A ex-assessora Fernanda Chaves estava no carro em que a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram executados, em 14 de março de 2018. Única sobrevivente do ataque, ela recebeu O GLOBO para contar como reagiu à guinada nas investigações após a delação em que o ex-PM Élcio de Queiroz admitiu ter dirigido o veículo usado no duplo assassinato.
Cinco anos e quatro meses depois daquela fatídica noite, Fernanda afirma manter acesa a esperança de que se chegue aos mandantes do crime e comemora os recentes avanços obtidos pela Polícia Federal. Ela confessa ainda ter chorado ao ler o depoimento de Queiroz, que corrobora que o também ex-PM Ronnie Lessa seria o executor dos disparos e revela detalhes sobre como a emboscada à Marielle foi planejada.
“Meia década, né? Inacreditável, porque ainda são muito vivas em mim as lembranças de 14 de março de 2018 (data dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes). E, sim, infelizmente, até hoje há implicações na vida prática, na minha e na da minha família; certos cuidados e protocolos. Vira e mexe tem alguém que me reconhece ou fica sabendo. Em geral, solidários. Mas já teve hostilidade também, o que é muito surreal. Como pode alguém discordar da luta por justiça? É tão bizarro, socialmente falando, que haja lados nessa história, que não seja um único lado, o da justiça.
Lembrança do dia
Eu já relatei os fatos tantas vezes que é mais fácil eu me lembrar de algum detalhe do dia do que de algo que eu tenha visto ontem. Ao entrarmos no carro, estávamos bem. Aquela sensação de dever cumprido, de um dia de trabalho concluído com sucesso, sabe? Marielle queria ver o segundo tempo do jogo do Flamengo em casa. O Anderson comentou sobre o placar do jogo, que ele ouvia baixinho no rádio. Eu me lembro perfeitamente de a gente conversar sobre todas essas coisas no carro, enquanto olhávamos mensagens nos nossos celulares. Essas lembranças ficaram como cicatrizes porque eu contei e recontei tantas vezes essa história, que ficou gravado, no sentido de entalhado mesmo aqui na matriz da minha memória.
Quando li a delação do Élcio (de Queiroz, que admitiu em delação premiada ter dirigido o carro usado na emboscada), foi outro sentimento. O relato que ele faz do atentado me causou impacto porque, pela primeira vez, alguém, que não sou eu, contou aquela história. E lendo a delação também fiquei convicta de que minhas percepções daquele horror foram precisas, embora eu não tenha visto nada na hora do ataque.
Mas a delação em si foi muito impactante para mim. Mexeu muito. Eu só fui ler a íntegra, que tem mais de 60 páginas, bem tarde da noite, e chorei. O teor dessa delação é um filme de terror. Doeu demais saber que estavam monitorando a Marielle de tão de perto por tanto tempo. Foram muitos meses de monitoramento e, pelo que o Élcio disse, uma tentativa refugada. Isso é muito chocante e, certamente, deixou as outras pessoas que conviviam com a Mari abaladas. Eu fiquei abalada. Talvez eu pudesse estar nessa primeira tentativa também porque eu andava muito com ela, de táxi, de Uber, no carro dela. Mas podia ser qualquer outra pessoa, da assessoria, a Monica (Benicio, viúva), a filha Luyara…
E o mais cruel dessa história é pensar como não houve um vazamento, um disque-denúncia, uma contrainformação. Pensa: homens superarmados, carro clonado, placa fria, batedor, toda essa conjugação suspeitíssima por meses circulando pela cidade no encalço de uma vereadora, assim impunemente, tranquilamente. Realmente o Rio é inacreditável. E olha que em 2018 entrou a intervenção federal militarizada na Segurança Pública do Rio.
‘Desespero para executar’
Outra coisa muito marcante na delação do Élcio é a obstinação do Ronnie Lessa (acusado dos disparos contra as vítimas). Uma pressa, um desespero para executá-la, acabar com a vida de uma mulher como Marielle. Por quê? Para quem?
Acredito que a delação tem peso. Primeiro porque, ao confessar a participação, a estratégia da defesa de negar o envolvimento dele já vai pelo ralo: Élcio forneceu informações que puderam ser cruzadas e confirmadas, levando à materialização de provas que asseguram todo o envolvimento de Lessa, além de outras figuras. Então, não vai ter mais aquele papo de que os indícios da participação deles eram fracos. Na verdade, nem eram. Agora ele confessou.
A Marielle era uma vereadora. Então, assim, a segurança pública não é exatamente uma pauta em que é possível atuar muito institucionalmente, diferentemente de um parlamentar estadual ou federal. Mas claro que ela elaborava intelectualmente e se posicionava muito com relação à segurança pública. O Rio tem a polícia que mais mata e que mais morre, as operações em favelas são um desastre, e o número de cidadãos mortos nessa incursões, nessa chamada “guerra às drogas”, é inaceitável. É guerra aos negros mesmo. E aí, nessa linha, sim, Marielle, uma cria da favela e mulher negra que presenciou a violência nesses territórios, formulava sobre segurança e fazia muitas críticas públicas, cobrava as instituições e tal.
Mas, como vereadora, o foco do mandato dela estava mais voltado para questões de gênero, racial e LGBTQIA+ e violência contra a mulher. Marielle queria que a atuação dela pudesse interferir positivamente na vida da carioca trabalhadora, mãe, favelada, negra, na segurança e na saúde dessas mulheres, na segurança e na saúde das mulheres lésbicas, das mulheres vulneráveis, das meninas, enfim.
Antes de se eleger vereadora, Marielle coordenou a Comissão de Direitos Humanos da Alerj, que era presidida por (Marcelo) Freixo, então deputado estadual. Foi lá que Marielle despertou o desejo de se candidatar e fazer um mandato voltado às lutas das classes populares.
Linha de investigação
Não sou especialista para apontar erros ou acertos. Mas agora consigo perceber mais a atuação. Antes não parecia haver uma linha. Delegados que entravam e saíam do caso sem qualquer avanço, promotoras que deixaram o caso alegando interferência, notícias de obstrução de investigação, um governador que sequer se pronunciava firmemente sobre esses escândalos. O próprio ex-bombeiro, o Suel (Maxwell Simões Correa, preso na última segunda-feira), já havia figurado nas investigações em 2019 e respondia em liberdade. Veja, um personagem com o grau de envolvimento que ele tem no crime estava aí, solto.
Então, diante dessa nova dinâmica, sobretudo com a participação da PF, é possível supor que há uma linha de investigação mais robusta e que, em poucos meses, conseguiu entregar bem. Isso traz confiança, a ideia de que é possível se chegar mais fundo, aos mandantes. Marielle e Anderson foram assassinados no centro da cidade, do lado da prefeitura, embaixo de uma câmera. Ela estava sendo monitorada por homens fortemente armados, em carros roubados, que perambularam por meses impunemente.
Eu sempre mantive a chama da esperança acesa de que chegariam à identificação e à responsabilização dos envolvidos nesse horror e, principalmente, dos seus idealizadores e mandantes. Sempre. Primeiro, porque não há crime perfeito. E depois porque há luta. Tentaram muito arrefecer essa história, mas não conseguiram. O Brasil e o mundo continuam perguntando quem mandou matar Marielle. As chamadas “sementes de Marielle” só crescem. Os movimentos, as mobilizações, parlamentares sérios, entidades, organismos internacionais, imprensa, ninguém parou de perguntar, pelo contrário.
Não há normalidade enquanto não responderem quem mandou matar Marielle e por quê. Eu vislumbro justiça. Só isso.”








