Nesse bloco de mudanças, há a geracional. No histórico do imaginário do mundo do trabalho no Brasil, o grande emprego era o público, depois numa multinacional. Atualmente, diz Sardinha, o empreendedorismo tem um peso mais forte entre os jovens do que fazer carreira demorada em grandes empresas, subindo na hierarquia. Ser chefe já não é tão atraente.
Aos 23 anos, Carlos Vinicius Pacheco é estudante de Arquitetura da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Enquanto faz um estágio, ele pensa que não almeja alcançar um cargo de chefia em sua profissão, num exemplo dessa mudança em relação ao trabalho que houve nas gerações mais novas:
— Quando eu falo que tenho essa posição de não querer ser chefe, falo muito mais no sentido de não ter um negócio que dependa de mim, do que necessariamente não estar numa posição de líder. Eu assumiria uma posição de liderança, mas sem ser a chave principal para manter a coisa funcionando.
Outro fator estrutural apontado pelos analistas é o padrão de crescimento brasileiro nos últimos anos. Maria Andréia Parente, economista do Ipea, lembra que a moderada expansão da economia nos últimos anos foi muito sustentada por serviços, principalmente os prestados às famílias, que são setores nos quais há empresas de menor porte e poucos cargos de gestão e liderança.
Na outra ponta, o contingente empregado na indústria, onde estão as grandes companhias, ficou estagnado em dez anos, com uma queda de 161 mil no setor, mantendo-se em torno de 13 milhões.
— E o agronegócio, que vem crescendo, não tem tradição de gerar muitos cargos de liderança. Além da mudança organizacional nas empresas, com um único coordenador podendo abranger várias equipes, com mais espaço para profissionais multidisciplinares — cita a especialista.
Maria Andreia destaca que no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que acompanha o emprego com carteira assinada, nos últimos 12 meses, os setores que mais abriram vagas foram alojamento e construção, cujas vagas não exigem muita qualificação.
Década perdida
Rafael Cagnin, economista-chefe do Instituto de Estudos de Desenvolvimento Industrial (Iedi), afirma que a agenda forte de digitalização, mudando os métodos de gerir pessoas e processos e a progressiva incorporação de tecnologia da informação (TI) e automação explicam essa redução no número de chefes e diretores no setor. A parcela de chefes na indústria caiu de 5,1% para 4% em dez anos:
— Isso é estrutural. As funções repetitivas e que exigiam menos qualificação foram as primeiras a serem eliminadas. Agora, isso está chegando aos postos de gerenciamento.
Além disso, a última década foi praticamente perdida para a indústria, principalmente a de transformação (que exclui a parte extrativa, como petróleo e minério de ferro).
—O último período de crescimento findou em 2013. Houve duas crises muito agudas, com a recessão da indústria de 2014 a 2016, e veio a pandemia. Houve algum crescimento, mas nada acima de 1%. Houve uma recuperação parcial, mas já começou a cair em 2019. Sem dinamismo industrial, a geração de emprego fica mais comprometida.
A indústria é mais formalizada, com maior parcela de trabalhadores com carteira assinada. Empresas mais formalizadas tendem a ser mais verticalizadas, com mais níveis hierárquicos e cargos de chefia, observa Cagnin:
— Dentro dos grandes setores, a indústria tem a maior taxa de formalização. Depois de uma década de adversidade, tem essa estratégia reativa de incorporar métodos de gerenciamento que incluem enxugar cargos de gestão, incorporando tecnologias para isso.
Sandro Sacchet, técnico do Ipea, lembra que houve um período de crise que emendou na pandemia, com aumento do número de trabalhadores por conta própria e atuando em plataformas digitais, com estagnação na contratação do serviço público.
— Temos de ter estudos mais aprofundados para saber em que medida houve formalização pelo MEI ou se empregados se tornaram MEI por demanda da empresa ou do próprio empregado. Isso pode ter mudado a classificação de chefes e gerentes.
As informações são do Jornal O GLOBO.