A corrupção que capturou todos os poderes levou a sociedade brasileira a passear com a ditadura;
Não há como chegar ao Rio e não perceber o grau de tensionamento que paira sobre este Estado. O ambiente é péssimo. É visível o cenário de todos os poderes moralmente desintegrados, que não encontram forças e crédito para conter uma guerra urbana. É um território em que o poder público, em todas as esferas, foi capturado por organizações criminosas.
O poder executivo basicamente afogou-se na corrupção, assim como o poder legislativo, aquele puxadinho da Praça Tiradentes que abriga um monte de ladrões de alta periculosidade. A Operação Lava-Jato é reveladora ao apontar como algumas figuras proeminentes da política fluminense conseguiram uma evolução patrimonial milionária às custas do dinheiro público, enquanto a sociedade enfrenta a mais condenável exclusão no que se refere ao atendimento básico.
O Ministério Público Estadual é no mínimo omisso e tem em seus quadros integrantes envoltos em suspeitas de cumplicidade com a corrupção acelerada. Os indícios são gritantes e a impunidade proporcionada pelo corporativismo inconcebível.
O Tribunal de Justiça, com honrosas exceções, tem magistrados desonrados o suficiente para não vestir toga, pois assim poupariam os juízes e desembargadores honestos das generalizações injustas. E o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), aquele órgão que tem a premissa de auditar todos os órgãos públicos? Seus conselheiros foram presos por cobrar propina de empreiteiros e autoridades.
O crime organizado em seus mais diferentes formatos encontrou terreno fértil neste ambiente promíscuo, além de contar com o apoio ideológico de uma parcela da sociedade, principalmente os chamados “pobres de direita”. Este segmento não tem o menor pudor de manifestar suas opiniões racistas, fascistas e o comportamento violento, que chega a justificar a execução sumária. Detalhe: aceita conviver com a corrupção e com grupos de extermínio desde que lhe pague. Custa baratinho e considera corrupto sinônimo de esperto.
Essa gente odeia discurso em defesa dos direitos humanos. Acredita que ser pobre é o mesmo que ser criminoso, ainda que também seja pobre ou no máximo remediado. Considera-se “pobre limpinho”, mas não entende que não passa de um domesticado e por isso (não mais que isso) é tolerado. É bonzinho desde que fique do lado de lá, no seu quadrado.
A desintegração moral do Estado do Rio revela que a favela (que a classe média frequenta para comprar drogas, mas que no discurso vende como uma espécie de nação inimiga) é, na verdade, a periferia da criminalidade. Ali está o varejo da venda de entorpecentes, mas o negócio mais lucrativo que rendeu fortunas para novos ricos está nas entranhas de todos os poderes, onde a corrupção lucra vorazmente com business propina.
Neste Rio de lama, quem faz a opção pelo enfrentamento com esta desordem institucional, está condenado a ter o mesmo destino da vereadora Mariella Franco (PSOL), assassinada no centro do Rio na noite de quarta-feira (14). Este foi apenas mais um crime de grande repercussão, mas diariamente, dezenas de pessoas sem a notoriedade de Mariella são executadas com os mesmos requintes, ficando esquecidas nas estatísticas oficiais. É possível que, desta vez, o sangue de uma negra, favelada e defensora dos direitos humanos desperte o mundo para a tragédia urbana que está devorando vidas de jovens no silêncio dos becos e vielas.
É triste constatar que a libertação do Rio de Janeiro (assim como outros Estados), deste mar de lama, dificilmente ser dará por via democrática, porque na há uma só esfera de poder capaz de atuar como moderadora no processo de restauração da normalidade. Todos os poderes estão contaminados e tentam blindagem por meio do corporativismo. Juízes têm dificuldades de punir colegas de toga. Assim como promotor não gosta de punir promotores e amigos de farda não gostam de penalizar colegas flagrados em desvio de conduta. Já o parlamento dispensa comentários.
O país caminha para instauração de um poder discricionário, cuja duração será imprevisível, porque a via democrática brasileira não prosperou. A democracia estabelecida sobre a corrupção eleitoral ampla, geral e irrestrita, infelizmente, levou boa parte da sociedade (sobretudo, a juventude) a passear com a ditadura. E o que é pior: não existe traços de uma sociedade mais ética, mais honesta e com novos hábitos nesta nova geração. Ao contrário, é uma geração apenas mais inculta e intolerante aos extremos. É o Brasil, mais uma vez, à beira de uma quartelada.








