Um passeio de carro realizado em Maceió, em 1976, ajudou a antecipar uma das maiores transformações da história energética brasileira. Na época, o senador Teotônio Vilela participou de um teste com um automóvel abastecido com álcool, experiência que chamou tanta atenção que foi relatada oficialmente no Senado. O episódio ocorreu nos primeiros passos do Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, lançado pelo governo federal em 1975.
Criado em resposta ao primeiro choque mundial do petróleo, o programa tinha como objetivo reduzir a dependência brasileira de combustíveis fósseis importados. Naquele período, cerca de 70% do petróleo consumido no país vinha do exterior, o que pressionava a balança comercial e ameaçava o abastecimento interno. O aumento abrupto do preço do barril no mercado internacional expôs a vulnerabilidade energética do Brasil e acelerou a busca por alternativas.
Instituído por decreto presidencial, o Proálcool mobilizou ministérios, centros de pesquisa, produtores rurais e a indústria automobilística. A proposta era desenvolver motores movidos a álcool combustível, inicialmente produzido a partir da cana-de-açúcar, matéria-prima abundante no país. O investimento público garantiu recursos para pesquisa, expansão agrícola e adaptação industrial, criando as bases de uma tecnologia nacional.
O debate no Congresso refletia entusiasmo e cautela. Parlamentares apontavam vantagens econômicas, como a geração de empregos, o fortalecimento do setor agrícola e a redução das importações de petróleo. Também destacavam benefícios ambientais, mesmo antes de a questão climática ganhar centralidade global, ao defender que o álcool produzia menos poluentes do que a gasolina.
Ao mesmo tempo, havia preocupações com o excesso de intervenção estatal e com o risco de concentração econômica no setor sucroalcooleiro. Críticas surgiram sobre impactos sociais, como a superexploração da mão de obra rural e a expansão acelerada da monocultura da cana em algumas regiões do país.
Após anos de testes e ajustes, a tecnologia finalmente chegou ao mercado. Em 1979, a indústria lançou o primeiro automóvel brasileiro movido exclusivamente a álcool, marcando o início da popularização do combustível.
Nos anos seguintes, os carros a álcool ganharam espaço nas ruas, impulsionados por incentivos fiscais e campanhas oficiais.
O auge veio na década de 1980, quando uma parcela significativa da frota nacional já utilizava o novo combustível. A trajetória, no entanto, não foi linear. Em 1989, a escassez de álcool nas bombas provocou desconfiança dos consumidores e levou à retomada do uso da gasolina nos anos 1990.
O setor só se recuperou de forma consistente a partir de 2003, com o lançamento dos veículos flex, capazes de operar com álcool, gasolina ou a mistura dos dois.
Cinco décadas depois, os efeitos do Proálcool permanecem visíveis. A maioria dos automóveis em circulação no país é flex, e o etanol ocupa papel central na matriz energética brasileira.
Além de reduzir a dependência externa, o programa ajudou a consolidar conhecimento tecnológico, influenciou o desenvolvimento do agronegócio e contribuiu para a redução das emissões de gases de efeito estufa.
Especialistas apontam que, apesar das falhas e desigualdades geradas ao longo do processo, o Proálcool se consolidou como uma das iniciativas mais bem-sucedidas de energia renovável já implementadas no Brasil.
A experiência abriu caminho para novas soluções, como veículos híbridos flex, e mantém o país como referência internacional no uso de biocombustíveis.
*Da Agência Fonte Exclusiva







