Antes da indústria do petróleo, o setor sucroalcooleiro fomentou riquezas e gravitou em torno do poder político em Brasília
Da redação
Até o século 20, a indústria sucroalcooleira representou para o Norte Fluminense o que o petróleo simbolizou nas últimas duas décadas: dinheiro, poder político e desperdício. No apogeu, o Estado do Rio de Janeiro chegou a ter 22 usinas em funcionamento. Só nos anos 80, apontado como o final do anos dourados para os barões do açúcar e do álcool, foram 16 indústrias em pleno funcionamento.
O setor entrou em declínio entre o final dos anos 80 e início da década de 90, em função da queda na produção de matéria prima e o fechamento das torneiras do crédito oficial. A indústria do Norte Fluminense despencou enquanto as concorrentes de São Paulo conquistavam mercado com novas variedades de cana e modernização do parque industrial.
NA IMAGEM ACIMA Usina São João, em Guarus: unidade industrial antes da falência no início da década de 90 | Foto: Arquivo
Para explicar o desmonte não faltam teorias. Uma corrente afirma que os financiamentos equivocados do governo Federal durante o regime militar contribuíram para manter uma zona de conforto para a elite fluminense e ao mesmo tempo fortalecer os fabricantes de São Paulo.
Ao liberar crédito farto para a compra de equipamentos fabricados pelos fabricantes paulistas, o governo matava dois coelhos como a mesma cajadada: satisfazia o apetite dos usineiros por dinheiro e levava o fluxo de renda para São Paulo.
Outra corrente defende que o dinheiro teve como efeito colateral uma onda de desperdício. O que deveria ser investido no negócio teria, na verdade, financiou viagens, compras de patrimônios imobiliários e outras extravagâncias.
Uma constatação, no entanto, é unânime: a cana já figurou como principal geração de riqueza.
“Desde 1983 venho estudando o processo de desenvolvimento do norte do Estado do Rio, profundamente marcado pela dinâmica da economia açucareira, cujos primeiros movimentos, na região, remontam ao século XVI. O município de Campos, seu principal pólo desde a colonização, chegou a figurar entre os três maiores municípios produtores de cana e açúcar do Brasil, durante um longo período, de meados do século XVIII a meados do século XX. A região, até então, era conhecida como portadora de uma significativa pujança econômica, tendo sido amplamente favorecida pela intervenção do Estado, em investimentos de capital fixo, particularmente em drenagem e saneamento agrícola”, escreve Vianna no trabalho acadêmico “Projetos nacionais, elites locais e regionalismo”.
Já executivos do setor salientam que o financiamento deveria ter custeado técnicas modernas de irrigação, já que o clima regional estava se tornando similar ao semiárido do Nordeste, com pouca concentração pluviométrica. Só nos últimos três, no Norte Fluminense enfrenta a pior seca em mais de um século.








