Ampliar a oferta gratuita de atividades culturais é a principal expectativa dos brasileiros em relação às políticas públicas para os próximos anos. É o que mostra a 7ª edição da Pesquisa Hábitos Culturais, divulgada nesta quarta-feira (14), segundo a qual 42% dos entrevistados defendem que os futuros governantes priorizem o acesso gratuito a shows, filmes, espetáculos e exposições.
O levantamento foi realizado pelo Observatório Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha, e também revelou diferenças significativas no acesso à cultura conforme a renda e a escolaridade. Apesar de a Constituição Federal garantir esse direito, os custos, as dificuldades de deslocamento e a preocupação com a segurança continuam limitando a participação de parte da população.
Desigualdade aparece no acesso ao cinema
A diferença entre as classes sociais fica evidente nos dados sobre frequência ao cinema. Nos 12 meses anteriores à pesquisa, 63% dos entrevistados das classes A e B disseram ter ido ao cinema. Entre os participantes das classes D e E, o percentual foi de apenas 18%, uma diferença de 45 pontos percentuais.
A participação em atividades culturais presenciais também apresentou variações. Entre os brasileiros das classes A e B, 97% afirmaram ter participado de pelo menos uma atividade cultural no período analisado. Nas classes D e E, o índice ficou em 82%.
Além disso, 33% dos entrevistados disseram não encontrar equipamentos culturais, como teatros, museus e cinemas, nas regiões onde vivem.
Para Ana Maria Cardoso, coordenadora do Observatório da Fundação Itaú, os resultados demonstram que as condições socioeconômicas e o nível de escolaridade influenciam as oportunidades de acesso à cultura. Segundo ela, essas diferenças não significam que pessoas com menor renda ou escolaridade valorizem menos as atividades culturais, mas que enfrentam obstáculos que vão além das preferências individuais.
Brasileiros pedem mais espaços culturais
A gratuidade foi a medida mais citada pelos participantes, mas outras iniciativas também apareceram entre as prioridades esperadas para os próximos anos.
A criação de novos equipamentos públicos, como museus, teatros e cinemas, foi mencionada por 32% dos entrevistados. Já 28% defenderam a reforma, ampliação ou modernização dos espaços existentes.
O financiamento e o incentivo à produção cultural independente foram apontados por 26% dos participantes. Outros 22% destacaram a importância de apoiar iniciativas em favelas, periferias e comunidades tradicionais, enquanto 21% defenderam a valorização e a formação de artistas e profissionais do setor.
A pesquisa também identificou dúvidas sobre o direito à cultura. Embora 68% dos entrevistados soubessem que o acesso à cultura é garantido pela Constituição, 32% afirmaram desconhecer essa garantia. Outros 27% disseram não saber o que significa ter direito à cultura.
Os dados reforçam a importância de ampliar a oferta de atividades acessíveis e de divulgar informações sobre os direitos culturais da população.
Custos são um dos principais obstáculos
O preço dos ingressos e as despesas com deslocamento foram apontados por 35% dos entrevistados como fatores que dificultam a participação em atividades culturais presenciais.
Entre aqueles que afirmaram gastar dinheiro com cultura, 46% desembolsam até R$ 100 por mês. Outros 14% gastam entre R$ 101 e R$ 150, enquanto 15% destinam de R$ 151 a R$ 200 mensais a essas atividades. Já 8% disseram gastar mais de R$ 400 por mês.
Os resultados indicam que o custo de frequentar eventos pode limitar a participação de pessoas com menor poder aquisitivo, especialmente quando os espaços culturais ficam distantes de suas residências e exigem gastos adicionais com transporte.
Insegurança também afasta o público
A preocupação com a violência aparece como outro fator importante. A insegurança foi citada por 30% dos entrevistados como motivo para evitar atividades culturais presenciais.
Outras dificuldades incluem a falta de tempo, mencionada por 23%; o cansaço e o desânimo, por 21%; a distância dos eventos e a lotação dos espaços, ambos com 19%; e a falta de transporte, apontada por 16%.
Entre as preocupações específicas relacionadas à segurança, 47% mencionaram o medo de assaltos ou furtos nas proximidades dos eventos. A falta de policiamento perto desses locais foi citada por 43%, enquanto 29% demonstraram receio de roubos durante o trajeto.
A violência contra as mulheres e o assédio em ambientes culturais também foram destacados. O problema foi mencionado por 27% dos participantes, seis pontos percentuais acima dos 21% registrados na edição anterior.
A preocupação é mais frequente entre as mulheres: 38% delas citaram esse fator, ante 14% dos homens.
Como a pesquisa foi realizada
A 7ª edição da Pesquisa Hábitos Culturais foi conduzida pelo Observatório Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha. O levantamento ouviu pessoas de 16 a 65 anos, das classes A, B, C e D/E, em diferentes regiões do Brasil.
Ao todo, foram realizadas 2.448 entrevistas presenciais e individuais em 137 municípios, entre 7 e 20 de julho de 2026.
Os resultados mostram que ampliar o acesso à cultura envolve diferentes medidas, desde a gratuidade de eventos até a criação e modernização de espaços públicos. O incentivo à produção independente, a melhoria do transporte e o reforço da segurança também aparecem como aspectos relevantes para reduzir barreiras e ampliar a participação dos brasileiros na vida cultural.
*Da Agência Fonte Exclusiva








