Por Karoline Barbosa – Psicóloga
Quem nunca começou um assunto com convicção e, no meio do caminho, esqueceu o que estava falando? Quem nunca se pegou explicando demais, repetindo ideias, tentando fazer sentido enquanto falava — e, no fim, teve a sensação de que não disse nada?
É comum achar que a falta de comunicação assertiva se resume a não conseguir dizer “não”. Mas ela também se manifesta na confusão mental, na insegurança e na prolixidade. Tem gente que fala demais porque nunca aprendeu que podia ir direto ao ponto. Porque acha que, se não justificar cada detalhe, não vai ser levado a sério — ou pior, que será visto como grosso, frio ou mal-educado. Então acaba se perdendo no excesso, tentando suavizar o que nem precisava ser tão pesado assim.
A verdade é que nem sempre a dificuldade de se posicionar aparece em forma de silêncio. Às vezes, ela se disfarça em discursos longos, cheios de rodeios. Fala-se muito — mas não se diz o que realmente importa.
Falar demais também pode ser ansiedade.
Ansiedade de errar, de ser mal interpretado, de parecer ignorante ou de ser julgado por pensar diferente. Em vez de afirmar, a pessoa se explica. Em vez de se posicionar, tenta agradar. A fala vira um labirinto — e o pensamento se perde lá dentro.
Tem gente que está tão preocupada com o que o outro vai pensar, responder ou sentir, que esquece de se perguntar: o que eu realmente penso sobre isso? A atenção vai toda para fora — e por dentro, o que existe é ruído.
Isso pode vir de vivências muito anteriores: pessoas que cresceram sendo interrompidas, corrigidas o tempo todo ou desacreditadas nos próprios sentimentos costumam desenvolver um discurso ansioso, fragmentado. Não é que não saibam o que sentem — é que não confiam que o que sentem pode ser dito com clareza. Muitas vezes, nem se autorizam a sentir. Pensam que não deveriam estar tristes, incomodadas ou contrariadas. Então se anulam, se adaptam, justificam o desrespeito, como se fosse sempre exagero da própria parte. E assim vão se afastando de si mesmas — uma fala de cada vez.
Assertividade é a arte de não se abandonar
- É quando você para de ensaiar falas para ser aceito e começa a dizer o que realmente pensa — mesmo que a voz ainda tremam um pouco. Não tem a ver com ser direto só por ser. Tem a ver com se ouvir de verdade e se permitir ser ouvido também;
- É quando o discurso deixa de ser um escudo e vira um espelho;
- É quando você não fala para agradar, nem para provar nada. Fala porque sabe o que sente. Porque sabe o que quer. Porque entendeu que rodeio demais também é forma de se esconder;
- E, se você se atrapalha nas palavras, tudo bem — somos dois.
Espera aí… me perdi. Onde eu estava mesmo?
Pronto. Acontece. Comigo, com você, com todo mundo. Às vezes o raciocínio dá um nó, a frase sai embolada, a ideia escapa no meio do caminho. E tem gente que, com medo de passar por isso, prefere nem tentar. Fica calada, se anula, se exclui do debate.
Mas errar é parte do processo. Falar mal também. Ser assertivo não é ter sempre a resposta perfeita — é ter coragem de se colocar, mesmo que a fala não venha linda, limpa, pronta. A gente aprende se permitindo tentar. Errando e refazendo.
E dá para desenvolver a comunicação assertiva. Começa assim:
- Pare antes de falar: respire, perceba se está falando por impulso, por nervosismo ou por necessidade real de expressão. Uma pausa estratégica pode ser mais assertiva do que qualquer frase ensaiada.
- Use frases curtas e diretas: nem sempre é fácil, mas experimente dizer o essencial sem justificar tanto. “Isso não funciona para mim”, “isso não me faz bem”, “não estou confortável com isso”, “porque eu não quero” — são frases inteiras.
- Cheque seu corpo: quando você está sendo verdadeiro, o corpo também fala. Perceba se está tenso, com a respiração presa ou tentando agradar demais. O corpo sente quando a gente está se traindo.
- Aceite que nem todo mundo vai gostar: assertividade não é sobre ser aceito — é sobre ser inteiro. E isso, às vezes, desagrada. Mas tudo bem. Quem se comunica só para agradar vive à beira de si mesmo.
- E, por fim: seja gentil, mas firme.
A firmeza não precisa ser agressiva, e a gentileza não precisa ser submissa. O meio-termo existe. E é lá que mora a liberdade de ser quem se é — sem culpa.
Permita-se, inclusive, ser visto como o “vilão” em certos momentos. Se esse for o preço para você se manter fiel a si mesmo, então que assim seja.
E não se esqueça:
Para aprender, precisamos começar. E, sim, precisamos errar.
Karoline Barbosa – Psicóloga | Colunista sobre comportamento, saúde mental e cultura digital | Produção de conteúdo com base em Psicologia Social. Me siga no Linkedin








