A detonação quase simultânea de uma série de pagers, na terça-feira, e de walkie-talkies, nesta quarta, que causaram a morte de mais de 20 pessoas e deixaram milhares de feridos no Líbano, provocaram uma onda de condenações e cobranças de responsabilização por parte de líderes mundiais e organizações internacionais.
Aliados e adversários de Israel — a quem os ataques foram atribuídos — fizeram críticas sobretudo ao risco a civis e o Conselho de Segurança das Nações Unidas anunciou que convocará uma reunião de emergência na sexta-feira para discutir a onda de ataques. A reunião foi solicitada pela Argélia, o único país árabe no Conselho.
O ministro das Relações Exteriores da União Europeia, Josep Borrell, classificou a explosão como “extremamente preocupante”, descrevendo-a como uma ação com “danos colaterais indiscriminados” contra a população civil, após os relatos das autoridades de saúde libanesas sobre a superlotação dos hospitais devido ao alto fluxo de pacientes, muitos deles com lesões sérias, como dedos amputados e perda do globo ocular.
Ao menos dois dos mortos na terça-feira eram crianças, segundo o Ministério da Saúde libanês.
“Mesmo que os ataques pareçam ter sido direcionados [ao movimento xiita libânes Hezbollah], eles provocaram danos colaterais pesados e indiscriminados entre civis: várias crianças estão entre as vítimas. Considero a situação extremamente preocupante. Só posso condenar esses ataques que colocaram em risco a segurança e a estabilidade do Líbano, e aumentaram o risco de uma escalada regional”, disse Borrell em um comunicado nesta quarta-feira.
Representantes da ONU também condenaram o ataque. Enquanto o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que objetos civis não devem ser transformados em armas, defendendo um “controle efetivo” e o respeito por todos os países deste princípio, o alto-comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, elevou as críticas um tom acima, exigindo que os responsáveis sejam responsabilizados.
— O ataque simultâneo de milhares de indivíduos, sejam civis ou integrantes de grupos armados, sem conhecimento de quem estava de posse dos dispositivos visados, sua localização e seus arredores no momento do ataque, viola a legislação internacional de direitos humanos e, na medida aplicável, o direito internacional humanitário — afirmou o alto-comissário.
Na terça-feira, a detonação dos pagers — equipamentos eletrônicos praticamente obsoletos — causou perplexidade e surpresa ao redor do mundo. As explosões no Líbano e na Síria rapidamente foram associadas a Israel, que não se manifestou sobre a ação aparentemente direcionada a membros do Hezbollah, movimento libanês aliado ao Irã e ao Hamas no Eixo da Resistência.
As autoridades libanesas informaram que duas crianças estão entre os 12 mortos e que há um grande número de feridos, mas não há um detalhamento sobre quantos integrantes do movimento estão entre as vítimas — e se alguma figura da liderança foi afetada.
Em declaração conjunta na quarta-feira, o conselho de ministros do Líbano denunciou o que chamou de “agressão criminosa israelense” contra sua segurança e soberania, e disse ter iniciado contatos com países envolvidos e com a ONU para os confrontar “as suas responsabilidades”. A Chancelaria libanesa prometeu levar o incidente ao Conselho de Segurança da ONU quando houver apuração das responsabilidades.
‘Motivo de vergonha’
Aliados do movimento libanês também reagiram à ofensiva e, assim como as autoridades ocidentais, condenaram as detonações. Em uma declaração nesta quarta-feira, o novo presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que a ação deveria ser motivo de “vergonha” para os aliados do Estado judeu, cobrando uma manifestação sobretudo dos EUA, principal fornecedor de armas a Israel.
“Este incidente demonstrou de novo que embora os países ocidentais, e os EUA em particular, digam buscar um cessar-fogo, na prática apoiam plenamente os crimes do regime sionista”, disse Pezeshkian, citado em um comunicado, acrescentando que os aliados deveriam sentir “vergonha”.
A nação persa foi diretamente atingida pela ação de terça-feira, uma vez que o seu embaixador no Líbano, Mojtaba Amini, perdeu um olho e sofreu ferimentos graves no outro quando um pager que ele carregava explodiu.
A informação foi confirmada por integrantes da Guarda Revolucionária Iraniana a veículos internacionais, após um vídeo do diplomata sendo transportado para o hospital com os olhos cobertos por bandagens ser publicado por veículos de comunicação iranianos.
Diante da crise regional, os EUA rapidamente se afastaram de qualquer envolvimento direto com o ataque. Ainda na terça-feira, o porta-voz do Departamento de Estado, Matthew Miller, afirmou que o país “não teve envolvimento, nem estava a par” do plano — uma afirmação que foi reiterada pelo secretário de Estado, Antony Blinken.
O diplomata americano desembarcou nesta quarta-feira no Egito para discutir um novo plano de trégua entre Israel e Hamas em Gaza, sem grandes expectativas de progresso. Questionado sobre o ataque do dia anterior, Blinken se limitou a dizer que Washington ainda estava “reunindo informações” e disse que o governo americano pede que todas as partes evitem atos que possam atrair mais tensão para a região e afetar o processo de paz em Gaza.
‘Situação explosiva’
Atores regionais e internacionais demonstraram preocupação com os possíveis desdobramentos do ataque explosivo para o Oriente Médio — já desestabilizado pela guerra entre Israel e Hamas em Gaza e seus desdobramentos em Iêmen, Líbano, Síria, Irã e Iraque, além do Mar Vermelho.
A coordenadora especial das Nações Unidas para o Líbano, Jeanine Hennis-Plasschaert, alertou para o risco de uma “escalada extremamente preocupante num contexto já (…) volátil”, convocando “todas as partes envolvidas a se absterem de qualquer ação (…) que possa desencadear uma conflagração mais ampla”.
A Presidência da Rússia também alertou para o risco da ação contra o Hezbollah repercutir de forma mais ampla em uma região em que as tensões já estão elevadas. O posicionamento veio por meio de um comentário do porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, nesta quarta-feira.
— O que aconteceu, seja lá o que for, certamente está levando a uma escalada de tensões. A própria região está em uma situação explosiva… E cada incidente como esse tem o potencial de ser um gatilho — disse Peskov.
Vizinho regional, o ministro das Relações Exteriores da Jordânia, Ayman Safadi, culpou Israel pelo ataque e disse que a ação aumentava a probabilidade de uma escalada militar.
— Israel está empurrando toda a região em direção ao abismo da guerra regional —disse Safadi a repórteres. — Tal guerra teria ramificações drásticas não apenas para a região, mas para o mundo.
Da Agência Fonte Exclusiva, com informações do Jornal O GLOBO via AFP e NYT.








