas com ganhar mais dinheiro, com a permanência do pai no emprego, com o vindouro casamento da filha. Há, todavia, um contraste bastante acentuado entre este quadro e a existência perturbadora daquele homem, incomum, de que falam, de um condenado à morte a quem o verdugo não quer matar. Este estranhamento traz o primeiro impacto dramático do texto de Hilst. Este contraste, brechtianamente falando, é muito útil para se jogar em cena, pois, escrito para o teatro, o texto hilstiano se acerta nos gestos, nas pausas, nas rubricas e na sequência das cenas. A existência desse homem, as palavras e as ações que lhe são atribuídas formatam o motivo do conflito que causa silêncio, indecisão, ambição, a linguagem do olhar e diversas inquietações.
Tudo imortalizado pela figura do que o homem representa e de sua transmutação no verdugo (pois que esse homem é uma ideia, uma personificação de muitas ideias políticas e situações impostas pelo autoritarismo da censura) e funciona como a ação crescente (a de falar, alertar e incitar) que levará ao desenlace trágico, implacável e original. Revela-se gradualmente um transcendente: não mais uma substância nem a simples ausência de som. Mas um modo da ação (modo silêncio); aparecendo como estilo; profundidade; aura; dimensão; verticalidade e densidade. Esse silêncio implica modos de percepção e temporalidade próprios, descritos aqui a partir das noções de Gelassenheit (Heidegger) e Awareness (Gestalt) e estabelecendo conexões com as noções de Invisível em Merleau-Ponty e de Nada no Zen-budismo.
A perícia com que a autora manipula suas personagens e arma o conflito no texto, a qualidade evidente de modo mais vivo no segundo ato, em que põe em cena a multidão caracterizada por não formar uma massa uniforme, mas por se distinguir pelas diferenças nas suas posições e falas, provoca uma série de sucessivas estranhezas, distanciamentos brechtianos, até o que chamaríamos de estranheza mais peculiar – o elemento desencadeador do conflito – é a existência de um homem de quem só se vê a figura encapuzada, de quem não se chega a ouvir uma fala, e que paira como uma interrogação sobre os comportamentos sejam de cunho racional ou emocional. A criação de uma personagem como essa é que debate a realidade num movimento e numa discussão dialéticos permanentes na peça, sendo esta a postura necessária, segundo a autora, para que se crie uma nova linguagem – uma outra sociedade, um outro indivíduo. Um exemplo de recepção produtiva do teatro brechtiano:
Brecht é fundamental porque o teatro dialético, um teatro que discute a realidade em processo, reflete a necessidade de mudanças, de transformação da sociedade. (…) Brecht será sempre imortal, quer enquanto existam os problemas que seu teatro aborda, quer depois que estes problemas tenham sido superados, porque a construção de uma nova sociedade exige uma constante discussão e uma discussão dialética.[1]
Trata-se de um texto de intervenção que se explica na intencionalidade, na mobilização por mudanças sociais. A estranheza em O Verdugo é composta por uma indefinição histórica, por uma distância que pretende enganar o sistema dominador e perverso e também pela ação do silêncio: afinal vários códigos são usados para metaforizar uma situação política extremamente grave, que encontra neste texto dramatúrgico de Hilst a intenção de construir certas metáforas de combate em que o silêncio é, sem dúvida, aquilo que está por fazer explodir a voz dos silenciados. É um texto que “culturalmente” recorre aos horizontes de expectativa dos leitores, além do deleite do jogo lúdico-pragmático, da catarse, em uma sociedade esfacelada pelo medo e pela covardia, mas que pode aprender a preencher os vazios de um texto politicamente jogado na alteridade.Referências Bibliográficas
- BRECHT, Bertold. Le Petit Organon pour le théâtre. Paris : Éd. De L’Arche, 1948.
- HILST, Hilda. Teatro Completo. São Paulo : Globo, 2008.
__________ . O Verdugo. São Paulo : Coleção de textos de teatro CEC/CET, 1969.
- JORNAL DA TARDE. Entrevista de Hilda Hilst a Leo Gibson Ribeiro. São Paulo, 15/03/1980.
- NEVES, João das. Apud ELLIS, Lorena B. El legado de Brecht no Brasil. Revista Tramoya. Caderno de Teatro. Vera Cruz : Universidad Veracruzana, julho-dez, 40/41.
- PALLOTINI, Renata. Do Teatro. Posfácio ao Teatro Completo de Hilda Hilst. In: HILST, Hilda. Teatro Completo. São Paulo: Globo, 2008.
- [1] NEVES, João das. Apud ELLIS, Lorena B. El legado de Brecht no Brasil. Revista Tramoya. Caderno de Teatro. Vera Cruz : Universidad Veracruzana, julho-dez, 40/41, p. 69.








