A falta de energia deixou de ser um episódio isolado para se transformar em um problema recorrente em Quissamã e Carapebus. Nos últimos meses, interrupções e oscilações no fornecimento atingiram residências, comércio e serviços públicos, provocaram relatos de equipamentos queimados e chegaram a comprometer o abastecimento de água. Mesmo depois de decisões judiciais e de discussões sobre investimentos na rede, não há confirmação pública de uma solução definitiva para a instabilidade que afeta os dois municípios.
O problema voltou a ganhar visibilidade em outubro, quando moradores relataram novas quedas e prejuízos. Em uma residência de Quissamã, uma moradora afirmou ter perdido geladeira e outros aparelhos e estimou os danos em cerca de R$ 3 mil. Na mesma ocasião, a interrupção de energia afetou o sistema de abastecimento de água, ampliando os efeitos do problema para além das casas diretamente atingidas.
A recorrência, porém, começou muito antes. Em março de 2025, o Ministério Público do Estado do Rio instaurou inquérito civil após receber reclamações sobre apagões, oscilações de tensão e possíveis danos a equipamentos. Dois meses depois, MPRJ, Defensoria Pública e as prefeituras de Quissamã e Carapebus recorreram conjuntamente à Justiça para cobrar providências da Enel.
Justiça determinou medidas para estabilizar o serviço
Em maio de 2025, a Justiça determinou que a concessionária apresentasse um diagnóstico detalhado das interrupções ocorridas desde o início daquele ano. A decisão também exigiu o início do Plano de Ação e Investimentos do conjunto elétrico de Macaé, responsável pelo atendimento aos dois municípios. Enquanto a rede não alcançasse estabilidade, a empresa deveria adotar medidas para assegurar o fornecimento e restabelecer o serviço dentro do prazo definido judicialmente.
Mesmo assim, os problemas voltaram a atingir a região em 2026. Em setembro, uma interrupção deixou Quissamã por mais de 30 horas sem fornecimento. Diante da situação, a Justiça determinou o restabelecimento em até quatro horas e estabeleceu multa de R$ 50 mil por hora de atraso. A decisão ocorreu dentro dos processos que já discutiam a qualidade do serviço prestado pela Enel em Quissamã e Carapebus.
Naquele episódio, a falta de eletricidade afetou unidades de saúde, abastecimento de água, esgotamento sanitário, segurança pública e outros serviços municipais. A Defensoria também pediu que a concessionária apresentasse informações sobre a causa da interrupção, número estimado de consumidores atingidos, equipes mobilizadas e previsão de normalização.
Poucas semanas depois, o problema reapareceu. Em 2 de outubro, a Estação de Tratamento de Água de Quissamã ficou paralisada por falta de energia, interrompendo a produção de água para o município. Na ocasião, a Cedae informou que havia acionado a Enel e que retomaria integralmente o sistema assim que o fornecimento elétrico fosse normalizado.
No dia 7, Quissamã e Carapebus enfrentaram outra interrupção, que durou cerca de cinco horas, segundo informações publicadas à época. O episódio atingiu novamente moradores, estabelecimentos comerciais e serviços, enquanto o Hospital Municipal de Quissamã precisou manter o atendimento com apoio de geradores.
Melhorias na rede estão em discussão
Enquanto os apagões se repetiam, Prefeitura de Quissamã e Enel também discutiam mudanças estruturais no sistema elétrico. Em reunião realizada em setembro, entraram na pauta a implantação de uma nova subestação e melhorias nas redes que chegam ao município por Macaé e Barra do Furado.
A concessionária informou naquele momento que já realizava intervenções na linha proveniente de Macaé e que outras melhorias estavam previstas. A construção de uma nova subestação, entretanto, permanecia em análise técnica e a divulgação não apresentou prazo para a conclusão do projeto.
A ausência de um prazo definido ganha relevância diante do histórico recente. Na própria decisão de setembro, a Defensoria destacou que os episódios de apagão total continuavam frequentes e defendeu a execução do plano de ação, além de melhorias na rede e na subestação.
Também não encontrei, até esta terça-feira (3), uma comunicação oficial posterior que confirme a conclusão das intervenções discutidas ou declare que o fornecimento nos dois municípios esteja definitivamente estabilizado.
Há, inclusive, sinais de que as reclamações não desapareceram. Uma queixa publicada por um consumidor de Carapebus em 2 de novembro relata nova falta de energia, iniciada por volta das 14h e ainda não solucionada às 20h. O registro é um relato individual e não permite afirmar que todo o município tenha sido atingido, mas mostra que consumidores continuam levando queixas sobre interrupções aos canais públicos de reclamação.
Prejuízos também abrem discussão sobre ressarcimento
Para quem teve equipamentos danificados durante oscilações ou interrupções, as regras da Agência Nacional de Energia Elétrica preveem pedido de ressarcimento à distribuidora. Atualmente, o consumidor pode solicitar o reembolso por dano elétrico em até cinco anos. Quando o pedido ocorre nos primeiros 90 dias, o procedimento segue regras simplificadas.
A Aneel também estabelece prazos para análise e eventual ressarcimento. Equipamentos usados para conservar alimentos perecíveis ou medicamentos devem ser verificados em até um dia útil, enquanto os demais têm prazo de até dez dias para essa etapa. Se a distribuidora reconhecer o direito, o ressarcimento pode ocorrer por conserto, substituição ou pagamento do valor correspondente.
O histórico de Quissamã e Carapebus mostra, no entanto, que a discussão já ultrapassou o prejuízo individual. Quando a falta de energia paralisa estações de tratamento de água, afeta escolas, pressiona hospitais a recorrer a geradores e chega ao Judiciário de forma recorrente, o debate passa a envolver a capacidade da rede de sustentar serviços essenciais.
Mais de um ano depois das primeiras medidas judiciais, a questão permanece aberta. Há obras anunciadas, investimentos cobrados e uma nova subestação em discussão, mas também há um histórico recente de interrupções que atravessou setembro e outubro e continua alimentando reclamações.
Para os moradores, portanto, o próximo passo não é apenas saber quando a luz voltará depois de uma nova queda. É saber quando as quedas deixarão de fazer parte da rotina.
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