O que começa com uma aposta de poucos reais pelo celular pode terminar em dívidas, problemas familiares e até afastamento do trabalho. Essa realidade aparece nos números de brasileiros que precisaram recorrer à Previdência Social por causa da dependência de jogos de azar.
Entre 2023 e 2025, a quantidade de pessoas que receberam benefício por incapacidade temporária associado à ludopatia saltou de 67 para 363. O crescimento foi de 441%, segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego divulgado pela Folha de S.Paulo e abordado em reportagem da TV Brasil.
O aumento chama a atenção não apenas pela velocidade, mas pelas consequências de um transtorno que, muitas vezes, começa de forma silenciosa. A pessoa aposta, perde dinheiro, tenta recuperar o prejuízo e acaba entrando em um ciclo cada vez mais difícil de interromper.
Apostas pelo celular transformaram a rotina de milhões de brasileiros
A facilidade de apostar a qualquer hora, sem precisar sair de casa, ampliou a exposição da população aos jogos de azar.
Segundo os dados apresentados pela TV Brasil, cerca de 44 milhões de brasileiros adultos já experimentaram apostas online desde a regulamentação do setor.
Uma das histórias apresentadas pela emissora é a de Kelvisson Nascimento. Acostumado a participar de loterias tradicionais, ele decidiu experimentar as apostas pelo celular em 2023.
A expectativa era conseguir algum dinheiro rapidamente. O resultado, porém, foi diferente: as perdas se acumularam e ultrapassaram R$ 1 mil.
Ao perceber que estava gastando mais do que pretendia, Kelvisson decidiu se afastar das apostas. Seu relato mostra como a promessa de ganhos rápidos pode levar o consumidor a insistir no jogo mesmo depois de sucessivos prejuízos.
Quando apostar deixa de ser diversão e vira dependência?
Nem toda pessoa que aposta desenvolve ludopatia. O problema aparece quando o jogo passa a ocupar um espaço cada vez maior na vida, comprometendo decisões, responsabilidades e relacionamentos.
A ludopatia, também chamada de transtorno do jogo, é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma condição de saúde mental.
Entre os principais sinais estão a dificuldade de controlar a vontade de apostar, o aumento progressivo dos valores utilizados, as tentativas de recuperar dinheiro perdido e a continuidade do comportamento mesmo diante de prejuízos.
Na reportagem da TV Brasil, a psiquiatra Fabrícia Signorelli explica que dois aspectos merecem atenção especial: a perda de controle e a necessidade de apostar quantias cada vez maiores.
O transtorno pode afetar o sono, a concentração, a estabilidade emocional e o desempenho profissional. Em situações mais graves, a pessoa deixa de cumprir compromissos financeiros, esconde dívidas da família e apresenta sofrimento psicológico intenso.
Trabalhadores entre 30 e 39 anos estão entre os mais atingidos
O levantamento apresentado pela TV Brasil mostra que a maioria dos beneficiários afastados por ludopatia era formada por homens, principalmente entre 30 e 39 anos.
Os casos aparecem em diferentes atividades econômicas, com destaque para os setores de serviços, indústria e comércio.
A dependência pode prejudicar a capacidade de concentração, comprometer a produtividade e provocar dificuldades nas relações profissionais.
Mas é importante distinguir duas situações: ter dívidas com apostas não significa, por si só, estar incapacitado para trabalhar. Para o reconhecimento previdenciário, é necessário comprovar que o transtorno compromete efetivamente a capacidade de exercer a atividade profissional.
Governo federal proibiu as bets em setembro de 2026
O avanço dos problemas relacionados às apostas também entrou na agenda do governo federal.
Em 25 de setembro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa no Brasil, incluindo apostas esportivas e jogos online.
A medida estabeleceu um cronograma para a retirada de recursos pelos usuários e o encerramento das operações das plataformas autorizadas.
De acordo com o Ministério da Saúde, estudos apontam que os impactos das apostas vão além do endividamento. Entre 2018 e 2025, os atendimentos relacionados ao jogo patológico e a problemas com apostas cresceram aproximadamente 140% no Sistema Único de Saúde.
A pasta também destacou estimativas de custos sociais associados aos jogos, incluindo despesas de saúde e perdas de qualidade de vida.
Embora a proibição represente uma mudança importante na legislação, os casos de dependência já existentes continuam exigindo acompanhamento e tratamento.
Quem tem dependência de jogos pode receber auxílio-doença?
Sim. O trabalhador diagnosticado com ludopatia pode solicitar o benefício por incapacidade temporária do INSS, antigo auxílio-doença, quando o transtorno o impede de exercer suas atividades profissionais.
Entretanto, o diagnóstico não garante automaticamente o pagamento.
Para ter direito, o segurado precisa comprovar incapacidade temporária para o trabalho por mais de 15 dias consecutivos, manter a qualidade de segurado e, em regra, cumprir a carência de 12 contribuições mensais, salvo exceções previstas na legislação.
A análise considera a documentação médica e as condições individuais do trabalhador. Dependendo do caso, pode ser realizada por meio do sistema Atestmed ou exigir perícia médica presencial.
O pedido deve ser apresentado pelo site ou aplicativo Meu INSS.
Quais documentos são necessários para pedir o benefício?
O INSS exige documentos médicos que permitam avaliar o estado de saúde e o período estimado de afastamento.
O trabalhador deve apresentar atestado, relatório ou laudo médico legível, com identificação do paciente, descrição da doença ou código CID, data de emissão, indicação do tempo necessário de afastamento e identificação do profissional responsável.
Relatórios de acompanhamento psiquiátrico, histórico de tratamento e outros documentos clínicos também podem ajudar a demonstrar a gravidade do transtorno.
A especialista em Direito Previdenciário Rogeana França, entrevistada pela TV Brasil, destaca que reconhecer a dependência e apresentar informações claras sobre seus efeitos na saúde são passos importantes para a avaliação previdenciária.
A decisão sobre a concessão do benefício cabe ao INSS, conforme os requisitos legais e a avaliação da incapacidade.
As consequências da ludopatia não ficam restritas à conta bancária.
A Agência Brasil relatou o caso de um homem de 42 anos que perdeu o carro, a casa e o emprego depois de acumular dívidas com jogos. Para se proteger de ameaças relacionadas aos débitos, ele chegou a se afastar da família.
Profissionais de saúde ouvidos pela agência alertam que o sofrimento provocado pelas perdas financeiras pode estar associado à ansiedade intensa, ao isolamento e, em casos graves, a pensamentos suicidas.
Essas situações reforçam a importância de procurar ajuda antes que o problema se agrave.
Onde buscar tratamento para o vício em apostas?
O Sistema Único de Saúde oferece atendimento a pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas.
O primeiro passo pode ser procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS), onde a equipe poderá avaliar a situação e indicar acompanhamento psicológico, psiquiátrico ou encaminhamento para serviços especializados.
O tratamento pode incluir psicoterapia, apoio familiar e estratégias para evitar a repetição do comportamento compulsivo.
Familiares também precisam estar atentos a mudanças bruscas de comportamento, pedidos frequentes de dinheiro, empréstimos sem explicação e tentativas de esconder prejuízos.
Quando houver sofrimento emocional intenso ou risco de suicídio, é importante buscar atendimento imediato em serviços de urgência.
O crescimento de 441% nos benefícios previdenciários associados à ludopatia entre 2023 e 2025 revela uma dimensão importante dos danos provocados pela dependência de jogos.
Os números não significam que todos os apostadores desenvolverão o transtorno, nem permitem atribuir todo o aumento exclusivamente às bets. Ainda assim, mostram que o problema passou a aparecer com maior frequência nos registros de incapacidade para o trabalho.
Para especialistas, reconhecer os primeiros sinais, procurar tratamento e evitar o agravamento das perdas são medidas essenciais.
A reportagem de Selma Dias, exibida pela TV Brasil e apresentada no programa Direto da Redação, chama a atenção para uma realidade que afeta trabalhadores e famílias em diferentes regiões do país: quando a aposta deixa de ser uma escolha controlada, suas consequências podem ultrapassar os limites da vida financeira.
*Da Agência Fonte Exclusiva




