Associados defendem que Associação Brasileira de Imprensa assuma a defesa da democracia e da liberdade de imprensa;

Um grupo de jornalistas filiados a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) iniciou um movimento para que a entidade assuma maior protagonismo em defesa da liberdade de imprensa e da democracia.

A iniciativa parte da constatação de que o Brasil precisa urgentemente de instituições fortalecidas. O grupo se reuniu na última segunda-feira (11).

EXTREMA-DIREITA NO PODER

A reunião foi aberta pelo vice-presidente da ABI, Paulo Jerônimo, o Pagê, e reuniu dezenas de associados, que demonstraram grande preocupação com os rumos da entidade durante o governo de extrema-direita do presidente Jair Bolsonaro, que assumiu o poder em janeiro estabelecendo uma rota de colisão com a cobertura jornalística. 

“O momento é de enfrentamento. A ABI não pode ficar refém de um governo que não respeita os jornalistas e a imprensa”, conclamou Pagê, que também preside a Comissão em Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI.

Há um descontentamento com a gestão do atual presidente Domingos Meirelles. Uma comissão foi formada para levar a Meirelles, uma série de questionamentos sobre os destinos da entidade que acaba de completar 110 anos.

O grupo também pretende cobrar um posicionamento mais crítico e contundente em relação a atos de violação à liberdade de imprensa ocorridos no país desde a posse do presidente Jair Bolsonaro.

CENSURA E ASSÉDIO JUDICIAL

Os associados criticaram a censura que já vem sendo imposta a jornalistas e veículos de comunicação, inclusive com excessos de ações judiciais contra sites e blogs. Como ocorre com o blog de Marcelo Auler, alvo de processos por parte de delegados da Operação Lava Jato em Curitiba, Rio de Janeiro e Santa Cruz do Sul (RS) e por soldados da Polícia Militar de Minas Gerais.

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Presente à reunião, Auler relatou ter sofrido censura imposta por um juízo de Curitiba e por um juiz em Belo Horizonte (MG). O jornalista obteve no Supremo Tribunal Federal (STF) a garantia de que funcionários investidos em cargos públicos podem estar sujeitos a críticas, sem que os autores sejam punidos.

Ex-presidente do Conselho Deliberativo da ABI em quatro gestões, Pery Cotta alertou: “Estamos diante da terrível ameaça de volta a 1964 e todos os seus retrocessos. A ditadura surgiu para acabar com a corrupção e subversão e durou 21 anos”.   

HUMILHAÇÃO NA POSSE DE BOLSONARO

As humilhações sofridas por jornalistas brasileiros e estrangeiros na posse do presidente Jair Bolsonaro, no dia 1º de janeiro, e a assinatura, pelo vice Hamilton Mourão, no dia 24 de janeiro, como presidente em exercício, de um decreto que burocratiza a Lei de Acesso a Informações também foram lembradas durante a reunião na ABI.

No caso dos constrangimentos a jornalistas na cerimônia de posse, associados lembraram que a ABI se limitou a emitir uma nota oficial com linguagem rebuscada e inapropriada, que acabou servindo de chacota nas redes sociais. Muitos criticaram o teor do texto, que atribuía a “serviçais” do Planalto o que classificava como “patuscada” do cerimonial, gerando reações de revolta e indignação dos profissionais de imprensa.

Arnaldo César disse que Pagê chegou a propor a Meirelles que entrasse com uma ação de inconstitucionalidade contra o governo federal por conta das alterações na Lei nº 12.527/2011 que regulamenta o direito constitucional de acesso às informações públicas.

O objetivo seria garantir a transparência na comunicação do governo e evitar o cerceamento da liberdade de imprensa, mas o presidente da casa não acatou a indicação. Optou por manter a linha da moderação, para não entrar em conflito com o recém-empossado presidente da República, relegando, portanto, à ABI o papel de mera expectadora desse novo capítulo da História política brasileira.  

Outra controvérsia, é o fato de Meirelles atualmente trabalhar na Rede Record, emissora que está alinhada editorialmente ao governo de Jair Bolsonaro. Há um temor de que esta relação crie embaraços diante da necessidade da ABI adotar uma linha mais crítica e contundente diante das investidas do governo contra a liberdade de imprensa.

RETOMADA DO PROTAGONISMO

O jornalista Marcus Miranda falou da necessidade de a ABI “reconquistar seu espaço histórico na sociedade, no mundo político e no meio jornalístico, em um país governado pela direita troglodita, não civilizada”.

Segundo ele, é importante que a ABI retome a dianteira na luta pela democracia no Brasil, ao lado de outras importantes instituições como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Arnaldo César, que também faz parte da Comissão de Liberdade de Imprensa da ABI, lembrou que a entidade, então chefiada por Barbosa Lima Sobrinho, foi signatária do documento que pedia o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo.

“A ABI sempre foi o bastião do patrimônio nacional. É um dos espaços mais importantes da nossa sociedade, nesses tempos de políticos tão desmoralizados”, disse Jesus Chediak, que é diretor de Cultura da ABI.

Cid Benjamim lembrou da ABI “forte e pujante” de outras eras e criticou o papel pífio da atualidade, tendo Meirelles em seu comando. “A ABI ainda tem fôlego e massa crítica. Precisa recuperar seu papel”, conclamou.

Vitor Iório propôs a criação de uma comissão para dialogar com o atual presidente, mas manifestou sua insatisfação com a atual gestão. “A era Domingos Meirelles acabou. A política dele não cabe no momento atual da política nacional”, disse.

A reportagem não conseguiu contato com o presidente da entidade, jornalista Domingos Meirelles.

 

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