O movimento intenso em uma das barracas de ervas do Mercadão de Madureira, na zona norte do Rio de Janeiro, revela como tradição, fé e trabalho caminham juntos há décadas. Entre clientes presenciais e pedidos feitos por telefone, a rotina de Elisabete Monteiro, comerciante conhecida no mercado popular, é marcada pela urgência de quem busca folhas específicas para rituais e celebrações religiosas.
Em muitos casos, os pedidos são feitos poucas horas antes das cerimônias. Algumas folhas, como a bananeira, são consideradas essenciais em práticas de religiões afro-brasileiras, por representarem o axé — a força vital que conecta o mundo espiritual ao material. Cada planta possui um significado próprio e pode ser usada em banhos, oferendas ou rituais específicos, de acordo com a tradição seguida.
A história da família Monteiro no comércio de ervas começou há cerca de 50 anos, com Dona Rosa, mãe de Elisabete e considerada uma das erveiras mais antigas do Mercadão. Agricultora de origem portuguesa, ela adaptou o cultivo de hortaliças após aprender, com pais e mães de santo, a plantar, colher e preparar folhas utilizadas em rituais de umbanda e candomblé. Atualmente, a família mantém três hortas no bairro de Irajá, responsáveis por abastecer feiras livres e bancas especializadas da cidade.
Segundo Luiza de Fátima Monteiro, outra filha de Dona Rosa e responsável por uma segunda barraca no mercado, a produção foi sendo ajustada conforme a diversidade das religiões atendidas. Inicialmente voltada à umbanda e ao candomblé jeje, a família passou a fornecer também para as nações Ketu, Angola e, mais recentemente, para praticantes do Ifá, filosofia de origem iorubá que vem ganhando espaço no Brasil.
Tradição que se adapta ao tempo
Para atender às novas demandas religiosas, foi necessário buscar espécies que não existiam originalmente no país. Algumas mudas vieram da Nigéria e de Cuba, trazidas por viajantes e religiosos. Hoje, plantas como orobô, obi, aridã e teté já são cultivadas localmente e fazem das barracas da família uma referência no Rio de Janeiro.
Elisabete, que também é praticante do candomblé, afirma que as tradições religiosas passam por transformações ao longo do tempo, assim como o conhecimento sobre as plantas. Novos estudos e práticas surgem, ampliando o uso das ervas tanto no campo espiritual quanto no cuidado com a saúde.
Ela lembra que, anos atrás, era mais fácil encontrar espécies exóticas em instituições como o Horto do Jardim Botânico, onde chegou a adquirir uma muda de baobá — árvore considerada sagrada nas religiões afro. Atualmente, o horto não realiza mais doações ao público, concentrando-se em ações de reflorestamento e fornecimento de mudas da Mata Atlântica para órgãos públicos.
Uso das plantas exige atenção
Embora o saber ancestral de erveiras, benzedeiras e curandeiras tenha contribuído para avanços científicos e esteja presente no cotidiano de muitos brasileiros, especialistas alertam para a necessidade de cautela. A professora de biotecnologia vegetal da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Andrea Furtado Macedo, ressalta que algumas plantas podem causar reações adversas se usadas sem orientação adequada.
Ela cita, por exemplo, a erva-de-guiné, comum em banhos espirituais, que pode provocar dermatites e queimaduras quando há exposição ao sol após o uso. Segundo a pesquisadora, o Brasil reúne uma enorme diversidade biológica e cultural, resultado da interação entre povos indígenas, africanos, europeus e comunidades tradicionais, o que favorece a inovação, mas também exige responsabilidade.
Andrea alerta ainda para os riscos da automedicação e da adulteração de plantas medicinais. Algumas espécies têm uso comprovado cientificamente, como a espinheira-santa no tratamento de gastrite e úlcera, mas nem sempre a planta verdadeira é encontrada à venda. Além disso, o uso inadequado pode causar intoxicações ou interações perigosas com medicamentos.
Nos terreiros, as orientações costumam ser feitas por lideranças religiosas, como ialorixás e babalorixás. Para Mãe Nilce de Iansã, coordenadora da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras (Renafro), esse conhecimento tradicional deve ser respeitado e valorizado. A entidade defende que práticas como banhos e cuidados com folhas sejam reconhecidas como Práticas Integrativas e Complementares de Saúde (PIC) pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Atualmente, o Ministério da Saúde já reconhece 29 práticas integrativas, incluindo reiki, yoga, homeopatia e acupuntura. Para representantes das religiões afro-brasileiras, o reconhecimento dos saberes ligados às ervas seria um passo importante para valorizar a cultura, promover a saúde e combater o preconceito religioso.
*Da Agência Fonte Exclusiva









