Entrevista do ex-governador do Rio de Janeiro, que está preso no Complexo Penitenciário de Bangu;

O blog do ex-governador Anthony Garotinho (mantido pela assessoria de imprensa) reproduziu uma entrevista repassada pelos advogados de defesa. É o primeiro pronunciamento depois da prisão no âmbito da Operação Caixa D’Água. Confinado em uma cela do Complexo Penitenciário de Bangu, ele comenta as acusações de caixa 2, faz uma comparação entre seu infortúnio na condição de denunciante da corrupção no governo Cabral e a situação privilegiada do empreiteiro Fernando Cavendish, dono da Delta e acusado de pagar propina a políticos. O empresário está em prisão domiciliar. Sobre a delação do empresário André Luiz de Souza Rodrigues, o Deka, que deflagrou o pedido de sua prisão, ele diz que não há o menor indício de prova, apenas a palavra do acusador. Leia:

CONVERSA COM A DEFESA

O senhor alega perseguição e que não cometeu crime algum, nem mesmo caixa 2, qual o real motivo da sua prisão?

Garotinho – Não fiz caixa dois. Isso é apenas um pretexto. Agora veja que ironia: estou preso numa cela em Bangu, mas o pagador de propinas de tantas obras pelo Brasil afora, que irrigou de dinheiro sujo o grupo sujo de Sérgio Cabral está em casa. Fernando Cavendish, dono da Delta, deve estar rindo, achando inacreditável, mas essa é realidade do Rio de Janeiro. Aqui o denunciado se encontra em casa e o denunciante na cadeia.

A denuncia da Promotoria de Campos diz que o senhor recebeu R$ 3 milhões do grupo JBS e não declarou a Justiça?

Garotinho – A denuncia é toda mentirosa, recebi R$ 3 milhões do diretório nacional do PR, devidamente declarado à justiça eleitoral na prestação de contas. O doador originário também estava lá (JBS). Tudo como determina a lei. Àquela época nem eu, nem Tony Ramos, nem Roberto Carlos sabíamos qualquer coisa da Friboi. Não recebi nenhuma propina e nem caixa 2. Foi doação oficial declarada à Justiça Eleitoral, aliás, o contrato apresentado como prova, nem assinado está pela JBS. O senhor Ricardo Saud disse que a primeira vez que viu aquele contrato foi no dia em que estava a caminho de prestar depoimento. Afirmou também que nunca esteve comigo, que não me conhece, aliás, em também não conheço qualquer membro da família Batista, seja Wesley ou Joesley. O que estão fazendo comigo, minha família, com o presidente nacional do PR e outras pessoas nesse processo é uma covardia.

Existe também acusação de empresário que o senhor pediu caixa dois nas campanhas 2010 (dep. Federal), 2012 (reeleição da Rosinha) e 2014 (governo do Estado), isso também não é verdade?

Garotinho – É mentira, não fiz e ele não apresentou nada que comprove pelo menos indícios do que fala. Só na palavra. O problema da minha prisão tem nome e endereço: vingança de Cabral e perseguição dos que dão apoio político ao grupo que está à frente da Prefeitura de Campos.

O que o senhor pretende fazer?

Garotinho – Sinceramente não sei.  Vou recorrer a quem? Sinto-me indefeso.  No dia 6 de outubro de 2017, quase dois meses antes desta prisão, protocolei no gabinete civil do Palácio Guanabara um pedido de escolta polícia, por receber informações de um inspetor do presídio de Benfica, que Cabral vinha dizendo que iria me matar, e nenhuma providência foi tomada. Fui ao procurador geral do MPE (Ministério Público Estadual) e relatei os mesmos fatos, também nada aconteceu. Fui preso e levado para Benfica, lá fui torturado e ameaçado de morte. Já tive um celular e oito pen drives sequestrados ilegalmente. Comuniquei o fato a Polícia Federal e o Ministério Público Federal de Campos, até agora não deu nenhuma resposta. Estamos vivendo uma espécie de ditadura disfarçada de legalidade.

O senhor teme a ser morto?

Garotinho – Vou fazer 58 anos no início do ano que vem. Já vivi mais tempo de vida do que provavelmente tenho pela frente, 10 anos, 20 anos ou 30 anos, sejam quanto for. É muito pouco para você abandonar seus sonhos com medo de morrer. No início da minha vida acharam que o oposto da minha fé era a dúvida. Com o passar do tempo, descobriram que é o medo. Estou me sentindo humilhado, injustiçado, mas nunca abatido ou acovardado. Há uma palavra de Jesus que considero fantástica: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertarás”. Essa frase lida ao inverso fica ainda mais fantástica: “A verdade que não liberta não é verdade, é mentira”.  Não é perfeito? A mentira escraviza e deixa o povo na ignorância. É preciso enfrentar a verdade gostando ou não dela. Os processos contra mim são construídos de mentiras. Isso é intolerável no estado democrático de direito.

O senhor não teme ficar mais tempo preso por retaliação ou vingança do desembargador (Luiz) Zveiter?

Garotinho – Quando olho as acusações contra mim, acharia cômico se não estivesse numa cela. Acusado de dar cheque cidadão (comida) aos pobres em troca de votos e caixa 2.

Mas o senhor teme ou não ficar preso?

Garotinho – Quando você está preso sem ser julgado, sem a mínima prova objetiva exigida pela lei, sem ter sido sequer ouvido, numa ação movida por pessoas que querem persegui-lo, tudo é possível.

E a acusação do caixa dois?

Garotinho – Não houve. Mas digamos que fosse verdade. É um crime. Mas por que só eu estou preso? Se somente a JBS afirma ter dado dinheiro de caixa dois a mais de 1.500 políticos do Brasil? E as empreiteiras que deram dinheiro para caixa dois da campanha de Eduardo Paes e quase toda a totalidade dos políticos brasileiros? Claro que não é isso, é o medo da verdade. Estou sendo vítima de uma covardia por ter denunciado a quadrilha de Cabral.

*Fonte: Blog do Garotinho

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