Descobertas do rover Perseverance na Cratera Jezero apontam para condições habitáveis em múltiplos períodos de Marte, com minerais formados em água neutra e alcalina, ideais para microbiologia. Confirmação de vida antiga, porém, depende de análise terrestre, numa corrida contra a missão chinesa Tianwen-3.
A busca por vida antiga em Marte deu um salto significativo com novas evidências de que a Cratera Jezero já hospedou ambientes potencialmente habitáveis em múltiplos episódios de sua história. Um estudo publicado no Journal of Geophysical Research revela que rochas vulcânicas na cratera interagiram repetidamente com água líquida, criando condições que poderiam ter sustentado vida microbiana .
A pesquisa, liderada por Eleanor Moreland da Universidade Rice, analisou 24 minerais coletados pelo instrumento PIXL a bordo do rover Perseverance da NASA.
Os dados, processados pelo algoritmo MIST (Identificação Mineral por Estequiometria), mostram três fases distintas de interação água-rocha: uma inicial com fluidos quentes e ácidos, registrados em minerais como greenalita e hisingerita; e fases posteriores com águas mais frias, neutras e alcalinas, que formaram minerais como minnesotaíta, clinoptilolita e sepiolita – estes últimos considerados altamente hospitaleiros para microrganismos .
“Houve várias vezes na história de Marte em que essas rochas vulcânicas específicas interagiram com água líquida e, portanto, mais de uma vez em que esse local hospedou ambientes potencialmente adequados para a vida”, explicou Moreland em comunicado .
A presença de sepiolita, um mineral tipicamente formado em águas alcalinas e frias, em várias regiões exploradas pelo Perseverance, sugere um prolongado período de condições favoráveis à vida .
Essas descobertas contextualizam e reforçam os achados recentes da NASA no “Cânion Safira” (Sapphire Canyon), dentro da mesma cratera, onde o Perseverance detectou em 2024 possíveis bioassinaturas – incluindo os minerais vivianita e greigita, que na Terra estão frequentemente associados à atividade microbiana .
Um artigo na Nature descreveu a amostra “Sapphire Canyon” como contendo “a evidência mais clara até agora” de vida antiga em Marte, embora explicações não biológicas ainda não possam ser descartadas .
Algoritmo é chave
O algoritmo MIST, desenvolvido na Universidade Rice, tem sido fundamental não apenas para decifrar a história geológica de Jezero, mas também para priorizar quais amostras o Perseverance deve coletar para futuro retorno à Terra. Ele identifica minerais, atribui níveis de confiança e ajuda os cientistas a focar nas regiões mais relevantes para a busca por vida .
Katie Stack Morgan, cientista do projeto Perseverance no JPL, destacou que o rover está “perto do limite do que pode fazer em Marte”. Sua carga útil foi projetada para identificar bioassinaturas e coletar amostras, mas a confirmação definitiva requer análise em laboratórios terrestres avançados .
Nova corrida espacial
O programa de Retorno de Amostras de Marte (MSR) da NASA, que planejava trazer as amostras coletadas pelo Perseverance até 2035, enfrenta sérios desafios. Cortes orçamentais levaram a uma revisão do projeto, com a agência buscando formas “mais rápidas e baratas” para completar a missão, sem detalhar novos cronogramas ou custos .
Enquanto isso, a China avança agressivamente com sua missão Tianwen-3, planejada para 2028. A ambiciosa missão pretende coletar pelo menos 500 gramas de solo e rochas marcianas e retorná-los à Terra até 2031 – potencialmente garantindo ao país as primeiras amostras do Planeta Vermelho e a liderança na ciência planetária .
A Tianwen-3 empregará métodos inovadores de coleta, incluindo raspagem superficial, perfuração profunda (até 2 metros) e o uso de um drone para ampliar o raio de ação. Seu objetivo principal é buscar sinais de vida passada, estudar a evolução da habitabilidade de Marte e investigar sua estrutura geológica .
O veredicto final
A comunidade científica enfatiza que, embora as evidências sejam extremamente promissoras, a confirmação definitiva de vida antiga em Marte exigirá a análise das amostras em laboratórios na Terra. Instrumentos mais sensíveis e sofisticados são necessários para descartar conclusivamente origens não biológicas para os minerais e compostos orgânicos encontrados .
“Alegações astrobiológicas, particularmente aquelas relacionadas à possível descoberta de vida extraterrestre no passado, exigem uma quantidade extraordinária de evidências”, alertou Katie Stack Morgan, ecoando o princípio científico de cautela .
Enquanto aguardamos o próximo capítulo dessa jornada épica, as descobertas do Perseverance pintam um quadro cada vez mais complexo e fascinante de um Marte antigo, dinâmico e potencialmente vivo. A corrida para trazer essas preciosas amostras para casa não é apenas uma competição nacional, mas um passo crucial para a humanidade responder uma de suas perguntas mais profundas: estamos sozinhos no universo?
Da Agência Fonte Exclusiva.








