A nova série histórica da Netflix, Morte por Relâmpago, volta os holofotes para um personagem muitas vezes esquecido da política americana: o presidente James A. Garfield, assassinado em 1881 após apenas 200 dias no cargo. A produção é inspirada no livro Destiny of the Republic, de Candice Millard, lançado em 2011 e responsável por reacender o interesse na curta, porém promissora trajetória do 20º presidente dos Estados Unidos.
Entre seus descendentes, Garfield sempre foi lembrado por sua inteligência e ascensão improvável — da pobreza em Ohio à presidência — mas sua morte permanecia pouco comentada. A nova série busca preencher esse silêncio ao retratar não apenas o atentado que tirou sua vida, mas também a sequência de erros médicos que transformou um ferimento inicialmente tratável em uma tragédia nacional.
Garfield, interpretado por Michael Shannon, chegou à política após carreira como professor, pastor, advogado e general da União na Guerra Civil. Considerado progressista para sua época, defendia o direito ao voto de afro-americanos e reformas profundas contra o clientelismo político. Historiadores afirmam que, se tivesse completado seu mandato, teria desempenhado um papel decisivo na consolidação dos direitos civis durante o pós-Reconstrução.
A trama também aborda a crise interna do Partido Republicano e a ascensão de seu assassino, Charles Guiteau, vivido por Matthew Macfadyen. Guiteau, um homem instável e fracassado em diversas profissões, convenceu-se de que Garfield lhe devia um cargo público por um discurso que ele acreditava ter influenciado a eleição. Após ser ignorado pelo governo, mergulhou em delírios messiânicos que culminaram no ataque de 2 de julho de 1881.
Garfield foi atingido por dois disparos: um superficial e outro que se alojou em seu abdômen. Apesar disso, especialistas apontam que o presidente teria grandes chances de sobreviver se os médicos tivessem adotado práticas básicas de higiene. Na época, técnicas de assepsia já eram conhecidas, mas ainda encaradas com desconfiança por parte da medicina americana.
O médico que assumiu o caso, Dr. Willard Bliss, recusou métodos modernos e manipulou o ferimento diversas vezes com instrumentos não esterilizados. O resultado foi uma infecção generalizada que tomou o corpo de Garfield ao longo de 79 dias, levando-o à morte por sepse. Historiadores classificam o episódio como um dos piores casos de negligência médica envolvendo um líder mundial.
A morte de Garfield abriu caminho para mudanças políticas inesperadas. O vice-presidente Chester Arthur, que muitos temiam por sua relação com máquinas partidárias, acabou sancionando a Lei Pendleton, marco da reforma administrativa que estabeleceu critérios de mérito para cargos federais — medida que se tornou um dos principais legados indiretos de Garfield.
A série também destaca o contraste entre a popularidade dos assassinatos de Lincoln e Kennedy, constantemente revisitados pela cultura pop, e o esquecimento que cercou Garfield e o também presidente William McKinley. Só em 2018 o local onde Garfield foi baleado recebeu um memorial.
Para Millard, a produção ajuda a revelar o que o país perdeu com a morte prematura do presidente. O criador da série, Mike Makowsky, afirma que buscou preservar a humanidade e a visão política de Garfield, destacando sua inteligência, empatia e compromisso com a educação e a igualdade racial.
Morte por Relâmpago já está disponível na Netflix e promete reacender o interesse por um período crucial da história americana — e por um presidente cuja trajetória foi interrompida antes de alcançar seu potencial.
*Da Agência Fonte Exclusiva.







