Presente na rotina diária de milhões de pessoas, a cafeína ocupa um lugar central nos hábitos alimentares contemporâneos. Seja no café, no chá, em refrigerantes, chocolates ou até em medicamentos e suplementos, a substância é consumida ao longo do dia e atravessa diferentes fases da vida.
No entanto, quando o assunto envolve gravidez e amamentação, o consumo de cafeína desperta questionamentos importantes sobre possíveis impactos no desenvolvimento do bebê.
Estudos internacionais apontam que cerca de 90% dos adultos consomem cafeína regularmente. A ingestão média diária varia conforme a região do mundo, indo de pouco mais de 100 mg em países asiáticos até valores superiores a 200 mg em nações como Estados Unidos, Nova Zelândia e Brasil, onde o café é a principal fonte da substância.
Em quantidades moderadas, o consumo de café tem sido associado a benefícios à saúde, como menor risco de doenças neurodegenerativas, a exemplo de Parkinson e Alzheimer, além de redução da incidência de diabetes tipo 2.
A cafeína também apresenta efeitos estimulantes sobre o sistema nervoso central, ação antioxidante e anti-inflamatória, além de contribuir para o aumento do gasto energético e da termogênese.
Por outro lado, a ingestão excessiva pode provocar efeitos indesejados, como dores de cabeça, náuseas, ansiedade, insônia e elevação da pressão arterial. Esses riscos ganham relevância especial durante a gestação e a lactação, períodos marcados por profundas mudanças fisiológicas.
Cafeína na gestação e na amamentação
Apesar das recomendações médicas para moderação, muitas mulheres mantêm o consumo de cafeína durante a gravidez. Essa prática levanta uma questão central para a ciência: quais são as consequências da exposição precoce à cafeína para o feto e o recém-nascido?
Pesquisadores do Laboratório de Fisiologia Endócrina da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) vêm investigando, por meio de estudos experimentais, os efeitos diretos e indiretos da cafeína no desenvolvimento fetal e neonatal. Nos últimos anos, o grupo publicou artigos científicos que ajudam a esclarecer essa relação.
Em uma revisão de literatura publicada em 2024, os pesquisadores analisaram cerca de 120 estudos realizados principalmente em modelos animais. As evidências mostram que a exposição precoce à cafeína pode influenciar o peso ao nascer e provocar alterações duradouras em sistemas como o endócrino, o hepático, o metabólico, o cardiovascular, o reprodutivo e até no comportamento da prole.
A semelhança entre o metabolismo da cafeína em humanos e roedores permite compreender os mecanismos moleculares envolvidos. Após a ingestão, a cafeína é rapidamente absorvida e distribuída pelo organismo, atravessando barreiras como a hematoencefálica, a placenta e a glândula mamária.
Durante a gravidez, a meia-vida da cafeína aumenta significativamente, passando de poucas horas em mulheres não grávidas para até 18 horas no final da gestação. Isso faz com que a concentração da substância no sangue materno se eleve, mesmo sem aumento no consumo diário. Como o feto não metaboliza a cafeína, a substância pode permanecer por até 100 horas no organismo fetal, levando à chamada superexposição.
Riscos gestacionais associados
A literatura científica associa o consumo elevado de cafeína durante a gestação a um maior risco de aborto espontâneo e natimortalidade, embora não haja consenso quanto à relação com parto prematuro. Em humanos, ingestões superiores a 300 mg por dia, o equivalente a três ou quatro xícaras de café, podem elevar em cerca de 31% o risco de aborto.
Em modelos animais, a exposição à cafeína durante a gravidez mostrou-se capaz de prejudicar a implantação do embrião, comprometer o crescimento fetal e levar à perda gestacional ou baixo peso ao nascer. Embora seja considerada um agente teratogênico fraco, doses elevadas podem causar malformações em uma pequena parcela dos casos.
Efeitos sobre hormônios tireoidianos
Em estudos mais recentes, os pesquisadores da Uerj investigaram o impacto da cafeína sobre os hormônios tireoidianos durante a gestação e a lactação. Os resultados indicam que mesmo baixas doses da substância podem alterar a síntese e o metabolismo desses hormônios, afetando o eixo hipotálamo–hipófise–tireoide.
As alterações observadas envolvem mudanças na produção hormonal, leves modificações na morfologia da tireoide e na expressão de genes relacionados à função tireoidiana. Esses efeitos foram mais evidentes em mães e em fêmeas adultas da prole, sugerindo impactos que podem se estender ao longo da vida.
Diferenças por sexo e fase de exposição
Outro achado relevante é que os efeitos da cafeína variam conforme o período de exposição — gestação ou lactação —, além do sexo e da idade dos filhotes. Experimentos mostraram que a exposição durante a lactação aumenta o risco de obesidade em fêmeas, enquanto, nos machos, a gestação parece ser a fase mais sensível.
Nas fêmeas, a cafeína durante a amamentação esteve associada à intolerância à glicose e maior predisposição à obesidade quando expostas à frutose. Já nos machos, a exposição pré-natal aumentou a preferência por dietas altamente palatáveis e a suscetibilidade ao ganho de peso.
Os resultados reforçam que os efeitos da cafeína não são uniformes e dependem da janela de desenvolvimento e do sexo da prole, indicando que a lactação pode ser um período particularmente crítico para as fêmeas.
O artigo foi elaborado pelos professores Patrícia Cristina Lisboa, Egberto Gaspar Moura e Luana Lopes de Souza, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e publicado na plataforma The Conversation Brasil.
*Da Agência Fonte Exclusiva








