Em determinado momento da vida, percebi-me esvaziado dos recursos da morte — incapaz, provisoriamente, de criar. Senti a vida tentar me convencer do seu domínio avassalador sobre mim. Delirante e sem direção, caminhei pelo solo instável da loucura, ansiando pelo despertar da morte que me visitava como fonte fecunda para o surgimento do novo.
Quando a loucura se aproxima, é como se todos os sentidos fossem desligados. O mundo exterior deixa de existir e só sobra a dor, que dilacera e paralisa — uma imobilidade quase escultural, na qual nos reconhecemos e buscamos quem nos talhou.
Nessa busca, procuramos a morte, mas ela nos surpreende: aparece com o rosto sutil de alguém carinhoso, no olhar de lágrimas e luz, na voz atenta, pronta a acolher, ouvir e responder. Para mim, essa presença ganhou nome: Dr. Cláudio Teixeira.
Com voz serena, Dr. Cláudio se fez caminho até meu mundo fechado. Talvez tenha avistado, ali, a eterna batalha entre vida e morte. Ele apostava no significado da morte como a conhecemos. Mas, paradoxalmente, seus olhos — curiosos, inquietos — me sinalizavam para não desistir, para não ceder totalmente ao apelo da vida. Percebi, como nunca, a possibilidade de criar e de admitir a condição de criador.
Dizer mais seria trair a intimidade desta relação. Loucura, para mim, tornou-se o ápice da lucidez; criar, sua mais alta consagração. Dr. Cláudio, hoje o reconheço como médico e amigo. Juntos, redescobrimos o caminho da criação que, entre morte e vida, se reinventa. Criar é, para mim, morrer e matar.
A criação nasce do instinto de morte. Conhecer a morte, ou ser reconhecido por ela, revela que sua potência não é menor que a da vida. Vida, tão zelosa da ordem e da rotina, raramente ultrapassa o fenômeno. Sua missão está em manter o previsível. Já a morte, esta sim, escancara as portas para o desconhecido, para aquilo que assombra e surpreende: a criatividade bruta. Criamos porque ousamos — abrimos espaço para o novo que, de início, é sempre alvo de resistência e confronto com tudo que já existe.
O “novo” ameaça, desestabiliza, provoca embate. Por isso, todo gesto criativo é também um gesto de ousadia, quase suicida: exige negar a si, transcender os próprios limites, morrer aos poucos para que algo diferente surja.
Esse é um processo doloroso, quase demencial: é preciso esquecer as configurações do real e permitir que a escuta transgrida todas as regras dos sentidos. No êxtase criador, nada é mais fértil que a entrega ao fluxo imprevisível, abrindo-se para superar o mundo que insiste em atropelar nossa essência.
Morremos a cada impulso criativo e matamos também. O novo precisa disputar espaço com o já criado — duas realidades não convivem sem conflito. Criar é desafiar o criador, é o filho matando o pai!
A linguagem — seja qual for a expressão artística —, quando ousada, ganha seu território próprio, sem parâmetros possíveis, pois pode ser morte: uma morte sem rosto. Só o artista tem rosto — até o instante em que se depara, face a face, com sua própria obra. É nesse momento sagrado que sua identidade se dissolve, transformando-se em máscara, em comunhão com o universo de todos os santos.








