Com desemprego em alta e aumento de 30% no índice de miséria, campanha pela redução de salários dos cargos comissionados em Campos-RJ ameaça alastrar;
Da redação
A crise econômica somada a queda na arrecadação está jogando os índices sociais do município de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, na lona.
De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), só nos últimos dois anos a pobreza extrema na cidade cresceu 30%. Os dados são agravados pelas últimas estatísticas do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho. Mais de 30 mil chefes de famílias estão desempregados, segundo último boletim.
NA IMAGEM ACIMA– Pacientes do Sistema Único (SUS) de Campos dos Goytacazes na fila do Hospital Álvaro Alvim, no bairro Pelinca, zona nobre da cidade
“Neste contingente, 12 mil trabalhadores perderam emprego só nos últimos dois anos. No segmento juvenil, a taxa de desemprego é de 27%. Entre os empregados com carteira assinada, 70% ganham no máximo três salários mínimos”, explica o economista Ranulfo Vidigal.
Os setores mais atingidos são comércio, construção civil e indústria de bens duráveis. Neste último tópico, há uma expectativa de pequena recuperação com o início da safra sucroalcooleira nos próximos dias, mas o emprego é sazonal, apenas durante a safra, que leva no máximo sete meses.
Das três usinas em operação, duas já estão produzindo, Sapucaia e Paraíso. A Canabrava deve começar a produzir em maio. A expectativa é de que o setor gere três mil empregos diretos de abril a novembro.
Se os índices sociais patinam sacrificando as camadas mais pobres da população, pessoas nomeadas em cargo de primeiro escalão no governo municipal contabilizam renda de marajás diante da realidade local.
Um secretário da prefeitura, por exemplo, ganha R$ 10.500 por mês, o que dá uma renda anual de R$ 136,5 mil, fora pagamento de férias e 13º. Um excelente salário para uma função que não exige grau de escolaridade ou notório saber. Para ser nomeado secretário basta uma indicação política.
Outro detalhe: boa parte de nomeados (empresários, comerciantes, jornalistas e servidores de outros órgãos), continuam atuando paralelamente em suas respectivas carreiras. Ou seja, o salário da prefeitura é uma renda extra, às vezes, até um bico.
ECONOMISTA RANULFO VIDIGAL: “No contingente de 30 mil chefes de famílias desempregados, 12 mil deles perderam emprego só nos últimos dois anos”
A situação é tão inusitada, que alguns indicados constrangidos ou impedidos de assumir funções formalmente, indicam parentes. É o caso de vereadores, que indicaram esposas, filhos, irmãos e sobrinhos.
A distorção salarial afronta carreiras ocupadas por meio de concurso. Um professor em início de carreira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com título de mestrado e doutorado e alguns até com pós-doutorado, ganha em torno de R$ 8 mil. Na universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), o mesmo salário gira em torno de R$ 9 mil. Nas duas instituições não existem flexibilidade de horário. A atuação exige dedicação exclusiva.
CAMPANHA CORTA 30
Além de inflar a folha de pagamento do município, a farra dos comissionados cria uma burocracia abastada em meio aos aflitos. Nos últimos dias, o ex-candidato à prefeitura do município, Caio Vianna (PDT), iniciou uma campanha nas redes sociais pelo corte de 30% nos salários dos cargos comissionados. A campanha #CORTA30 dispõe de uma página virtual para recolher assinatura de internautas pedindo a redução dos altos salários e a postagem de comentários dos participantes.
A campanha iniciada na noite de sexta-feira (28/04) está gerando repercussão e engajamento nas redes sociais, ao mesmo tempo em que cria um desconforto para o governo do prefeito Rafael Diniz (PPS). Figuras beneficiadas direta e indiretamente pelas nomeações acusaram o golpe, e tentam depreciar o movimento.
“O prefeito não terá escolha. Cedo ou tarde será obrigado a reduzir custo na máquina administrativa. Estamos sugerindo que ele reduza os recursos da burocracia para manter os programas sociais, os salários dos servidores concursados e os investimentos na saúde”, disse Caio.
CAIO VIANNA: “Proposta de redução de salários dos cargos comissionados para preservar os programas sociais e o rendimento dos servidores concursados”
O movimento ameaça ganhar adesão em outras cidades, como em São João da Barra, onde os secretários ganham salário de R$ 12.500 mensais.
Na cidade de Casimiro de Abreu o tema também gera repercussão. O prefeito Paulo Dames (PSB) recebe R$ 23 mil por mês e paga salário de R$ 12 mil aos secretários.
Na Câmara Municipal tramita projeto de autoria do vereador Adriano Lima (PV) para criação de um Decreto Legislativo propondo uma redução de 20%.
VEREADOR ADRIANO SANTOS LIMA é autor do projeto que pede a redução de salários de comissionados em Casimiro de Abreu | Foto: Agora Jornal
Em Quissamã, no Norte do Estado do Rio, a prefeita Fátima Pacheco (PTC) se antecipou. Ela reduziu os salários dos cargos comissionados acima de R$ 2 mil, O corte foi de 20%. Na cidade de Cruzeiro do Sul, no Acre, o prefeito Ilderlei Cordeiro (PMDB), foi ainda mais incisivo. Reduziu o próprio salário e dos comissionados em 25%.
Com a temperatura social cada vez mais elevada, as campanhas pela redução de mordomias dos cargos comissionados prometem ser a nova sensação dos movimentos sociais.