O comércio entre Brasil e Argentina perdeu força no primeiro semestre de 2026. As exportações brasileiras para o país vizinho somaram US$ 7,352 bilhões entre janeiro e junho, queda de 19,4% em comparação com o mesmo período de 2025. No sentido contrário, as importações de produtos argentinos chegaram a US$ 6,401 bilhões, com crescimento de 3,8%.
Apesar da redução nas vendas brasileiras e do avanço das compras, o Brasil continuou registrando resultado positivo na relação bilateral. O superávit acumulado no semestre foi de US$ 951 milhões. A corrente de comércio, que representa a soma das exportações e importações, ficou em aproximadamente US$ 13,75 bilhões, retração próxima de 10% em relação ao ano anterior.
O enfraquecimento também apareceu nos números de junho. Naquele mês, o Brasil exportou US$ 1,325 bilhão para a Argentina, redução de 18,1%. As importações atingiram US$ 1,285 bilhão, com alta de 17,2%. O saldo favorável ao mercado brasileiro ficou limitado a US$ 40 milhões.
A queda atingiu segmentos importantes da indústria nacional. Levantamento apresentado pela TV Brasil aponta que as vendas de tubos, perfis e acessórios de ferro ou aço para o mercado argentino recuaram mais de 40%. No setor automotivo, um dos principais pilares da integração produtiva entre os dois países, a redução chegou a 29%.
Os dados gerais da indústria automobilística reforçam o cenário de perda de ritmo no mercado externo. As montadoras brasileiras exportaram 216,6 mil veículos no primeiro semestre, resultado 21,2% inferior ao registrado no mesmo intervalo de 2025. Somente em junho, foram embarcadas 36,7 mil unidades, uma retração de 26,7% na comparação anual.
A Argentina continua sendo o principal destino sul-americano dos veículos produzidos no Brasil, mas reduziu suas compras. Entre janeiro e maio, o mercado argentino adquiriu 89,6 mil unidades brasileiras, queda de 33,3%. O setor também enfrenta maior concorrência de fabricantes asiáticos, especialmente no segmento de veículos eletrificados.
A retração comercial não pode ser atribuída exclusivamente às divergências políticas entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei. Os números refletem fatores como mudanças na demanda argentina, reorganização das cadeias produtivas, maior concorrência internacional e novas estratégias comerciais adotadas pelo governo de Buenos Aires.
Em fevereiro, Argentina e Estados Unidos assinaram um acordo de comércio e investimentos recíprocos. O documento amplia a aproximação econômica entre os dois países e integra a política do governo Milei de diversificação das relações comerciais argentinas.
A piora do ambiente diplomático, no entanto, adiciona incertezas a uma relação econômica construída ao longo de décadas. Após declarações ofensivas feitas por Milei durante uma passagem por São Paulo, o governo brasileiro chamou o embaixador Julio Bitelli de volta a Brasília para consultas. O representante argentino no Brasil também foi convocado pelo Itamaraty para prestar esclarecimentos.
Embora ainda não existam evidências de que o conflito político tenha provocado diretamente a queda das exportações, uma escalada prolongada pode dificultar negociações bilaterais, articulações dentro do Mercosul e a solução de obstáculos enfrentados por empresas dos dois países.
A cooperação ganha ainda mais importância após a entrada em vigor, em 1º de maio, do Acordo Provisório de Comércio entre Mercosul e União Europeia. A implementação das novas regras exige coordenação entre os integrantes do bloco, especialmente Brasil e Argentina, as maiores economias da organização regional.
Nesse contexto, a expectativa de representantes do setor produtivo e especialistas em comércio exterior é de que os interesses econômicos prevaleçam sobre as diferenças ideológicas. Brasil e Argentina possuem cadeias industriais interligadas, empresas com operações nos dois mercados e uma estrutura comercial que depende de previsibilidade, diálogo diplomático e segurança jurídica.
A manutenção dos canais institucionais será decisiva para evitar que o desgaste entre os governos amplie as dificuldades já enfrentadas por exportadores brasileiros. Os números do primeiro semestre mostram que o comércio bilateral continua relevante, mas atravessa um período de retração que exige atenção tanto das autoridades quanto do setor privado.
*Da Agência Fonte Exclusiva






