Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Stanford identificou fragmentos específicos de proteínas presentes em sementes que podem ajudar o sistema imunológico a reconhecer determinados alimentos como seguros. A descoberta amplia a compreensão sobre como o organismo desenvolve tolerância alimentar e pode contribuir para o desenvolvimento de novas abordagens no tratamento de alergias.
O estudo foi publicado em 6 de março de 2026 na revista científica Science Immunology. A investigação identificou três segmentos de proteínas — conhecidos como epítopos — encontrados em alimentos como soja, milho e trigo. Esses fragmentos interagem com células T regulatórias no intestino, que desempenham papel fundamental na regulação do sistema imunológico e na prevenção de respostas inflamatórias contra substâncias consideradas seguras.
A pesquisa foi liderada pela cientista Jamie Blum, que iniciou o trabalho em Stanford e atualmente atua como professora assistente no Instituto Salk. A investigação também contou com a participação da pesquisadora Elizabeth Sattely, professora associada da universidade.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores adotaram uma estratégia diferente da abordagem tradicional. Em vez de analisar um único alimento por vez, a equipe observou células T regulatórias presentes em camundongos alimentados com uma dieta padrão. A partir dessa análise, os cientistas rastrearam quais proteínas presentes nos alimentos eram reconhecidas por essas células.
Esse processo permitiu identificar três epítopos provenientes de proteínas de armazenamento de sementes, componentes que estão entre os mais abundantes em alimentos de origem vegetal.
Entre os resultados observados, o fragmento de proteína proveniente do milho apresentou a resposta mais intensa das células T regulatórias. Os pesquisadores apontam que isso pode estar relacionado ao fato de o milho raramente causar alergias em humanos.
O epítopo identificado na soja chamou atenção dos cientistas por outro motivo: a soja é considerada um dos principais alimentos associados a alergias. Durante a análise, os pesquisadores observaram que o receptor imunológico que reconhece esse fragmento de proteína também se liga a proteínas presentes no gergelim.
Esse comportamento pode ajudar a explicar um fenômeno conhecido como tolerância cruzada, no qual a tolerância a um determinado alimento pode influenciar a tolerância a outros.
Experimentos adicionais mostraram que essas células T regulatórias se concentram principalmente no intestino e começam a se desenvolver por volta do período de desmame. Em determinadas condições, elas podem representar até cerca de 2% do total de células T regulatórias presentes no organismo.
Os cientistas também observaram que o comportamento dessas células varia de acordo com o contexto. Em tecidos saudáveis, elas atuam para manter a tolerância imunológica. Já em ambientes inflamados, ajudam a restaurar o equilíbrio do sistema imunológico.
As alergias alimentares afetam atualmente uma parcela significativa da população. Estimativas indicam que aproximadamente 6% das crianças pequenas e entre 3% e 4% dos adultos apresentam algum tipo de alergia alimentar.
Embora os cientistas já conheçam muitas das proteínas que desencadeiam reações alérgicas — como aquelas presentes em amendoim ou ovos — os mecanismos que permitem ao organismo tolerar alimentos ainda são menos compreendidos.
Segundo os pesquisadores, reconhecer corretamente os alimentos como seguros é essencial para evitar inflamações desnecessárias e permitir a absorção adequada de nutrientes.
A equipe afirma que os resultados abrem possibilidades para o desenvolvimento de intervenções terapêuticas voltadas a redirecionar respostas imunológicas associadas a alergias ou doenças autoimunes.
Os cientistas também indicam que, no futuro, pode ser possível adaptar células T regulatórias para aumentar a tolerância a determinados alimentos. Os reagentes desenvolvidos durante o estudo já foram disponibilizados para outros pesquisadores, e a equipe pretende expandir a metodologia para investigar mecanismos semelhantes em humanos.
*Da Agência Fonte Exclusiva








