Encontrei Hugo Benzi em um daqueles dias que a vida nos presenteia sem aviso. Era 2005, e eu ocupava o cargo de secretário de Comunicação da Prefeitura de Campos dos Goytacazes, no Estado do Rio de Janeiro, quando avistei um senhor de cabelos brancos sentado no corredor do Centro Administrativo José Alves de Azevedo, sede do governo.
Chorava em silêncio. A cena me paralisou: um idoso, fragilizado, carregando um peso invisível. Decidi sentar ao seu lado.
— Precisa de ajuda? — perguntei, sem saber que aquela pergunta mudaria minha vida e a dele.
Seu Hugo, argentino de nascimento e peronista convicto, respondeu com uma frase que nunca esquecerei: “Sou funcionário, mas não tenho função. Sinto-me inútil.” Havia algo além da tristeza ali — um vazio existencial que o consumia. Reconheci os sinais de depressão e, num impulso que hoje chamo de destino, propus algo aparentemente absurdo:
“Quer ser meu chefe de gabinete?” Ele riu, achando graça na ideia. Mas insisti. E ele aceitou.
Assim nasceu uma relação que transcendeu hierarquias. Hugo, já próximo dos 80 anos, transformou-se em um protetor paternal. Tratava-me por “mi jefe”, mas era ele quem comandava o ritmo da secretaria. Chegava antes de todos, saía por último, e sua energia contagiava quem passava por ali. Tornou-se o anfitrião da equipe, recebendo visitas com um sorriso que escondia histórias profundas.
Havia mistérios em seu passado. Sempre pedia autorização para usar o telefone do meu gabinete para ligar a um “padre” em Buenos Aires, alguém que conhecia antes de sua fuga da ditadura argentina para o Brasil. Descobri, aos poucos, que esse padre era Jorge Mario Bergoglio, o futuro Papa Francisco, na ocasião exercendo a função de Cardeal.
Hugo falava dele com devoção: “É um homem santo”, dizia, orgulhoso da amizade que sobreviveu mesmo após sua conversão à umbanda e ao candomblé no Brasil.
Mas havia também peculiaridades cotidianas. Hugo me obrigava a comer uma paçoca após o almoço, jurando ser um “viagra popular”. Ríamos, e naqueles momentos, ele parecia esquecer as sombras do passado.
Infelizmente, seu Hugo não viveu para ver Bergoglio tornar-se Papa. Morreu vítima de uma cirrose hepática inexplicável — não bebia, não fumava. Está enterrado no distrito de Goytacazes, em Campos, levando consigo segredos de uma vida entre dois mundos: o catolicismo militante e a espiritualidade afro-brasileira.
Hoje, olho para trás e vejo que Hugo Benzi foi um mestre disfarçado de funcionário. Ensinou-me que dignidade não se resume a funções ou salários, mas à capacidade de se fazer presente. E que os encontros mais improváveis — como aquele homem chorando num corredor e um cardeal que se tornou papa — são a essência da vida.
Ele não era um santo, mas carregava santidade em gestos simples. E, em meio a ligações para Buenos Aires e paçocas afrodisíacas, deixou uma lição: a humanidade sobrevive nas conexões que cultivamos, mesmo que o mundo insista em nos dividir.








