A filha do ex-sargento da Polícia Militar Ronnie Lessa, acusado de matar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, afirmou que vai romper relações com o pai caso fique confirmado que ele cometeu o crime, em março de 2018. Mohana Lessa classificou a execução como uma “atrocidade”, que, segundo ela, “vai contra tudo” o que a família pensa.
A manifestação faz parte de uma nota publicada em primeira mão pelo ICL Notícias e, mais tarde, enviada por Mohana ao GLOBO. Na mensagem, a filha de Ronnie Lessa destaca que o pai sempre lhe garantiu ser inocente e até a ajudou nas defesas dos processos. Nos últimos dias, porém, parentes do ex-PM foram pegos de surpresa depois da revelação, pelo colunista do GLOBO Lauro Jardim, no último domingo, de que uma delação premiada de Lessa, em que ele aponta o mandante do crime, foi para o Superior Tribunal de Justiça (STJ).
“Com os últimos acontecimentos, o que posso falar em nome de toda família é que: SE ele realmente cometeu esse crime, com toda dor no meu coração, nós não poderemos mais ter qualquer tipo de relação com ele. Essa atrocidade vai contra tudo o que somos e pensamos. E, SE eu realmente perdi todo esse tempo tentando provar algo inexistente, não me restará escolha a não ser pedir que Deus o abençoe em sem caminho, que será longe do meu”, diz Mohana.
Como a colaboração tramita no Superior Tribunal de Justiça (STJ), isso indica que quem mandou matá-la tem foro por prerrogativa de função. Entre os nomes investigados pela polícia e pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) conhecidos até agora, o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) Domingos Brazão é o único com tal privilégio, conforme O GLOBO publicou nesta terça-feira.
Na nota, Mohana conta que tem esperança de que “tudo seja mentira”. Ela também narra ter sacrificado a carreira e a saúde para defender a inocência do pai, há quase cinco anos.
“Há quase 5 anos, eu tomei a decisão de abandonar minha carreira internacional e minha vida toda para me dedicar 101% a provar a inocência do meu pai no Caso Marielle e Anderson. Porque eu tomei essa decisão? Porque ele me garantiu SEMPRE que era inocente”, relata ela. “Consequências: engordei 50kg, me isolei do mundo, perdi minha carreira, meus colegas, piorei meus quadros psicológicos de TAG, tricotilomania, TEPT, depressão e TOC e passei a tomar 3 remédios pra dormir que não me fazem dormir mais do que 3 horas por noite. É um pesadelo sem fim”.
Mohana diz tomar conta de dois irmãos mais novos e acompanhar os detalhes de oito processos contra Ronnie Lessa. Ela afirma não ter contato direto com o pai há cerca de seis meses.
A família vai tentar estabelecer contato com o acusado, mas depende do aval das autoridades para falar com ele na Penitenciária Federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. O cadastro de Mohana para ingressar no presídio venceu, e ela ainda não conseguiu renovar o documento para visitá-lo ou mesmo ouvi-lo virtualmente.
Advogado afirma que vai deixar o caso, se houver delação
A notícia da chegada ao STJ de uma delação de Ronnie Lessa também surpreendeu a equipe de advogados do ex-PM. Em entrevista ao GLOBO, Bruno Castro disse que o cliente “nunca nem deu a entender” que haveria um mandante nem cogitara colaborar com os investigadores. Em conversas iniciais, segundo Castro, Lessa disse ter uma ideia de que teria disparado contra a vereadora.
— Ele acreditava saber quem tinha executado [Marielle e Anderson] em razão do modo de execução, por uma questão de assinatura do crime. Disse que não diria porque não queria colocar a família dele em risco. Nunca tive conversa sobre delação [com Ronnie Lessa], só com a família, no escritório, logo que fui contratado. Disse que, a partir do momento que fechássemos o contrato, eles tinham que saber que o meu escritório não faz delação, por ideologia jurídica. Se sair algum vídeo dele delatando, alguma assinatura dele em acordo, eu saio automaticamente do caso — disse.
Castro não soube precisar há quanto tempo não fala com Ronnie Lessa, mas prevê que só conseguirá rever o cliente depois do Carnaval.
— Qualquer preso que esteja em presídio federal não tem atendimento imediato. Tem que mandar e-mail, vai demorar de 10 a 15 dias para me responderem. Mas eu imediatamente procurei a família, que me disse que não sabe de delação nenhuma — destacou o advogado.
Castro disse considerar “possível” que o cliente tenha fechado um acordo com as autoridades sem o conhecimento da defesa. Foi o que aconteceu no caso do ex-policial militar Élcio de Queiroz, também preso em 2019 suspeito de participar dos assassinatos. Acusado de ter dirigido o carro da emboscada a Marielle e Anderson, o ex-PM acertou a colaboração com a Polícia Federal sem que seu advogado à época, Henrique Telles, soubesse. Telles decidiu deixar a defesa de Élcio de Queiroz depois disso.








