O contato de crianças cada vez mais novas com a internet tem avançado rapidamente no Brasil e acendido um sinal de alerta entre especialistas em desenvolvimento infantil. Em menos de uma década, o acesso à rede na primeira infância mais que dobrou, passando de 11% em 2015 para 23% em 2024, atingindo quase metade dos bebês de até 2 anos e mais de dois terços das crianças entre 3 e 5 anos.
Os dados fazem parte do estudo Proteção à primeira infância entre telas e mídias digitais, divulgado nesta terça-feira (17) pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI). O levantamento reforça recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria, que contraindica o uso de telas para crianças menores de 2 anos e orienta que, entre 2 e 5 anos, o tempo não ultrapasse uma hora diária, sempre com supervisão de um adulto.
A pesquisa revela que o uso excessivo de telas está fortemente associado às desigualdades sociais. Entre crianças de famílias de baixa renda, 69% permanecem expostas por períodos prolongados a dispositivos digitais. Quanto menor a renda, maior a chance de as telas substituírem o brincar, a interação familiar e as experiências presenciais, consideradas essenciais para um desenvolvimento saudável.
Para a professora associada sênior da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto e uma das coordenadoras do estudo, Maria Beatriz Linhares, o cenário reflete a sobrecarga enfrentada por muitas famílias e a fragilidade das redes de apoio. Segundo ela, evidências científicas demonstram que a ausência de interação humana, brincadeiras e presença ativa dos cuidadores prejudica o desenvolvimento da linguagem, dos vínculos afetivos, da regulação emocional e das habilidades sociais.
Os resultados dialogam com outro levantamento nacional, o Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. A pesquisa ouviu 822 cuidadores de crianças de 0 a 6 anos e mostrou que 78% das crianças de até 3 anos têm contato diário com telas, mesmo quando os responsáveis reconhecem a importância de impor limites.
Do ponto de vista neurológico, o estudo do NCPI aponta que o uso intenso de mídias digitais pode estar associado a alterações na estrutura cerebral, afetando funções como atenção, processamento visual, reconhecimento de letras e cognição social. A professora Maria Thereza Souza, do Instituto de Psicologia da USP, explica que o consumo passivo e prolongado de conteúdos digitais compromete áreas ligadas à linguagem, ao controle emocional e à impulsividade.
Ela alerta ainda que a exposição a conteúdos inadequados — inclusive desenhos animados — pode contribuir para dificuldades de atenção em crianças de 3 a 6 anos. O risco aumenta quando há contato com materiais violentos, que podem reduzir a atividade cerebral relacionada à regulação do comportamento e elevar a propensão a atitudes agressivas. Pesquisas associam videogames e conteúdos violentos a maior incidência de ansiedade, depressão, pesadelos, dessensibilização à violência e aceitação da agressividade como forma de resolver conflitos.
Diante desse cenário, o NCPI defende a implementação de políticas públicas integradas envolvendo saúde, educação, assistência social e proteção de direitos. Entre as recomendações estão campanhas de conscientização sobre o uso responsável da tecnologia, qualificação de profissionais, fiscalização da classificação indicativa e combate à publicidade abusiva direcionada ao público infantil.
O estudo também ressalta a importância de fortalecer redes de apoio às famílias, ampliar espaços públicos voltados ao brincar e promover educação digital desde a primeira infância, garantindo experiências equilibradas, com vínculos reais e estímulos adequados ao desenvolvimento.
Pais e cuidadores são apontados como agentes centrais nesse processo de mediação. Entre as orientações práticas estão estabelecer limites de tempo conforme a idade, evitar telas antes de dormir ou durante as refeições, priorizar brincadeiras presenciais, acompanhar os conteúdos consumidos, criar ambientes domésticos livres de telas e dar exemplo de uso consciente da tecnologia.
A publicação reúne evidências de pesquisas nacionais e internacionais, como a TIC Kids Online Brasil, diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Sociedade Brasileira de Pediatria, além de estudos científicos revisados por pares sobre os impactos das telas no desenvolvimento infantil.
*Da Agência Fonte Exclusiva








