Em 2015, um consórcio liderado pela gigante do petróleo ExxonMobil descobriu imensas reservas de petróleo no mar territorial da Guiana. A novidade gera cerca de US$ 1 bilhão por ano ao pequeno país sul-americano, mas também atraiu o olhar da Venezuela, que reivindica a região do Essequibo e sua faixa costeira desde o século XIX.
Após o referendo do dia 3 de dezembro, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, alega ter o aval da população para tomar o território, que representa 70% da área terrestre da Guiana. Se houver conflito na região, a nação de 800 mil pessoas terá que lutar com todas as forças para defender uma de suas principais fontes de renda.
Bloco de Starbroek
“Bloco de Starbroek” é o nome dado às reservas de petróleo localizadas no mar territorial da Guiana. O consórcio da ExxonMobil começou a bombear petróleo da região em 2019, transformando o pequeno país em um dos maiores produtores de óleo offshore do mundo.
Com a exploração do ouro negro, a economia quadruplicou nos últimos cinco anos, fazendo o país ultrapassar o PIB per capita do Brasil ainda em 2021. A Guiana alcançou a segunda posição no ranking de riqueza por habitante em 2022, ficando atrás apenas do Uruguai, de acordo com dados do Banco Mundial. Entre 2021 e 2022, o país teve o maior crescimento percentual do PIB per capita do mundo: 57%.
A Exxon Mobil mantém 63 projetos de perfuração no bloco, com uma produção diária estimada em 600 mil barris de petróleo por dia. As projeções são de que o crescimento chegue a 1,2 milhão de barris por dia em 2027, em um cenário positivo sustentado.
Em setembro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) projetou uma expansão da economia da Guiana em 38%, por efeito da exploração de petróleo. Estimativas também apontam que o país deve superar o Kuwait, em breve, como maior produtor mundial per capita do combustível fóssil no mundo.
O potencial de exploração de petróleo na região transformou o país em palco de negócios bilionários. Em outubro, a americana Chevron anunciou a compra da Hess Corp. por U$ 52 bilhões (R$ 256 ,2 bilhões em câmbio atual) para ter acesso à exploração de petróleo na Guiana e 30% do Bloco Stabroek, onde também operam a Exxon Mobil e a chinesa CNOOC.
Takutu Graben
Muito se fala das reservas marítimas da Guiana, mas pouco se sabe sobre os depósitos terrestres. A região do Essequibo abriga o Takutu Graben, que entrecorta a fronteira com o Brasil e pode ter ricos depósitos de “petróleo leve”. Essa variação do mineral é mais fácil de refinar e pode ser usada para produzir gasolina, diesel e combustível de aviação.
No entanto, o Takutu Graben é localizado numa região remota, coberta por densas florestas que dificultam sua extração. Apenas quatro perfurações exploratórias foram feitas até 1985, uma das quais encontrou petróleo de alta qualidade e indícios de que pode haver maiores depósitos na região.
Graben é um termo usado na geologia para descrever uma fossa tectônica — uma repentina depressão no solo bordeada por terreno mais elevado. No caso de Takutu, a fossa tem 280 quilômetros de comprimento e 40 quilômetros de largura.

Petróleo venezuelano
Dona das maiores reservas de petróleo do mundo, com potencial de produção comprovado de 300 bilhões de barris, a Venezuela já esteve entre os principais exportadores globais. As sucessivas crises políticas do país, estatização de empresas estrangeiras que atuavam na cadeia produtiva e sanções internacionais minaram a capacidade de produção, que caiu de 3 milhões de barris/dia para 750 mil. A PDVSA, principal empresa de petróleo do país, também acabou implicada em uma série de escândalos de corrupção nos últimos anos.
O governo de Nicolás Maduro tem denunciado que a operação petroleira na Guiana ocorre em águas sob contestação de demarcação, o que levou Maduro a chamar o presidente da Guiana, Irfaan Ali, de “escravo” da Exxon Mobil. Após o referendo sobre a soberania do Essequibo, o presidente da Venezuela afirmou que concederá novas licenças de exploração de petróleo na região e ordenará a saída das empresas que já trabalham na área.
Embora não esteja claro como a Venezuela pretende tomar a região da Guiana, Maduro estabeleceu um prazo de três meses para que as empresas que trabalham com o governo da Guiana se retirem da região.
A situação geopolítica entrou no radar de observadores internacionais, sobretudo nas empresas que já atuam no Bloco Stabroek. Em uma entrevista durante a COP28, o diretor-executivo da Exxon Mobil, Darren Woods, chegou a afirmar que a petroleira estava centrada em produzir da maneira mais eficiente possível para ajudar o país na disputa fronteiriça com Caracas, mas negou uma intervenção política direta.
— Não tenho certeza de que a imprensa tenha captado a verdadeira intensidade da situação por lá, mas estamos vigilantes. O que podemos fazer é assegurar a ajuda ao governo da Guiana, produzindo os recursos de maneira eficiente — disse Woods.
Analistas apontam que as incertezas provocadas pelo cenário de disputa podem prejudicar e mesmo criar novos custos para a operação das empresas que já atuam na região. Contudo, apontam para um sentido muito mais retórico do que prático e executável.
— [Se as ameaças de Maduro fossem] mais do que estardalhaço, o próprio governo dos EUA poderia limitar a capacidade da Chevron de operar na região — explicou o diretor para América Latina da Rystad Energy, Shreiner Parker, em entrevista à Bloomberg. — A própria Chevron pode escolher não operar em um país que invadiu a soberania de um vizinho.
Com informações do Jornal O GLOBO








